quarta-feira, 17 de junho de 2026

Obsessão


 Laila Maria Venâncio Batista


À primeira vista, Obsessão parece partir de uma premissa simples. Bear (Michael Johnston), um funcionário tímido de uma loja de discos, é apaixonado por Nikki (a futura ganhadora do oscar Inde Navarrette), sua amiga de infância e colega de trabalho. Incapaz de revelar seus sentimentos, ele recorre a uma solução aparentemente inofensiva: um misterioso brinquedo dos anos 1960 “One Wish Willow” capaz de realizar desejos. O pedido é simples, fazer com que Nikki o ame mais do que tudo no mundo. O problema é que o desejo funciona.

A partir daí, o filme abandona rapidamente qualquer possibilidade de romance e mergulha em um terror psicológico desconfortável. Nikki passa a demonstrar uma obsessão extrema por Bear, alternando momentos de carinho exagerado com surtos perturbadores que indicam que algo está profundamente errado. Enquanto os amigos percebem que ela já não é a mesma pessoa, Bear se agarra à fantasia de finalmente viver a relação que sempre desejou.

O aspecto mais interessante do roteiro está justamente na escolha de acompanhar a história pela perspectiva de Bear. Em vez de focar na vítima, Curry Barker coloca o espectador ao lado do responsável pela tragédia. O protagonista não é retratado como um vilão clássico, mas como alguém que, por egoísmo e frustração, ultrapassa um limite moral sem medir as consequências. Isso torna o filme ainda mais inquietante, porque o horror não surge apenas do elemento sobrenatural, mas das decisões humanas que colocam toda a situação em movimento.

Nesse sentido, Obsessão funciona como uma reflexão sobre obsessão afetiva, consentimento e idealização romântica. O que começa como um desejo aparentemente inocente se transforma em uma relação construída à força, onde Nikki perde completamente sua autonomia. O filme evita transformar essa discussão em um discurso explícito, preferindo deixar que o desconforto das situações fale por si.

Grande parte do impacto emocional da obra vem da atuação de Inde Navarrette. Mesmo tendo relativamente pouco espaço para interpretar a verdadeira Nikki, a atriz entrega uma performance impressionante ao alternar entre vulnerabilidade, terror e comportamento obsessivo. É uma atuação intensa, perturbadora e facilmente uma das melhores do gênero nos últimos anos. Em muitos momentos, ela consegue transmitir o sofrimento da personagem apenas através de expressões e pequenas mudanças de comportamento.

Curry Barker também merece destaque pela direção segura e criativa. Com um orçamento estimado em apenas 750 mil dólares, o diretor constrói cenas visualmente marcantes e utiliza os recursos disponíveis de forma inteligente. O filme nunca parece limitado financeiramente, muito pelo contrário: a produção transforma suas restrições em uma vantagem, apostando mais na atmosfera e nos personagens do que em grandes efeitos.

No final, Obsessão se destaca por oferecer algo cada vez mais raro dentro do terror contemporâneo: uma ideia original executada com personalidade. Entre momentos de humor ácido, violência gráfica e discussões desconfortáveis sobre desejo e posse, o filme constrói uma experiência inquietante que permanece na cabeça do espectador muito depois dos créditos finais. Impulsionado pela direção inventiva de Curry Barker e pela atuação impressionante de Inde Navarrette, o longa se consolida como uma das maiores surpresas e um dos melhores filmes do ano.

A Sociedade do Anel

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel


Adalberto Cristh Ferreira Filho


Reassistir O Senhor dos Anéis é sempre como voltar pra casa depois de um bom tempo fora. Lançado em 2001 (em 2002 no Brasil) e dirigido por Peter Jackson, O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel consegue se manter extremamente atual, mesmo mais de 20 anos após seu lançamento. É impressionante que um filme do início dos anos 2000, recheado de computação gráfica, não tenha ficado visualmente datado mesmo após tanto tempo, e isso mostra o carinho e dedicação com os quais a equipe do filme trabalhou para produzir uma obra tão ímpar.

Apesar de ter um formato que pode assustar espectadores novos, com quase 3h de duração (e a versão estendida chegando às 3h28), o filme trabalha seu roteiro de forma magistral, com sequências empolgantes, personagens extremamente bem trabalhados e uma história que honra o material original. A sequência de abertura de fato é um pouco longa e talvez se torne maçante para um público mais jovem, acostumado com um cinema mais acelerado, além de que a versão estendida deixa bem claro o porquê de aquelas cenas terem sido cortadas, porém no momento em que você se permite ser levado nessa jornada, é um caminho sem volta.

Mais do que atingir um objetivo, A Sociedade do Anel é sobre aproveitar a jornada. Se entregar à esse mundo mágico e deixar ser conduzido por ele. Sentar por 3 horas e simplesmente caminhar pela Terra Média. E com a forma como esse mundo é construído, essa tarefa não é difícil.

O carisma dos Hobbits é contagiante desde o início, as figuras de Aragorn e Gandalf são inspiradoras e os elfos são encantadores. O design de produção do filme definitivamente também é um dos seus pontos altos. Com cenários de tirar o fôlego, figurinos e props extremamente bem trabalhados em cada detalhe e elementos de CGI utilizados com uma finesse absurda, a equipe cria um mundo fantástico e misterioso impressionantemente crível.

Trazendo como protagonista a singela figura de um hobbit, A Sociedade do Anel é um filme inspirador e instigante, que, assim como sua obra de inspiração, mostra como alguém simples, sem grande importância para o mundo e sem grandes poderes ou habilidades pode ter grandes feitos, e nos instiga a ir em frente, partindo em nossa própria jornada e aceitando os desafios que nos são propostos, de preferência com nossa própria Sociedade.

Vidas Passadas

Samuel Ferreira da Silva

Vidas Passadas (Past Lives, 2023), estreia de Celine Song na direção de longas-metragens, é um filme que transforma uma história aparentemente simples em uma profunda reflexão sobre tempo, identidade e escolhas. A narrativa acompanha Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo), amigos de infância separados quando a família dela deixa a Coreia do Sul. Ao longo de mais de duas décadas, os dois se reencontram em diferentes momentos da vida, carregando consigo não apenas a memória um do outro, mas também o peso dos caminhos que escolheram seguir.

A obra parte do conceito coreano de In-Yun, segundo o qual os encontros entre pessoas são resultado de conexões construídas ao longo de vidas passadas. No entanto, Celine Song evita transformar essa ideia em uma defesa do amor predestinado. Em vez disso, utiliza o conceito para refletir sobre os encontros e desencontros que moldam a existência humana. O filme está repleto de perguntas sobre as vidas que poderíamos ter vivido e sobre as pessoas que deixamos para trás ao longo do caminho.

Um dos maiores méritos de Vidas Passadas é sua recusa aos clichês do romance tradicional. Embora o reencontro entre Nora e Hae Sung pudesse facilmente conduzir a uma narrativa melodramática sobre um amor interrompido, o roteiro opta por um caminho mais maduro. Os personagens já construíram suas vidas, suas carreiras e suas identidades. O que está em jogo não é a possibilidade de recomeçar uma história de amor, mas a necessidade de compreender o significado que ela ainda possui.

Essa sensibilidade também se manifesta na linguagem cinematográfica. A fotografia de Shabier Kirchner utiliza tons suaves e uma atmosfera melancólica para aproximar passado e presente, enquanto a montagem estabelece paralelos visuais que reforçam a ideia de que determinadas lembranças permanecem vivas independentemente da passagem do tempo. O resultado é um filme contemplativo, que encontra força justamente nos silêncios, nos olhares e nos gestos contidos de seus personagens.

Além da dimensão romântica, o filme aborda questões ligadas à imigração e ao pertencimento. Nora não abandonou apenas um país, mas também uma versão de si mesma. O reencontro com Hae Sung funciona como um confronto entre a mulher que ela se tornou e a garota que ficou para trás na Coreia. Nesse sentido, Vidas Passadas discute como a construção de uma nova identidade implica inevitavelmente perdas, ainda que essas perdas sejam necessárias para o crescimento pessoal.

As atuações contribuem decisivamente para a força emocional da narrativa. Greta Lee constrói uma personagem marcada pela contenção e pela ambiguidade, enquanto Teo Yoo transmite com delicadezaa melancolia de alguém que nunca deixou completamente o passado para trás. Juntos, os dois criam uma dinâmica que torna palpável a sensação de proximidade e distância que define a relação de seus personagens.

No fim, podemos dizer que Vidas Passadas é uma obra sobre as possibilidades que a vida deixa pelo caminho. Sua grande força está em nos fazer refletir sobre quem seríamos se tivéssemos tomado outras decisões e sobre as versões de nós mesmos que permanecem guardadas na memória. Ao evitar respostas fáceis e abraçar a complexidade das escolhas humanas, Celine Song entrega um filme sensível, elegante e profundamente comovente, capaz de transformar uma experiência particular em algo universal.

As patricinhas de Beverly Hills

Marília Gabrielle Costa Trindade

Quando pensamos em adaptações de livros de época, é comum lembrar de filmes como Orgulho e Preconceito ou O Morro dos Ventos Uivantes. Porém, um dos exemplos mais criativos e bem-sucedidos desse processo costuma ser deixado de lado: As Patricinhas de Beverly Hills, de 1995. Inspirado em Emma, de Jane Austen, o longa tem roteiro e direção de Amy Heckerling, que transpõe a essência da obra para o universo dos adolescentes dos anos 1990. O resultado é uma adaptação inteligente, divertida e acessível para uma nova geração. Mais do que um sucesso, o filme tornou-se um marco da cultura pop, influenciando a moda, a linguagem e a música de sua época.

Por trás dos clichês típicos das comédias adolescentes, como o ambiente escolar, as disputas de popularidade e os famosos makeovers, o filme constrói uma sátira aos hábitos e valores da alta sociedade. A protagonista, Cher Horowitz, é apresentada como a clássica patricinha rica, mimada e aparentemente fútil. No entanto, diferente do estereótipo comum, ela não ocupa o papel de antagonista. Assim como Emma, personagem criada por Jane Austen, Cher utiliza sua influência para ajudar as pessoas ao seu redor, ainda que suas intenções nem sempre produzam os melhores resultados.

Ao lado de personagens memoráveis, como Dionne, sua melhor amiga, e Tai Frasier, a nova aluna que tenta se adaptar ao universo elitizado da escola, o filme explora as pressões sociais ligadas à aparência, ao consumo e ao pertencimento. Nesse sentido, a obra vive uma contradição, onde ao mesmo tempo em que satiriza esse estilo de vida, também o glamouriza, transformando-o em objeto de desejo para o público.

A narrativa acompanha principalmente o processo de amadurecimento de Cher, que passa a enxergar o mundo para além de seus privilégios. Nesse percurso, se destaca sua relação com Josh, interpretado por Paul Rudd. Mais velho e universitário, ele é frequentemente retratado como a “voz da razão”, ocupando uma posição de superioridade intelectual em relação à protagonista. Ao longo da história, Josh passa a reconhecer em Cher qualidades que vão além da aparência, valorizando seu crescimento emocional e intelectual. Como em muitas comédias românticas, o relacionamento entre os dois surge como recompensa ao final da jornada da personagem.

Analisando de uma ótica contemporânea, essa relação desperta certo desconforto. Embora não tenham laços sanguíneos, Cher e Josh compartilharam uma dinâmica familiar próxima durante parte de suas vidas, o que torna o romance estranho para muitos espectadores atuais. Além disso, a diferença de maturidade entre os dois e a forma como Josh frequentemente assume uma posição de mentor fazem com que essa relação tenha envelhecido mal diante das mudanças culturais e de gerações.

Ainda assim, As Patricinhas de Beverly Hills permanece relevante 30 anos após seu lançamento. Mais do que uma comédia adolescente divertida, o filme funciona como um retrato das contradições de sua época, abordando temas como classe social, padrões de beleza, popularidade e identidade. Ao mesmo tempo em que critica esses valores, também os reproduz, o que torna sua análise ainda mais interessante. Talvez seja justamente essa ambiguidade que explique sua popularidade.

American Horror Story

O Declínio: As Falhas Estruturais e o Vazio Narrativo


Carlos Vitor Soares Freire


American Horror Story: Double Feature (a décima temporada da antologia de Ryan Murphy e Brad Falchuk) surgiu com uma promessa audaciosa: entregar duas narrativas distintas pelo preço de uma. Dividida entre o terror costeiro de Red Tide (Maré Vermelha) e a ficção científica conspiratória de Death Valley (Vale da Morte), a temporada acabou se tornando um estudo de caso sobre como ótimas premissas podem naufragar por pura pressa narrativa.

O maior pecado de Double Feature reside em sua própria estrutura bipartida. Ao fraturar a temporada em duas micro-histórias, os criadores sabotaram a capacidade de desenvolvimento de ambas. O formato reduzido sufocou o ritmo. Red Tide, que vinha construindo uma atmosfera primorosa de suspense psicológico, foi obrigada a correr para um desfecho abrupto e anticlimático no sexto episódio. O roteiro simplesmente jogou as resoluções no colo do espectador, sacrificando a coerência em nome do relógio. Se a primeira metade pecou pelo final apressado, a segunda metade desandou por completo. A fusão entre o preto e branco histórico (os anos Eisenhower e os alienígenas) e o núcleo contemporâneo (os jovens clichês em viagem) não encontrou equilíbrio. O segmento moderno careceu de carisma, entregando atuações engessadas e diálogos que beiravam o constrangedor.

A promessa implícita de que as duas partes se amarrariam de forma inteligente evaporou. O que restou foi a sensação de estarmos assistindo a dois projetos inacabados que foram colados às pressas para preencher a grade de programação.Apesar dos tropeços estruturais, seria injusto não reconhecer o requinte técnico e o talento que reluzem em meio ao caos. Visualmente, os seis primeiros episódios entregam uma das melhores atmosferas de toda a antologia. A ambientação cinzenta e gélida de Provincetown, no inverno, evoca um isolamento quase lovecraftiano. A fotografia e a trilha sonora trabalham em perfeita simetria para construir um incômodo constante. A premissa da pílula preta — que desperta o talento genial dos criativos à custa de sua humanidade, enquanto transforma os medíocres em monstros pálidos — é uma sátira brilhante e ácida sobre a indústria do entretenimento, a ambição e o preço do sucesso. O elenco veterano salva a temporada do esquecimento. Evan Peters e Frances Conroy dão um show de excentricidade e humor ácido como a dupla de escritores macabros. Sarah Paulson, irreconhecível como "TB Karen", entregauma das performances mais cruas e viscerais de sua carreira, servindo como o compasso moral daquela comunidade corrompida.

American Horror Story: Double Feature é um espetáculo de potencial desperdiçado. A temporada prova que a criatividade de Murphy e Falchuk continua afiada, mas a ambição estética foi sufocada por um roteiro que não soube administrar o tempo. Vale a experiência pela atmosfera poética e pelas atuações brilhantes de seu início, mas exige do espectador uma boa dose de paciência (e indulgência) com o seu desfecho.