domingo, 21 de junho de 2026

Hamnet_2

Cecília Dantas


Hamnet
é um drama histórico que acompanha Agnes e William Shakespeare diante da perda de seu filho, Hamnet. A obra utiliza uma narrativa sensível e contemplativa para explorar o luto, o amor familiar e a forma como a arte pode transformar a dor em algo coletivo. Embora se passe em um contexto histórico específico, o filme aborda sentimentos profundamente universais, permitindo que o público se conecte com seus personagens de maneira íntima.

No início, o filme pode parecer um pouco confuso. O ritmo é interessante, mas há muitas coisas acontecendo rapidamente dentro de cenas extremamente lentas, o que dá a sensação de que algo foi perdido ou de que a história começou no meio. Entretanto, conforme as crianças passam a ocupar um espaço maior na narrativa, tudo se torna mais envolvente. O filme faz um trabalho impecável ao construir a conexão entre os filhos e seus pais, criando momentos tão profundos que é impossível não se apegar a eles. A relação familiar é retratada com tanta sensibilidade que sentimos aquelas crianças como se também fossem nossas. Quando Hamnet se sacrifica pela irmã, a cena ganha um peso emocional devastador e marca o ponto em que a história realmente atinge seu auge.

O momento mais bonito da obra, porém, está na trajetória de Agnes. Sua reação à peça inspirada na perda do filho é extremamente emocionante: primeiro, a revolta por ver algo tão pessoal exposto ao público; depois, a compreensão da beleza presente naquele ato, ao perceber desconhecidos chorando e lamentando “seu filho” como se ele também pertencesse a eles. Essa transformação mostra como a arte pode preservar memórias e conectar pessoas através da dor. Hamnet é um filme profundamente humano, delicado e emocionante, capaz de arrancar lágrimas e permanecer na memória muito depois dos créditos finais. E isso por si só já demonstra o quão bela e poderosa essa obra é.

sábado, 20 de junho de 2026

Fallen Angels (1995)


 Jhonnatha Felipe

Escrito e dirigido pelo chinês Wong Kar-Wai, Fallen Angels foi pensado como um terceiro núcleo no filme Chungking Express. Porém, foi apenas nesse filme que o cineasta pode contar essa história. Passado inteiramente a noite, a obra trás uma estética cheia de personalidade, sempre com cenas escuras, em ambientes estranhos e um ritmo digno de videoclipe dos anos 2000. 

A história tem uma estrutura parecida com a de seu “irmão” Chungking Express, trazendo duas histórias distintas, mas nos últimos minutos conectando-as. 

O Maior trunfo do cineasta está em como ele cria cenas tão impactantes de forma tão simples. Em vários momentos estamos vendo apenas um ou dois personagens conversando ou fazendo algo extremamente simples, mas tudo é filmado e montado de forma que parece a coisa mais interessante e estilosa do mundo. Chega a parecer um videoclipe de uma hora e meia. 

Outro ponto super positivo aqui é como ele dosa bem a comédia do drama. No primeiro núcleo apresentado, vemos a história de um criminoso e sua parceira, onde ele faz o trabalho sujo de matar pessoas e ela faz o trabalho de limpar a sujeira da casa dele. Eles quase nunca se veem, mas ela desenvolve uma grande paixão por ele. 

Já no outro núcleo, acompanhamos um homem que não consegue falar e é super peculiar. Uma das ideias dele é de que precisa trabalhar, mas faz isso invadindo estabelecimentos na madrugada e forçando quem encontra a pagar por seu serviço. E tudo isso é feito com um timing de comédia absurdo, onde eu gargalhava sempre que ele estava em cena. 

No fim, Fallen Angels é uma obra que consegue entregar tudo que propõe, e assim se torna um clássico para o cinema de Hong Kong e para o cinema melancólico mundial, até hoje servindo como referência e conquistando as novas gerações.  

Dias Perfeitos (2023)

Gilvictor Silva do Nascimento

Dias Perfeitos (Perfect days, 2023), dirigido por Wim Wenders, é uma obra que transforma a simplicidade cotidiana em uma profunda reflexão sobre existência, tempo, felicidade e solidão. Longe das narrativas tradicionais baseadas em grandes conflitos ou reviravoltas dramáticas, o filme aposta na contemplação e na observação dos pequenos gestos que compõem a vida de seu protagonista, Hirayama. E entrega que mesmo os grandes silêncios, perduram grandes significados.

O aspecto mais marcante do filme é a maneira como ele encontra beleza na rotina. Hirayama trabalha limpando banheiros públicos em Tóquio, uma profissão frequentemente invisibilizada e socialmente desvalorizada. Mesmo tendo a rotina que muitos não acham ideal para se alcançar a ideia de felicidade, Hirayama desconstrói toda essa visão ao mostrar que é possível apreciar as mais pequenas das belezas cotidianas tendo uma vida extremamente dinâmica. A câmera de Wenders acompanha seu dia a dia com respeito e sensibilidade, humanidade, revelando dignidade, significado em tarefas consideradas banais.

A repetição dos mesmos hábitos, acordar cedo, cuidar das plantas, ouvir músicas em fitas cassete, ler livros antes de dormir, não é apresentada como uma prisão, mas como uma escolha consciente. Como um lugar de se apreciar sua paz, calmaria e o desfrutar o real significado de se manter vivo e não sobrevivendo. O filme questiona a ideia contemporânea de que a felicidade depende de constantes mudanças, produtividade extrema ou sucesso financeiro. Mas Hirayama rompe essa narrativa ao mostrar que até os dias mais cansativos, mais tenebrosos, mas significativos, carregam a beleza e o poder de estar conscientemente em paz ao viver sua vida sem as amarras banais dos pensamentos negativos.

Outro elemento fundamental é a economia de diálogos. Hirayama fala pouco, mas sua interioridade é revelada por meio de expressões, olhares e gestos. O silêncio representa em grande parte do filme como um resposta, curta, simples e direta.  Ele não representa vazio; pelo contrário, funciona como espaço de reflexão.

Nesse sentido, a atuação de Koji Yakusho é extraordinária. O personagem dele se conecta com o mais frágil até o mais forte dos seres humanos, ao abdicar de um futuro considerado próspero para enfim alcançar sua liberdade espiritual. Sem grandes discursos, ele constrói um personagem complexo, capaz de transmitir serenidade, melancolia, satisfação e sofrimento apenas através da expressão facial. O espectador é convidado a observar e interpretar, em vez de receber explicações prontas.

O filme também simboliza o conceito japonês de Komorebi: a luz do sol que é filtrada pelas copas das árvores, criando um jogo contínuo de luz e sombra. Esse fenômeno representa a beleza e a poesia encontradas na impermanência do momento presente. Mais do que um fenômeno da natureza, o komorebi revela uma forma de enxergar o mundo. A palavra japonesa descreve a luz do sol atravessando as folhas das árvores, mas seu significado vai além da imagem: ela traduz a sensibilidade de perceber a beleza nos instantes mais simples e passageiros da vida. É um convite à contemplação, à presença e ao reconhecimento de que os pequenos momentos também carregam significado.

Essa ideia dialoga diretamente com o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders. Assim como o komorebi, a obra encontra poesia em gestos cotidianos que costumam passar despercebidos: a luz entrando pela janela, o balanço das árvores ao vento, o café tomado em silêncio ou o trajeto diário para o trabalho. O protagonista não busca grandes acontecimentos para dar sentido à vida; ele encontra plenitude justamente na atenção dedicada aos detalhes. Nesse sentido, o komorebi não é apenas uma imagem presente no filme, mas uma filosofia que atravessa toda a narrativa: a de que a felicidade pode estar escondida nos breves feixes de luz que iluminam a rotina.

Embora pareça um filme simples, Dias Perfeitos apresenta uma crítica sutil à sociedade atual. Em uma época marcada pela aceleração, pelo excesso de estímulos e pela busca incessante por resultados, Hirayama vive em outro ritmo. Ele valoriza o presente, aprecia a natureza e encontra prazer em experiências simples.

O contraste entre Hirayama e outros personagens evidencia diferentes formas de encarar a vida. Enquanto alguns vivem preocupados com dinheiro, relacionamentos ou expectativas sociais, ele parece buscar uma existência baseada na contemplação e no equilíbrio interior.

Entretanto, o filme não idealiza completamente esse estilo de vida. Aos poucos, surgem pistas sobre um passado doloroso e sobre escolhas que envolveram renúncias. A tranquilidade do protagonista também carrega traços de isolamento e solidão.

Um dos grandes méritos da obra é evitar respostas fáceis. Hirayama é feliz? O filme nunca responde claramente.

Por um lado, ele demonstra satisfação com sua rotina e parece ter encontrado paz em sua simplicidade. Por outro, há momentos em que a tristeza emerge discretamente, sugerindo perdas, arrependimentos ou vínculos rompidos.

Essa ambiguidade alcança seu ponto máximo na cena final. O longo enquadramento do rosto de Hirayama revela emoções contraditórias: ele sorri, chora, reflete e continua seguindo em frente. A sequência sintetiza a principal mensagem do filme: a vida não é composta apenas de felicidade ou tristeza, mas da coexistência de ambas.

A fotografia utiliza enquadramentos limpos e uma iluminação naturalista que reforçam a sensação de intimidade. A trilha sonora, composta por clássicos do rock e do pop ocidental das décadas de 1960 e 1970, funciona como extensão da personalidade do protagonista e contribui para a construção de uma atmosfera nostálgica.

O ritmo lento pode afastar espectadores acostumados a narrativas mais dinâmicas. Porém, essa lentidão é uma escolha estética coerente com a proposta do filme: desacelerar o olhar e permitir que o público experimente o tempo da mesma forma que Hirayama.

Dias Perfeitos é um filme profundamente humanista que propõe uma reflexão sobre o significado da felicidade em um mundo acelerado. Ao transformar ações comuns em momentos de contemplação, Wim Wenders demonstra que a beleza pode estar escondida nos detalhes mais simples da vida.

Mais do que contar uma história, o filme convida o espectador a repensar sua relação com o tempo, o trabalho, os afetos e a própria existência. Sua maior força está justamente em mostrar que os “dias perfeitos” não são aqueles livres de sofrimento, mas aqueles em que somos capazes de encontrar sentido mesmo em meio às imperfeições da vida.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Juno (2007)

 
NATHALIA KATHLEEN LIMA RODRIGUES


Juno é um coming of age extremamente interessante que usa a gravidez na adolescência como ponto de partida, mas não faz dela o centro absoluto da narrativa. Na verdade, os personagens são tão interessantes e bem construídos que, em vários momentos, esquecemos completamente que nossa protagonista, Juno (Elliot Page), está grávida.

Desde o início, Juno foge de praticamente todos os estereótipos associados a esse tipo de história. Assim que descobre a gravidez, ela decide o que quer fazer e não passa o restante do filme questionando sua escolha. Pelo contrário: ela segue sua vida normalmente, mantendo sua personalidade e sua rotina quase intactas durante toda a gestação.

É nesse contexto que conhecemos Paulie Bleeker (Michael Cera), pai biológico da criança e interesse amoroso de Juno. Bleeker está longe do arquétipo do galã adolescente que costuma aparecer em filmes românticos. Ele é tímido, confuso e, muitas vezes, difícil de interpretar. O filme nunca tenta nos dizer exatamente o que pensar sobre ele, o que torna o personagem ainda mais interessante.

Também conhecemos Vanessa e Mark Loring, o casal escolhido por Juno para adotar o bebê. Vanessa (Jennifer Garner) sonha em ser mãe e se entrega completamente à ideia de construir uma família. Já Mark (Jason Bateman) é uma figura muito mais ambígua. Conforme a história avança, suas atitudes fazem com que o espectador questione constantemente suas intenções e sua maturidade.

Mesmo abordando temas complexos, Juno é um filme leve, divertido e surpreendentemente acolhedor. Grande parte disso vem da própria protagonista, que encara a gravidez de uma forma muito diferente do que estamos acostumados a ver no cinema. Ela não trata aqueles nove meses como o evento que define sua existência, mas como uma etapa passageira dentro de uma vida que continua acontecendo.

O que mais me encantou foi a forma como o filme trabalha as expectativas do público. Em nenhum momento a narrativa sugere claramente que Juno vai mudar de ideia, mas existe uma construção quase silenciosa que nos faz acreditar nessa possibilidade. Por isso, quando ela segue exatamente o plano que havia traçado desde o começo, o desfecho acaba sendo mais impactante do que parece. Gosto muito dessa escolha porque ela apresenta uma perspectiva sobre maternidade e adoção que raramente recebe espaço em produções do gênero.

No fim, Juno me surpreendeu bastante. Eu esperava uma história focada na gravidez adolescente, mas encontrei um filme sobre crescimento, escolhas e pessoas imperfeitas tentando descobrir quem são. É divertido, sensível e cheio de personagens que permanecem na cabeça mesmo depois que os créditos terminam.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Obsessão


 Laila Maria Venâncio Batista


À primeira vista, Obsessão parece partir de uma premissa simples. Bear (Michael Johnston), um funcionário tímido de uma loja de discos, é apaixonado por Nikki (a futura ganhadora do oscar Inde Navarrette), sua amiga de infância e colega de trabalho. Incapaz de revelar seus sentimentos, ele recorre a uma solução aparentemente inofensiva: um misterioso brinquedo dos anos 1960 “One Wish Willow” capaz de realizar desejos. O pedido é simples, fazer com que Nikki o ame mais do que tudo no mundo. O problema é que o desejo funciona.

A partir daí, o filme abandona rapidamente qualquer possibilidade de romance e mergulha em um terror psicológico desconfortável. Nikki passa a demonstrar uma obsessão extrema por Bear, alternando momentos de carinho exagerado com surtos perturbadores que indicam que algo está profundamente errado. Enquanto os amigos percebem que ela já não é a mesma pessoa, Bear se agarra à fantasia de finalmente viver a relação que sempre desejou.

O aspecto mais interessante do roteiro está justamente na escolha de acompanhar a história pela perspectiva de Bear. Em vez de focar na vítima, Curry Barker coloca o espectador ao lado do responsável pela tragédia. O protagonista não é retratado como um vilão clássico, mas como alguém que, por egoísmo e frustração, ultrapassa um limite moral sem medir as consequências. Isso torna o filme ainda mais inquietante, porque o horror não surge apenas do elemento sobrenatural, mas das decisões humanas que colocam toda a situação em movimento.

Nesse sentido, Obsessão funciona como uma reflexão sobre obsessão afetiva, consentimento e idealização romântica. O que começa como um desejo aparentemente inocente se transforma em uma relação construída à força, onde Nikki perde completamente sua autonomia. O filme evita transformar essa discussão em um discurso explícito, preferindo deixar que o desconforto das situações fale por si.

Grande parte do impacto emocional da obra vem da atuação de Inde Navarrette. Mesmo tendo relativamente pouco espaço para interpretar a verdadeira Nikki, a atriz entrega uma performance impressionante ao alternar entre vulnerabilidade, terror e comportamento obsessivo. É uma atuação intensa, perturbadora e facilmente uma das melhores do gênero nos últimos anos. Em muitos momentos, ela consegue transmitir o sofrimento da personagem apenas através de expressões e pequenas mudanças de comportamento.

Curry Barker também merece destaque pela direção segura e criativa. Com um orçamento estimado em apenas 750 mil dólares, o diretor constrói cenas visualmente marcantes e utiliza os recursos disponíveis de forma inteligente. O filme nunca parece limitado financeiramente, muito pelo contrário: a produção transforma suas restrições em uma vantagem, apostando mais na atmosfera e nos personagens do que em grandes efeitos.

No final, Obsessão se destaca por oferecer algo cada vez mais raro dentro do terror contemporâneo: uma ideia original executada com personalidade. Entre momentos de humor ácido, violência gráfica e discussões desconfortáveis sobre desejo e posse, o filme constrói uma experiência inquietante que permanece na cabeça do espectador muito depois dos créditos finais. Impulsionado pela direção inventiva de Curry Barker e pela atuação impressionante de Inde Navarrette, o longa se consolida como uma das maiores surpresas e um dos melhores filmes do ano.