terça-feira, 9 de junho de 2026

Stranger Things - o desfecho

 

Entre o hype e a realidade: o desfecho de Stranger Things

Maria Eduarda Pereira da Silva

Stranger Things é uma série da Netflix criada pelos irmãos Duffer que mistura ficção científica, suspense, terror e aventura. A história acompanha um grupo de amigos da cidade de Hawkins que, após o desaparecimento de um deles, encontra uma garota perdida na floresta e começa a enfrentar ameaças ligadas ao Mundo Invertido. Ao longo de cinco temporadas, a série conquistou milhões de fãs por seus personagens carismáticos, pela ambientação nostálgica, pela capacidade de equilibrar momentos emocionantes e assustadores e pelo fato de seu elenco principal ser formado por crianças.

Entre os aspectos mais positivos da obra estão a fotografia, os cenários e a trilha sonora. A série recria os anos 1980 com riqueza de detalhes, tanto nos figurinos quanto nos ambientes. A fotografia utiliza tons escuros e efeitos visuais que ajudam a construir o clima de mistério. Já a trilha sonora se tornou uma das marcas da produção. Quem não assistiu várias vezes à cena em que Max escapa de Vecna ao som de “Running Up That Hill”, de Kate Bush, ou à de Eddie tocando “Master of Puppets”, da banda Metallica, no topo do trailer no Mundo Invertido? Esses momentos, além de combinarem música e narrativa de forma marcante, também serviram como porta de entrada para novos fãs por meio dos recortes compartilhados nas redes sociais.

Além do entretenimento, Stranger Things aborda temas como amizade, amadurecimento, luto e coragem. A série também reflete o poder da nostalgia na cultura atual, utilizando referências ao cinema, aos jogos e à música dos anos 1980 para criar identificação com diferentes gerações. Esses elementos ajudaram a transformar a produção em um fenômeno cultural que ultrapassou os limites dos streamings.

Apesar de todos os seus méritos, a quinta temporada representa o ponto mais fraco da série. Depois do sucesso da quarta temporada, que já apresentava um desfecho forte e emocionante, os irmãos Duffer fizeram o público elevar ainda mais suas expectativas para o encerramento da história. Na minha opinião, a temporada final já começou um pouco saturada pelo excesso de publicidade, pela divisão em três partes e pela avalanche de teorias e reações que dominaram as redes sociais. Parte dessa expectativa foi criada pela própria produção, mas também pelos fãs — incluindo eu mesma, que passei meses acompanhando cada novidade e especulação sobre o desfecho.

A temporada final começou de forma promissora, com momentos importantes de cair o queixo. No entanto, esses acontecimentos acabaram se tornando pontos isolados dentro deuma narrativa que perdeu força ao longo do caminho. A dependência excessiva de alguns personagens e a repetição de situações, como mais uma tentativa de sacrifício de Hopper, diminuíram o impacto da história. Durante cinco temporadas, acompanhamos personagens que deixaram de ser crianças que precisavam de proteção para se tornarem protagonistas capazes de proteger os outros. Por isso, algumas escolhas do roteiro parecem ignorar parte desse desenvolvimento. Além disso, o encerramento deixou questões importantes sem uma conclusão satisfatória. O sacrifício de Eleven, personagem central desde o início da série que merecia mais.

Também causa estranheza o fato de Joyce e Hopper nunca descobrirem a verdadeira identidade de Vecna, apesar de estarem diretamente envolvidos na luta contra o Mundo Invertido. Outra dúvida que permanece é o desaparecimento dos demogorgons durante a batalha final, já que essas criaturas foram apresentadas como uma das maiores ameaças da série ao longo de toda a narrativa. O resultado foi uma temporada que, embora tenha momentos interessantes, apresentou soluções que não tiveram o mesmo impacto dos anos anteriores. Para muitos espectadores, a quarta temporada possuía muito mais força para encerrar a série do que a quinta.

A grande expectativa criada em torno do final acabou aumentando ainda mais a decepção de parte do público. Uma prova disso foi a popularização da chamada “teoria do nono episódio”, criada por fãs que acreditavam que haveria um capítulo secreto capaz de responder às questões deixadas em aberto. O surgimento dessa teoria demonstra como muitos espectadores sentiram que o encerramento foi insuficiente para concluir uma história construída ao longo de quase uma década. Dessa forma, embora Stranger Things continue sendo uma das séries mais marcantes dos últimos anos e uma das minhas favoritas, sua temporada final deixou uma sensação agridoce, ficando abaixo do nível que a própria série havia estabelecido ao longo de sua trajetória.

O conto da aia

 

O conto da Aia

Maria Eduarda Galdino Dantas

A série “O conto da Aia” baseada no livro originalmente com o título de “The handmaind’s tale”, traz a história de um futuro distópico em que a taxa de fatalidade caiu abruptamente, e o governo nos Estados Unidos se torna um novo país com o nome de Giliarde, com mulheres oprimidas, divisões sociais entre comandantes, esposas, aias, marthas, guardiões, tias e outros. Esse governo usa da religião cristã com trechos bíblicos distorcidos e do patriarcado para governar uma nação inteira, com a desculpa de continuar gerando filhos para o mundo com as últimas mulheres férteis que restaram.

A história central fala de June, uma aia, que antes desse governo tinha uma família e tinha seu emprego, mas com a chegada desse regime tudo lhe foi tirado, por ela ainda ser fértil foi capturada para ser uma aia. As aias na visão de Giliarde são pecadoras que tem sua chance de se redimir gerando filhos para comandantes e suas esposas, em que o comandante a engravida e ao nascer
ela lhe dá o filho que foi gerado, e passa para outro comandante.

Ainda não terminei a série, estou na metade da terceira temporada, mas a serie consegue nos mostrar perfeitamente como o sistema pode usar das próprias mulheres para oprimir umas as outras, a realidade da série nos assusta por acabarmos encontrando algumas semelhanças com nossa realidade, como a política de extrema direita cristã, a perda do direito das mulheres em muitos países, o controle do governo sobre o corpo das mulheres. A serie não nos polpa de ver cenas desconfortáveis como a cenas de abuso sexual e de enforcamento, a fim de nos dar um choque sobre como serie nesse futuro distopico controlado por homens, religião e opressão, onde alguma das próprias mulheres ajudaram a contribuir para sua “prisão” no sistema.

A fotografia da serie é muito bem elaborada, em alguns momentos com muitos tons de vermelho, cor da roupa das aias, ênfase no branco, cor do chapéu das aias e algumas salas mostradas na série, fotografia encantadora e em sincronia com as cenas. Apesar da história nos prender, por ficarmos cada vez mais curiosos para saber como as mulheres irão se livrar daquele governo, mas há cenas que nos enoja e nos obriga a passa-la.

A cena em específico de quando uma aia é abusada sexualmente mesmo já estando gravida, para induzi-la de forma mais rápida ao parto, ao pesquisar sobre o livro, descobri que originalmente isso não acontece, foi uma cena desnecessária e desconfortável de assistir, nem se quer assistir, pulei essa parte, ver a aia implorando para pararem e em seguida ficar isolada em estado de
negação pelo que lhe aconteceu. É uma cena que poderia ter sido evitada, e fazerem como no livro em que lhe agridem de forma psicológica, mas não fisicamente.

BACKROOMS

Lívia Matos Nery de Araújo Rodrigues


Já imaginou assistir um filme onde sua premissa nasce nos fóruns da internet? Backrooms (2026), dirigido por Kane Parsons e distribuído pela A24, é a adaptação em longa-metragem da série de curtas virais que o próprio Parsons publicou no YouTube em 2022, ainda adolescente, e que se tornou um dos fenômenos de horror do meio digital. O filme acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), dono de uma loja de móveis em crise após um divórcio, e Mary (Renate Reinsve), sua terapeuta, que descobrem no porão da loja um portal para uma dimensão de corredores infinitos e amarelados, os chamados Backrooms, de onde precisam encontrar uma saída enquanto enfrentam os perigos e as regras incompreensíveis deste plano alternativo.

Apesar de todo seu sucesso, alguns problemas estruturais ficam marcados no filme. O roteiro de Will Soodik por exemplo, mesmo que narrativamente bem estruturado, deixa a desejar na construção dos personagens. Clark e Mary existem mais como funções narrativas do que como seres humanos convincentes, e o espectador raramente sente o verdadeiro peso do que está em jogo para eles. 

Não existe uma conexão profunda entre espectador e personagens. O filme também pressupõe familiaridade com a mitologia das Backrooms, sua origem em fóruns e creepypastas, deixando boa parte do público sem ancoragem emocional ou narrativa. Porém, os méritos de Backrooms são consideráveis e, no fim, sobrepõem-se às suas fragilidades. A construção da atmosfera é o ponto mais alto da obra, Parsons demonstra uma proficiência técnica incomum para um diretor estreante, e o cuidado estético com os cenários resulta em imagens genuinamente perturbadoras. A fotografia de Jeremy Cox merece menção especial, a escolha por enquadramentos assimétricos, a forma como a luz fluorescente corrói as sombras e a textura quase analógica conferida aos corredores criam uma experiência visual sufocante, que transforma o cenário em personagem.

Mais do que um horror convencional, o filme funciona como alegoria quando visto com atenção. O conceito de no-clipping, termo da computação gráfica que designa ultrapassar oslimites físicos entre objetos sólidos, é usado como metáfora de dissociação: Clark, um homem que vendeu a vida inteira objetos que organizam o espaço doméstico, literalmente escorrega para fora da realidade quando seus próprios marcos internos entram em colapso. Os corredores sem fim podem ser interpretados como a externalização de uma mente que perdeu seus pontos de referência. Nesse sentido, o filme funciona melhor como terror psicológico do que como horror. É o trabalho de um cineasta talentoso que já mostra, quadro a quadro, que veio para ficar.

GOAT

 

Um cabra bom de bola

Kamily Santos 

Lançado em 2026, “Goat – Um Cabra Bom de Bola" é uma animação dirigida por Tyree Dillihay que acompanha a trajetória de um jovem bode que sonha em se tornar um grande jogador de “berroball” em um mundo habitado por animais antropomórficos. Embora o filme se apresente inicialmente como uma narrativa esportiva voltada ao público infantil, sua construção visual e narrativa permite leituras mais profundas sobre identidade, pertencimento e superação de estereótipos.

Um dos aspectos mais interessantes da obra é a forma como ela constrói, ao longo da narrativa, um constante contraste entre presa e predador. O filme brinca com essa oposição de maneira irônica, especialmente ao inserir o protagonista, um bode, tradicionalmente associado à vulnerabilidade, em espaços dominados por animais considerados mais fortes, rápidos ou ameaçadores. Em diversas cenas, personagens que, pela lógica natural, ocupariam posições de predadores aparecem demonstrando fragilidade, quase ocupando um lugar de presa.

Essa inversão cria um efeito simbólico importante. Ao desafiar as expectativas associadas às características biológicas dos animais, o filme questiona preconceitos e classificações pré-estabelecidas. O que define um vencedor não é a força física ou a posição na cadeia alimentar, mas a capacidade de persistir diante das dificuldades. Dessa forma, a obra utiliza a metáfora do esporte para discutir questões sociais mais amplas, como exclusão, reconhecimento e meritocracia.

Visualmente, esses contrastes também são reforçados pela composição das cenas. Em vários momentos, o protagonista aparece cercado por personagens maiores ou mais imponentes, criando uma sensação inicial de desvantagem que é posteriormente desconstruída pela narrativa. A ironia surge justamente do fato de que aqueles que aparentam possuir vantagem natural nem sempre são os mais preparados para enfrentar os desafios apresentados.

Assim, “Goat – Um Cabra Bom de Bola” vai além da estrutura convencional dos filmes esportivos infantis. Ao explorar de forma criativa e bem-humorada a relação entre presa e predador, a animação transforma uma história de “berroball”em uma reflexão sobre a quebra de estereótipos e a valorização das capacidades individuais, independentemente das expectativas impostas pelo meio social. 

domingo, 22 de março de 2026

A Voz de Hind Rajab

 


29 de janeiro de 2024. Voluntários do Crescente Vermelho recebem um chamado de emergência. Uma menina de 6 anos está presa em um carro sob fogo cruzado em Gaza, implorando por socorro. Enquanto tentam mantê-la na linha, eles fazem tudo o que podem para enviar uma ambulância até ela. Seu nome era Hind Rajab.

A Voz de Hind Rajab (em árabe romanizado:  Ṣawt Hind Rajab ) é um filme docudrama de 2025 escrito e dirigido por Kaouther Ben Hania . Ele acompanha a resposta do Crescente Vermelho durante o assassinato de Hind Rajab , uma menina palestina de seis anos, pelas Forças de Defesa de Israel durante a invasão israelense da Faixa de Gaza