terça-feira, 23 de junho de 2026

Druk

 

DANIELY GABRIELLA SANTOS MACIEL

Uma das maiores tragédias da vida adulta é descobrir que nem sempre o cansaço vem da falta de descanso, mas da falta de sentido. Existe um momento da vida em que as perguntas mudam. Já não queremos saber apenas para onde estamos indo, mas se ainda existe entusiasmo no caminho. É nesse espaço entre a estabilidade e a estagnação que Druk – Mais Uma Rodada constrói sua narrativa. Longe de ser apenas um filme sobre álcool, a obra de Thomas Vinterberg é uma reflexão sensível sobre envelhecimento, crise de identidade e a busca por significado.

A trama acompanha quatro professores que decidem testar uma teoria atribuída ao psiquiatra norueguês Finn Skarderud, a de que os seres humanos nascem com um déficit natural de álcool no sangue. A proposta é manter uma pequena taxa alcoólica constante para aumentar criatividade, autoconfiança e desempenho. Inicialmente, os resultados parecem funcionar. Martin, interpretado com sensibilidade por Mads Mikkelsen, recupera o entusiasmo em sala de aula e reencontra uma versão de si mesmo que parecia perdida na rotina.

No entanto, reduzir o filme aos efeitos da bebida seria ignorar sua camada mais interessante. O álcool funciona como um catalisador que revela desejos, frustrações e inquietações já presentes nos personagens. A questão central nunca é o quanto eles bebem, mas o porquê sentem tanta necessidade de beber. O experimento expõe uma insatisfação silenciosa que passa na vida adulta contemporânea que é a sensação de estar apenas cumprindo tarefas e sobrevivendo aos dias, em vez de realmente vivê-los.

É a partir desse ponto que surge a principal crítica social do filme. Druk questiona uma sociedade que valoriza produtividade, estabilidade e controle, mas pouco discute o vazio emocional que pode existir por trás dessas conquistas. Os personagens não estão em crise porque fracassaram, eles estão em crise porque fizeram tudo o que lhes disseram que deveriam fazer e, ainda assim, sentem que algo está faltando. O álcool surge como uma tentativa de preencher essa ausência, mas também como um lembrete de que não existem atalhos permanentes para o sentido da vida.

Sem recorrer ao moralismo, Vinterberg constrói uma narrativa humana e honesta. O filme não condena nem glorifica a bebida, na verdade utiliza a embriaguez como metáfora para explorar vulnerabilidades que fazem parte da experiência humana. Ao final, Druk não oferece respostas definitivas sobre felicidade ou realização pessoal. Em vez disso, expõe as contradições de uma geração que aprendeu a funcionar, mas nem sempre a sentir. E talvez seja por isso que a história de Martin e seus amigos seja tão fácil de reconhecer. Afinal, como sugere a frase que abre esta reflexão, nem todo cansaço vem da falta de descanso; às vezes, ele nasce da distância entre quem somos e quem gostaríamos de ser.

Michael (2026)


 ELIRABETH BATALHA

A grandiosidade de Michael Jackson conseguiu ser muito bem interpretada. Essa é a principal impressão deixada por "Michael", cinebiografia que retrata a trajetória de um dos maiores artistas da história da música. O filme acompanha a ascensão de Michael Jackson desde sua infância até sua consolidação como fenômeno mundial, explorando os desafios que marcaram sua formação pessoal e artística.

Mesmo conhecendo parte da história do cantor antes de assistir ao longa, fui surpreendido pela profundidade com que a narrativa apresenta alguns momentos de sua vida. O filme superou minhas expectativas ao mostrar que a construção de um artista vai muito além dos palcos e do sucesso comercial. Entre os diversos acontecimentos retratados, a infância de Michael assume papel fundamental para compreender sua personalidade e sua forma de se relacionar com o mundo. A pressão exercida pelo pai e a rotina intensa de trabalho desde muito jovem ajudam a explicar diversos aspectos de sua trajetória posterior.

O roteiro concentra sua atenção principalmente no artista e em sua ascensão ao estrelato. Em vez de aprofundar as polêmicas que marcaram sua vida pública, a narrativa prefere destacar sua dedicação à música, ao espetáculo e à busca constante pela perfeição. Essa escolha torna o filme equilibrado em sua proposta, embora deixe algumas questões controversas em segundo plano, possivelmente reservando maior aprofundamento para futuras produções.

Um dos grandes destaques do longa é a atuação de Jafaar Jackson. Por ser sobrinho de Michael, a semelhança física já impressiona, mas o que realmente chama atenção é sua capacidade de reproduzir os gestos, a presença de palco e até mesmo aspectos vocais do artista. Em diversos momentos, especialmente durante as apresentações musicais, a interpretação transmite uma sensação de autenticidade que aproxima o espectador da figura retratada. A atuação do intérprete de Joe Jackson, pai de Michael, também merece destaque por representar com intensidade a relação difícil e exigente entre pai e filho.

Os aspectos técnicos do filme contribuem significativamente para a experiência. A fotografia apresenta um visual grandioso e realista, valorizando tanto os momentos íntimos quanto os grandes espetáculos. As cenas de shows são reproduzidas com impressionante cuidado, recriando performances icônicas que marcaram a cultura popular. A trilha sonora não funciona apenas como elemento nostálgico, mas também como ferramenta narrativa, acompanhando o desenvolvimento emocional e profissional do protagonista.

Entre os temas centrais da obra destacam-se a fama e a infância roubada. O filme evidencia os sacrifícios exigidos pela indústria do entretenimento e mostra como o sucesso extraordinário de Michael foi construído a partir de uma rotina de cobranças e responsabilidades incompatíveis com sua idade. Dessa forma, a narrativa convida o espectador a refletir sobre os custos humanos da fama e sobre como grandes artistas são moldados por experiências muitas vezes dolorosas.

domingo, 21 de junho de 2026

Hamnet_2

Cecília Dantas


Hamnet
é um drama histórico que acompanha Agnes e William Shakespeare diante da perda de seu filho, Hamnet. A obra utiliza uma narrativa sensível e contemplativa para explorar o luto, o amor familiar e a forma como a arte pode transformar a dor em algo coletivo. Embora se passe em um contexto histórico específico, o filme aborda sentimentos profundamente universais, permitindo que o público se conecte com seus personagens de maneira íntima.

No início, o filme pode parecer um pouco confuso. O ritmo é interessante, mas há muitas coisas acontecendo rapidamente dentro de cenas extremamente lentas, o que dá a sensação de que algo foi perdido ou de que a história começou no meio. Entretanto, conforme as crianças passam a ocupar um espaço maior na narrativa, tudo se torna mais envolvente. O filme faz um trabalho impecável ao construir a conexão entre os filhos e seus pais, criando momentos tão profundos que é impossível não se apegar a eles. A relação familiar é retratada com tanta sensibilidade que sentimos aquelas crianças como se também fossem nossas. Quando Hamnet se sacrifica pela irmã, a cena ganha um peso emocional devastador e marca o ponto em que a história realmente atinge seu auge.

O momento mais bonito da obra, porém, está na trajetória de Agnes. Sua reação à peça inspirada na perda do filho é extremamente emocionante: primeiro, a revolta por ver algo tão pessoal exposto ao público; depois, a compreensão da beleza presente naquele ato, ao perceber desconhecidos chorando e lamentando “seu filho” como se ele também pertencesse a eles. Essa transformação mostra como a arte pode preservar memórias e conectar pessoas através da dor. Hamnet é um filme profundamente humano, delicado e emocionante, capaz de arrancar lágrimas e permanecer na memória muito depois dos créditos finais. E isso por si só já demonstra o quão bela e poderosa essa obra é.

sábado, 20 de junho de 2026

Fallen Angels (1995)


 Jhonnatha Felipe

Escrito e dirigido pelo chinês Wong Kar-Wai, Fallen Angels foi pensado como um terceiro núcleo no filme Chungking Express. Porém, foi apenas nesse filme que o cineasta pode contar essa história. Passado inteiramente a noite, a obra trás uma estética cheia de personalidade, sempre com cenas escuras, em ambientes estranhos e um ritmo digno de videoclipe dos anos 2000. 

A história tem uma estrutura parecida com a de seu “irmão” Chungking Express, trazendo duas histórias distintas, mas nos últimos minutos conectando-as. 

O Maior trunfo do cineasta está em como ele cria cenas tão impactantes de forma tão simples. Em vários momentos estamos vendo apenas um ou dois personagens conversando ou fazendo algo extremamente simples, mas tudo é filmado e montado de forma que parece a coisa mais interessante e estilosa do mundo. Chega a parecer um videoclipe de uma hora e meia. 

Outro ponto super positivo aqui é como ele dosa bem a comédia do drama. No primeiro núcleo apresentado, vemos a história de um criminoso e sua parceira, onde ele faz o trabalho sujo de matar pessoas e ela faz o trabalho de limpar a sujeira da casa dele. Eles quase nunca se veem, mas ela desenvolve uma grande paixão por ele. 

Já no outro núcleo, acompanhamos um homem que não consegue falar e é super peculiar. Uma das ideias dele é de que precisa trabalhar, mas faz isso invadindo estabelecimentos na madrugada e forçando quem encontra a pagar por seu serviço. E tudo isso é feito com um timing de comédia absurdo, onde eu gargalhava sempre que ele estava em cena. 

No fim, Fallen Angels é uma obra que consegue entregar tudo que propõe, e assim se torna um clássico para o cinema de Hong Kong e para o cinema melancólico mundial, até hoje servindo como referência e conquistando as novas gerações.  

Dias Perfeitos (2023)

Gilvictor Silva do Nascimento

Dias Perfeitos (Perfect days, 2023), dirigido por Wim Wenders, é uma obra que transforma a simplicidade cotidiana em uma profunda reflexão sobre existência, tempo, felicidade e solidão. Longe das narrativas tradicionais baseadas em grandes conflitos ou reviravoltas dramáticas, o filme aposta na contemplação e na observação dos pequenos gestos que compõem a vida de seu protagonista, Hirayama. E entrega que mesmo os grandes silêncios, perduram grandes significados.

O aspecto mais marcante do filme é a maneira como ele encontra beleza na rotina. Hirayama trabalha limpando banheiros públicos em Tóquio, uma profissão frequentemente invisibilizada e socialmente desvalorizada. Mesmo tendo a rotina que muitos não acham ideal para se alcançar a ideia de felicidade, Hirayama desconstrói toda essa visão ao mostrar que é possível apreciar as mais pequenas das belezas cotidianas tendo uma vida extremamente dinâmica. A câmera de Wenders acompanha seu dia a dia com respeito e sensibilidade, humanidade, revelando dignidade, significado em tarefas consideradas banais.

A repetição dos mesmos hábitos, acordar cedo, cuidar das plantas, ouvir músicas em fitas cassete, ler livros antes de dormir, não é apresentada como uma prisão, mas como uma escolha consciente. Como um lugar de se apreciar sua paz, calmaria e o desfrutar o real significado de se manter vivo e não sobrevivendo. O filme questiona a ideia contemporânea de que a felicidade depende de constantes mudanças, produtividade extrema ou sucesso financeiro. Mas Hirayama rompe essa narrativa ao mostrar que até os dias mais cansativos, mais tenebrosos, mas significativos, carregam a beleza e o poder de estar conscientemente em paz ao viver sua vida sem as amarras banais dos pensamentos negativos.

Outro elemento fundamental é a economia de diálogos. Hirayama fala pouco, mas sua interioridade é revelada por meio de expressões, olhares e gestos. O silêncio representa em grande parte do filme como um resposta, curta, simples e direta.  Ele não representa vazio; pelo contrário, funciona como espaço de reflexão.

Nesse sentido, a atuação de Koji Yakusho é extraordinária. O personagem dele se conecta com o mais frágil até o mais forte dos seres humanos, ao abdicar de um futuro considerado próspero para enfim alcançar sua liberdade espiritual. Sem grandes discursos, ele constrói um personagem complexo, capaz de transmitir serenidade, melancolia, satisfação e sofrimento apenas através da expressão facial. O espectador é convidado a observar e interpretar, em vez de receber explicações prontas.

O filme também simboliza o conceito japonês de Komorebi: a luz do sol que é filtrada pelas copas das árvores, criando um jogo contínuo de luz e sombra. Esse fenômeno representa a beleza e a poesia encontradas na impermanência do momento presente. Mais do que um fenômeno da natureza, o komorebi revela uma forma de enxergar o mundo. A palavra japonesa descreve a luz do sol atravessando as folhas das árvores, mas seu significado vai além da imagem: ela traduz a sensibilidade de perceber a beleza nos instantes mais simples e passageiros da vida. É um convite à contemplação, à presença e ao reconhecimento de que os pequenos momentos também carregam significado.

Essa ideia dialoga diretamente com o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders. Assim como o komorebi, a obra encontra poesia em gestos cotidianos que costumam passar despercebidos: a luz entrando pela janela, o balanço das árvores ao vento, o café tomado em silêncio ou o trajeto diário para o trabalho. O protagonista não busca grandes acontecimentos para dar sentido à vida; ele encontra plenitude justamente na atenção dedicada aos detalhes. Nesse sentido, o komorebi não é apenas uma imagem presente no filme, mas uma filosofia que atravessa toda a narrativa: a de que a felicidade pode estar escondida nos breves feixes de luz que iluminam a rotina.

Embora pareça um filme simples, Dias Perfeitos apresenta uma crítica sutil à sociedade atual. Em uma época marcada pela aceleração, pelo excesso de estímulos e pela busca incessante por resultados, Hirayama vive em outro ritmo. Ele valoriza o presente, aprecia a natureza e encontra prazer em experiências simples.

O contraste entre Hirayama e outros personagens evidencia diferentes formas de encarar a vida. Enquanto alguns vivem preocupados com dinheiro, relacionamentos ou expectativas sociais, ele parece buscar uma existência baseada na contemplação e no equilíbrio interior.

Entretanto, o filme não idealiza completamente esse estilo de vida. Aos poucos, surgem pistas sobre um passado doloroso e sobre escolhas que envolveram renúncias. A tranquilidade do protagonista também carrega traços de isolamento e solidão.

Um dos grandes méritos da obra é evitar respostas fáceis. Hirayama é feliz? O filme nunca responde claramente.

Por um lado, ele demonstra satisfação com sua rotina e parece ter encontrado paz em sua simplicidade. Por outro, há momentos em que a tristeza emerge discretamente, sugerindo perdas, arrependimentos ou vínculos rompidos.

Essa ambiguidade alcança seu ponto máximo na cena final. O longo enquadramento do rosto de Hirayama revela emoções contraditórias: ele sorri, chora, reflete e continua seguindo em frente. A sequência sintetiza a principal mensagem do filme: a vida não é composta apenas de felicidade ou tristeza, mas da coexistência de ambas.

A fotografia utiliza enquadramentos limpos e uma iluminação naturalista que reforçam a sensação de intimidade. A trilha sonora, composta por clássicos do rock e do pop ocidental das décadas de 1960 e 1970, funciona como extensão da personalidade do protagonista e contribui para a construção de uma atmosfera nostálgica.

O ritmo lento pode afastar espectadores acostumados a narrativas mais dinâmicas. Porém, essa lentidão é uma escolha estética coerente com a proposta do filme: desacelerar o olhar e permitir que o público experimente o tempo da mesma forma que Hirayama.

Dias Perfeitos é um filme profundamente humanista que propõe uma reflexão sobre o significado da felicidade em um mundo acelerado. Ao transformar ações comuns em momentos de contemplação, Wim Wenders demonstra que a beleza pode estar escondida nos detalhes mais simples da vida.

Mais do que contar uma história, o filme convida o espectador a repensar sua relação com o tempo, o trabalho, os afetos e a própria existência. Sua maior força está justamente em mostrar que os “dias perfeitos” não são aqueles livres de sofrimento, mas aqueles em que somos capazes de encontrar sentido mesmo em meio às imperfeições da vida.