sábado, 27 de junho de 2026

MINHA VIDA DE ABOBRINHA (2016)

 

LETÍCIA CAROLINA MÁXIMO MOTTA

 

  Minha Vida de Abobrinha é um filme de animação em stop motion lançado em 2016 e dirigido por Claude Barras. Apesar de ser uma animação, a obra aborda temas profundos e sensíveis, como abandono, violência doméstica, luto, adoção e a importância dos laços afetivos. O filme mostra que, mesmo diante de situações difíceis, é possível encontrar esperança, carinho e um novo começo.

  A história acompanha Icare, um menino conhecido pelo apelido de Abobrinha. Após um acidente que causa a morte de sua mãe, ele é levado para um orfanato, onde acredita que nunca mais será feliz. No início, Abobrinha sente medo, tristeza e dificuldade para se relacionar com as outras crianças. No entanto, aos poucos, ele percebe que todos os colegas também carregam histórias de sofrimento e abandono. Essa convivência faz com que eles criem uma amizade sincera, baseada na compreensão, no respeito e no apoio mútuo.

  Um dos pontos mais marcantes do filme é a forma delicada com que trata assuntos tão complexos. Em vez de focar apenas na tristeza, a narrativa mostra a capacidade das crianças de superar as dificuldades por meio da amizade, do carinho e da confiança. A chegada de Camille, uma menina que também enfrenta problemas familiares, fortalece ainda mais essa mensagem e desperta em Abobrinha sentimentos de afeto, esperança e coragem para acreditar em um futuro melhor.

  A animação em stop motion é outro grande destaque da obra. Os personagens possuem um visual simples, mas muito expressivo, permitindo que o público perceba suas emoções com facilidade. Os cenários, a iluminação e a trilha sonora contribuem para criar uma atmosfera sensível e acolhedora, tornando a experiência ainda mais emocionante. Mesmo sendo um filme curto, com cerca de uma hora de duração, ele consegue transmitir mensagens profundas e provocar reflexões importantes.

  Além do aspecto artístico, Minha Vida de Abobrinha também faz uma crítica à realidade enfrentada por muitas crianças que sofrem com o abandono, a violência e a falta de estrutura familiar. Ao mesmo tempo, mostra a importância da solidariedade, do cuidado e da adoção como formas de oferecer uma nova oportunidade para quem passou por momentos difíceis.

  Em conclusão, Minha Vida de Abobrinha é uma animação emocionante, sensível e inspiradora. O filme ensina que o amor, a amizade e a empatia podem transformar vidas, mesmo depois de experiências dolorosas. É uma obra que emociona espectadores de todas as idades e deixa uma importante mensagem sobre esperança, superação e a importância de acreditar em novos recomeços...

terça-feira, 23 de junho de 2026

Druk

 

DANIELY GABRIELLA SANTOS MACIEL

Uma das maiores tragédias da vida adulta é descobrir que nem sempre o cansaço vem da falta de descanso, mas da falta de sentido. Existe um momento da vida em que as perguntas mudam. Já não queremos saber apenas para onde estamos indo, mas se ainda existe entusiasmo no caminho. É nesse espaço entre a estabilidade e a estagnação que Druk – Mais Uma Rodada constrói sua narrativa. Longe de ser apenas um filme sobre álcool, a obra de Thomas Vinterberg é uma reflexão sensível sobre envelhecimento, crise de identidade e a busca por significado.

A trama acompanha quatro professores que decidem testar uma teoria atribuída ao psiquiatra norueguês Finn Skarderud, a de que os seres humanos nascem com um déficit natural de álcool no sangue. A proposta é manter uma pequena taxa alcoólica constante para aumentar criatividade, autoconfiança e desempenho. Inicialmente, os resultados parecem funcionar. Martin, interpretado com sensibilidade por Mads Mikkelsen, recupera o entusiasmo em sala de aula e reencontra uma versão de si mesmo que parecia perdida na rotina.

No entanto, reduzir o filme aos efeitos da bebida seria ignorar sua camada mais interessante. O álcool funciona como um catalisador que revela desejos, frustrações e inquietações já presentes nos personagens. A questão central nunca é o quanto eles bebem, mas o porquê sentem tanta necessidade de beber. O experimento expõe uma insatisfação silenciosa que passa na vida adulta contemporânea que é a sensação de estar apenas cumprindo tarefas e sobrevivendo aos dias, em vez de realmente vivê-los.

É a partir desse ponto que surge a principal crítica social do filme. Druk questiona uma sociedade que valoriza produtividade, estabilidade e controle, mas pouco discute o vazio emocional que pode existir por trás dessas conquistas. Os personagens não estão em crise porque fracassaram, eles estão em crise porque fizeram tudo o que lhes disseram que deveriam fazer e, ainda assim, sentem que algo está faltando. O álcool surge como uma tentativa de preencher essa ausência, mas também como um lembrete de que não existem atalhos permanentes para o sentido da vida.

Sem recorrer ao moralismo, Vinterberg constrói uma narrativa humana e honesta. O filme não condena nem glorifica a bebida, na verdade utiliza a embriaguez como metáfora para explorar vulnerabilidades que fazem parte da experiência humana. Ao final, Druk não oferece respostas definitivas sobre felicidade ou realização pessoal. Em vez disso, expõe as contradições de uma geração que aprendeu a funcionar, mas nem sempre a sentir. E talvez seja por isso que a história de Martin e seus amigos seja tão fácil de reconhecer. Afinal, como sugere a frase que abre esta reflexão, nem todo cansaço vem da falta de descanso; às vezes, ele nasce da distância entre quem somos e quem gostaríamos de ser.

Michael (2026)


 ELIRABETH BATALHA

A grandiosidade de Michael Jackson conseguiu ser muito bem interpretada. Essa é a principal impressão deixada por "Michael", cinebiografia que retrata a trajetória de um dos maiores artistas da história da música. O filme acompanha a ascensão de Michael Jackson desde sua infância até sua consolidação como fenômeno mundial, explorando os desafios que marcaram sua formação pessoal e artística.

Mesmo conhecendo parte da história do cantor antes de assistir ao longa, fui surpreendido pela profundidade com que a narrativa apresenta alguns momentos de sua vida. O filme superou minhas expectativas ao mostrar que a construção de um artista vai muito além dos palcos e do sucesso comercial. Entre os diversos acontecimentos retratados, a infância de Michael assume papel fundamental para compreender sua personalidade e sua forma de se relacionar com o mundo. A pressão exercida pelo pai e a rotina intensa de trabalho desde muito jovem ajudam a explicar diversos aspectos de sua trajetória posterior.

O roteiro concentra sua atenção principalmente no artista e em sua ascensão ao estrelato. Em vez de aprofundar as polêmicas que marcaram sua vida pública, a narrativa prefere destacar sua dedicação à música, ao espetáculo e à busca constante pela perfeição. Essa escolha torna o filme equilibrado em sua proposta, embora deixe algumas questões controversas em segundo plano, possivelmente reservando maior aprofundamento para futuras produções.

Um dos grandes destaques do longa é a atuação de Jafaar Jackson. Por ser sobrinho de Michael, a semelhança física já impressiona, mas o que realmente chama atenção é sua capacidade de reproduzir os gestos, a presença de palco e até mesmo aspectos vocais do artista. Em diversos momentos, especialmente durante as apresentações musicais, a interpretação transmite uma sensação de autenticidade que aproxima o espectador da figura retratada. A atuação do intérprete de Joe Jackson, pai de Michael, também merece destaque por representar com intensidade a relação difícil e exigente entre pai e filho.

Os aspectos técnicos do filme contribuem significativamente para a experiência. A fotografia apresenta um visual grandioso e realista, valorizando tanto os momentos íntimos quanto os grandes espetáculos. As cenas de shows são reproduzidas com impressionante cuidado, recriando performances icônicas que marcaram a cultura popular. A trilha sonora não funciona apenas como elemento nostálgico, mas também como ferramenta narrativa, acompanhando o desenvolvimento emocional e profissional do protagonista.

Entre os temas centrais da obra destacam-se a fama e a infância roubada. O filme evidencia os sacrifícios exigidos pela indústria do entretenimento e mostra como o sucesso extraordinário de Michael foi construído a partir de uma rotina de cobranças e responsabilidades incompatíveis com sua idade. Dessa forma, a narrativa convida o espectador a refletir sobre os custos humanos da fama e sobre como grandes artistas são moldados por experiências muitas vezes dolorosas.

domingo, 21 de junho de 2026

Hamnet_2

Cecília Dantas


Hamnet
é um drama histórico que acompanha Agnes e William Shakespeare diante da perda de seu filho, Hamnet. A obra utiliza uma narrativa sensível e contemplativa para explorar o luto, o amor familiar e a forma como a arte pode transformar a dor em algo coletivo. Embora se passe em um contexto histórico específico, o filme aborda sentimentos profundamente universais, permitindo que o público se conecte com seus personagens de maneira íntima.

No início, o filme pode parecer um pouco confuso. O ritmo é interessante, mas há muitas coisas acontecendo rapidamente dentro de cenas extremamente lentas, o que dá a sensação de que algo foi perdido ou de que a história começou no meio. Entretanto, conforme as crianças passam a ocupar um espaço maior na narrativa, tudo se torna mais envolvente. O filme faz um trabalho impecável ao construir a conexão entre os filhos e seus pais, criando momentos tão profundos que é impossível não se apegar a eles. A relação familiar é retratada com tanta sensibilidade que sentimos aquelas crianças como se também fossem nossas. Quando Hamnet se sacrifica pela irmã, a cena ganha um peso emocional devastador e marca o ponto em que a história realmente atinge seu auge.

O momento mais bonito da obra, porém, está na trajetória de Agnes. Sua reação à peça inspirada na perda do filho é extremamente emocionante: primeiro, a revolta por ver algo tão pessoal exposto ao público; depois, a compreensão da beleza presente naquele ato, ao perceber desconhecidos chorando e lamentando “seu filho” como se ele também pertencesse a eles. Essa transformação mostra como a arte pode preservar memórias e conectar pessoas através da dor. Hamnet é um filme profundamente humano, delicado e emocionante, capaz de arrancar lágrimas e permanecer na memória muito depois dos créditos finais. E isso por si só já demonstra o quão bela e poderosa essa obra é.

sábado, 20 de junho de 2026

Fallen Angels (1995)


 Jhonnatha Felipe

Escrito e dirigido pelo chinês Wong Kar-Wai, Fallen Angels foi pensado como um terceiro núcleo no filme Chungking Express. Porém, foi apenas nesse filme que o cineasta pode contar essa história. Passado inteiramente a noite, a obra trás uma estética cheia de personalidade, sempre com cenas escuras, em ambientes estranhos e um ritmo digno de videoclipe dos anos 2000. 

A história tem uma estrutura parecida com a de seu “irmão” Chungking Express, trazendo duas histórias distintas, mas nos últimos minutos conectando-as. 

O Maior trunfo do cineasta está em como ele cria cenas tão impactantes de forma tão simples. Em vários momentos estamos vendo apenas um ou dois personagens conversando ou fazendo algo extremamente simples, mas tudo é filmado e montado de forma que parece a coisa mais interessante e estilosa do mundo. Chega a parecer um videoclipe de uma hora e meia. 

Outro ponto super positivo aqui é como ele dosa bem a comédia do drama. No primeiro núcleo apresentado, vemos a história de um criminoso e sua parceira, onde ele faz o trabalho sujo de matar pessoas e ela faz o trabalho de limpar a sujeira da casa dele. Eles quase nunca se veem, mas ela desenvolve uma grande paixão por ele. 

Já no outro núcleo, acompanhamos um homem que não consegue falar e é super peculiar. Uma das ideias dele é de que precisa trabalhar, mas faz isso invadindo estabelecimentos na madrugada e forçando quem encontra a pagar por seu serviço. E tudo isso é feito com um timing de comédia absurdo, onde eu gargalhava sempre que ele estava em cena. 

No fim, Fallen Angels é uma obra que consegue entregar tudo que propõe, e assim se torna um clássico para o cinema de Hong Kong e para o cinema melancólico mundial, até hoje servindo como referência e conquistando as novas gerações.