segunda-feira, 15 de junho de 2026

We Are Who We Are

Geildson Rhamon Nascimento de Souza

Estreada em 2020, _We Are Who We Are_ é uma minissérie dirigida por Luca Guadagnino. Conta a história de um grupo de jovens que vivem suas vidas dentro de uma base militar americana fictícia localizada na região do Vêneto, na Itália. À medida que a trama avança, vemos as lutas sociais e questões políticas que perpassam a vida desses jovens, principalmente dois deles: Fraser Wilson e Caitlin.

Ambos são os pilares que movimentam a vida das outras pessoas.

A direção de Luca muitas vezes é descrita como limpa, bonita, real e, algumas vezes, tediosa. Tudo isso está impregnado nessa minissérie. Para retratar o cotidiano com uma realidade astuciosa, Guadagnino não se importa se, para quem assiste, ficar chato, tedioso ou sem graça. Ele quer retratar a vida dos jovens dentro de sua prontidão. Isso poderia ser apenas negativo, não é possível negar que não seja. Ninguém gosta de assistir sobre o cotidiano normal de jovens, mas, quando olhamos para a minissérie como um todo, é possível enxergar algo onírico e único: a época em que a minissérie se passa é 2016, o conceito político dos Estados Unidos estava fragilizado e os jovens rebeldes dentro da moda, música e arte no geral. E quando isso adentra numa base militar, é claro que vai resultar em loucuras, afinal… são jovens.

A trilha sonora pertence quase toda ao Blood Orange, grande artista negro americano no qual é retratado como cantor/banda favorita do protagonista. O roteiro de Luca, Paolo Giordano e Francesca Manieri é, algumas vezes, muito enrolado. Não é que a direção de câmera queira; é que o roteiro, logicamente, deveria facilitar a trama, e não é isso que acontece. Felizmente, é um roteiro que entende muito bem os jovens de 2016. A ousadia deles é notável, porém deslizante em alguns momentos, e isso não torna _We Are Who We Are_ menos especial. Muito pelocontrário: até os erros do roteiro ajudam quem assiste, de certa forma, e isso é claramente observável quando se assiste. Existe uma sensação única, a de que a trama é imersiva.

E o que falar da direção de arte e da fotografia? Os grandes pontos fortes dessa minissérie, claro, além das atuações naturais do elenco de jovens composto por: Jack Dylan Grazer fazendo Fraser Wilson, Jordan Kristine Seamon fazendo Caitlin, Tom Mercier como Jonathan, Francesca Scorsese como Britney, Benjamin L. Taylor II como Sam e Spence Moore II como Danny. Eles, juntamente das posições de câmera, styling de seus personagens e paisagens, compõem bem a anemoia causada no espectador, que se deslumbra até dos momentos mais difíceis dentro da história. É de uma delicadeza única, uma unidade que entende o que é ser jovem: às vezes rebelde, às vezes dentro de um padrão e, às vezes, obrigado a viver uma vida que não quer. Respeitar o que é ser jovem é muito importante para a composição de tramas que o representem, e _We Are Who We Are_ faz isso com maestria.

The Mighty Nein

 
Ray Eduardo Cunha Soares

“The Mighty Nein” acompanha um grupo improvável de aventureiros em um mundo de fantasia marcado por conflitos políticos, mistérios antigos e traumas pessoais. A trama se inicia acompanhando diferentes personagens em núcleos separados, cada um carregando seus próprios objetivos, segredos e problemas. Diferente de muitas histórias de fantasia em que os protagonistas rapidamente se tornam amigos, aqui existe um clima constante de desconfiança. Paralelamente, a série apresenta o mistério envolvendo o “Luxon Beacon”, um artefato com um estranho poder sobre às almas, está ligado às tensões entre nações e que já é introduzido como uma peça importante da narrativa. Aos poucos, os destinos desses indivíduos se cruzam até que formam o grupo “Mighty Nein”.

A adaptação do que era um RPG de mesa para uma série animada não é uma tarefa simples, mas a animação é muito boa, não apresenta nada particularmente de novo dentro do gênero de fantasia, porém faz muito bem seu papel com uma boa direção de arte. Têm coreografias de combate incríveis e uma história extremamente cativante a dublagem merece destaque, pois os dubladores são os próprios jogadores, que são dubladores profissionais, e entregaram um trabalho incrível.

Cada membro do grupo possui uma história própria que vai sendo revelada no momento certo, tornando-os muito mais interessantes do que simples arquétipos de aventureiros. A amizade entre Caleb e o/a goblin Nott começa de forma frágil e silenciosa, mas evolui para uma confiança mútua muito bonita de acompanhar. Da mesma forma, a dinâmica entre Fjord e Jester aponta para um relacionamento romântico bastante cativante, embora Fjord ainda omita alguns fatos sobre sua istória. Já Kingsley surge como uma figura intrigante, aparentemente sofrendo de amnésia, mas com uma personalidade forte e peculiar. Curiosamente, ele não é o tipo de personagem que tenta unir o grupo; sua importância está justamente em fortalecer aos poucos os laços que já começam a surgir entre os demais. Também merece destaque Beau, uma monge da Alma de Cobalto, uma desbocada, teimosa e avessa a seguir ordens, ela busca fazer o que considera certo seguindo seus próprios princípios, com uma personalidade bem inquisitiva. Juntos, esses personagens formam um completo caos. Ao mesmo tempo, quando a narrativa decide adotar um tom mais sério, ela consegue transmitir tensão, angústia e emoção com eficiência. Um desses momentos é protagonizado pelo Caleb que talvez seja o caso mais impactante. Seu passado extremamente trágico e pesado adiciona uma carga emocional inesperada à narrativa, transformando-o em um dos personagens mais marcantes da temporada.

Porém, alguns momentos da narrativa apresentam reações que não parecem condizer totalmente com os acontecimentos. O exemplo mais evidente envolve Kingsley. Após os integrantes do grupo, ainda que sem intenção, contribuírem para libertar uma criatura que acaba matando várias pessoas importantes do circo onde ele vivia, sua reação emocional parece surpreendentemente contida. Mesmo após enfrentar e derrotar a criatura, o personagem demonstra tristeza, mas não da quantidade esperada diante da sequência de tragédias que sofreu em tão pouco tempo, o que enfraqueceu parte da carga dramática da situação na minha opinião.

Com apenas oito episódios, The Mighty Nein termina deixando um forte sentimento de “quero mais”. A série mesmo tendo um mundo fantástico interessante, inspirado no clássico D&D, sua maior força se apresenta nos seus personagens. Com momentos hilários, amizades improváveis, traumas profundos e relacionamentos em construção, a animação consegue transformar um grupo de desconhecidos desajustados em protagonistas pelos quais o público goste e possa torcer.

Monster (2023)

Quem é o verdadeiro monstro?

Saulo Tavares da Silva

Quem é o verdadeiro monstro? Essa é a pergunta que move o filme Monster do diretor japonês Hirokazu Koreeda. Monster conta a história de Saori (Sakura Andō), que até então tinha um relacionamento feliz e tranquilo com seu filho Minato, interpretado pelo jovem ator Sōya Kurokawa, até um dia ele aparecer com o cabelo cortado, depois com apenas um sapato e então, ao não retornar para casa, ela o encontra em um túnel abandonado. Ao ser questionado, Minato acusa o seu professor, Sr. Hori (Eita Nagayama), de abuso. A partir daí, Saori começa uma saga para entender o que realmente aconteceu e ocasionou a mudança repentina de comportamento de seu filho.

Monster, no entanto, não entrega essas informações de forma direta. O filme se estrutura em três pontos de vista distintos que compõem a narrativa: os de Saori, Hori e Minato. Cada ponto de vista apresenta informações novas, como se realmente estivéssemos vendo apenas o que cada um consegue ver. Aqui, o espectador não é onisciente, somos realmente parte do filme.

Monster apresenta a angústia de diversas formas. A cena em que Saori confronta a equipe da escola enquanto recebe o pedido de desculpas do professor Hori é constrangedora e irritante, não por ser mal feita, mas pela emoção transportada em cena. A direção tenta ignorar os pedidos da mãe, apenas lendo um relato simplificado do ocorrido, enquanto Hori pede desculpas forçadas, como se estivesse lendo um roteiro. É uma tentativa de apagar e relativizar o ocorrido e que causa angústia no espectador. É uma mãe desesperada para entender porque seu amado filho se tornou recluso do dia para a noite e uma escola que não quer resolver a situação, mas sim colocar panos quentes.

É somente após essa cena que somos apresentados a um personagem central e que, junto de Minato, torna-se um elo entre os três pontos de vista: Yori (Hinata Hiiragi), um colega de sala que, segundo o professor Hori, sofre bullying praticado por Minato. Após essa apresentação, Hori é demitido da escola até que em uma noite chuvosa reaparece na casa de Saori. Só, então, somos apresentados à sua versão dos acontecimentos.

Toda a situação em Monster escala de maneira lenta. Os acontecimentos são contados em ordem cronológica para cada ponto de vista, mas, mesmo que o público já saiba o que vai acontecer, cada cena é diferente. Se fosse possível decupar o filme e unificar tudo, as cenas iriam se complementar. Isso faz com que não se torne maçante, nem mesmo cause um sentimento de dejà vu.

À medida que o filme passa, acaba-se tornando mais claro que a relação entre Minato e Yori é o grande motor que move tudo. Yori, uma criança pequena para a idade, tida pelos outros colegas como frágil demais, que desenvolve uma proximidade e intimidade com Minato, que não consegue entender os seus próprios sentimentos.

É aqui que moram os verdadeiros monstros de Monster. Não são os dois meninos, que estão se descobrindo e entendendo quem são neste mundo, mas sim aqueles que os julgam anormais por serem diferentes, como o próprio pai de Yori faz com ele. São aqueles que preferem derrubar os outros para se salvar, como a escola e a diretora fazem.

Monster constrói tensão por meio da desconstrução narrativa ao apresentar três pontos de vista, alterando a percepção de quem assiste. Se no início, com a visão de Saori, nós temos raiva pela escola e pelo professor, quando enxergamos por Hori, há um entendimento de que ele é uma vítima, passando a ter uma raiva de Minato. Somente aí, Monster nos leva a ver o lado dele, nos permitindo ter um aprofundamento no medo, raiva e vergonha que gira na cabeça de Minato, assim como o descobrimento do amor e o medo que ele tem de não ser igual ao pai.

Um outro ponto alto de Monster é o seu elenco. Os atores jovens conseguem transmitir todas as emoções necessárias à narrativa, nos fazendo torcer por um final feliz para os dois, além de dominarem a tela. Apesar de muito novos, tanto Kurokawa (Minato), quanto Hiiragi (Yori), conseguem acompanhar os veteranos Andō (Saori) e Nagayama (Hori).

Se fosse pontuar algo negativo em Monster, seriam as cenas que trazem o romance de Hori e sua namorada. Apesar de funcionarem para mostrar sua situação de abandono, elas não são muito interessantes quando o próprio roteiro dá mais atenção a Yori e Minato.

Monster é, no final, uma história de amor, seja ela romântica ou de amizade. É a história de dois meninos que descobrem o amor e desejam ser vistos como humanos e como normais. De uma mãe que é capaz de tudo pelo bem do seu filho. De um professor que só deseja o melhor de seus alunos. É a história dos que são chamados de monstros pelos monstros.

Anora (2025)


Rebeca Marinho de Oliveira

Ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2025, Anora foi escrito e dirigido pelo cineasta Sean Baker e narra a história de uma stripper, interpretada por Mikey Madison, que, durante uma noite de trabalho, conhece Ivan, filho de um oligarca russo e vivido pelo ator Mark Eydelshteyn. Em poucas semanas, os dois se casam e passam a viver uma relação conjugal que, à primeira vista, parece capaz de transformar a situação experimentada pela protagonista.

Ambientado em Nova Iorque, o filme transita entre a pobre realidade de Anora e a vida milionária de Ivan, regada por bebidas, festas e privilégios. Essa dualidade social é bem retratada pela direção, que utiliza cenários luxuosos para evidenciar o contraste entre os dois mundos e reforçar o abismo que separa os personagens, apesar da relação que estão tentando construir.

No entanto, quando a família rica de Ivan descobre sobre o casamento, a vida dos pombinhos começa a desandar, e o filme também. Os ataques de chilique do infantil e mimado Ivan ocupam o centro da trama e dão nos nervos de quem assiste. O pobre menino rico entra em desespero e foge. Assim, o filme passa a girar em torno de Anora e os capangas dos pais do rapaz em busca dele por todos os lugares da cidade.

Nesse momento, a história perde boa parte do encanto construído inicialmente e se torna repetitivo em diversos trechos. A imaturidade de Ivan acaba desgastando a experiência do espectador, ainda que as cenas sirvam para evidenciar a incapacidade do garoto em assumir as próprias responsabilidades. Se a protagonista pensava que estava segura emocionalmente e financeiramente com seu enlace, percebeu que, na verdade, se casou com um idiota.

Os momentos de intimidade entre os protagonistas também revelam muito sobre a natureza da relação. O que parecia uma história de amor, na verdade, era uma relação baseada em projeções irreais. Para Ivan, Anora representou apenas a realização temporária de um desejo, enquanto isso, para ela, o casamento surgiu como uma oportunidade de escapar da instabilidade que paira em sua vida. Ainda assim, Anora consegue transmitir uma reflexão sobre a fragilidade das atuais relações e sobre como alguns enxergam os vínculos afetivos como transações comerciais. Ao final, o casamento é desfeito e Ivan retorna sem grandes prejuízos à proteção oferecida por sua posição social, enquanto Anora permanece sozinha para lidar com as consequências emocionais de uma experiência que, por um breve momento, pareceu representar a possibilidade de uma nova vida.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Hamnet

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025)

Julyane de Souza Benigno

Dirigido por Chloé Zhao, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (2025) é uma adaptação do romance homônimo de Maggie O'Farrell que revisita a história da família de William Shakespeare a partir de uma perspectiva íntima e emocional. O filme acompanha Agnes Shakespeare e seu marido William após a morte do filho Hamnet, de apenas onze anos, explorando como o luto transforma suas vidas e, simbolicamente, influencia a criação da célebre tragédia Hamlet.

Um dos maiores pontos positivos da obra é sua profundidade emocional. Em vez de focar na figura histórica de Shakespeare, o filme concentra sua narrativa em Agnes, interpretada por Jessie Buckley. Sua atuação é extremamente sensível e expressiva, transmitindo a dor do luto materno de maneira comovente e realista. A performance foi amplamente elogiada pela crítica e considerada um dos principais destaques do longa.

Outro aspecto positivo é a direção de Chloé Zhao. Conhecida por seu estilo contemplativo, a diretora utiliza enquadramentos delicados, paisagens naturais e um ritmo introspectivo para construir uma atmosfera poética. A fotografia de Łukasz Żal e a trilha sonora de Max Richter reforçam o tom melancólico da narrativa, criando imagens visualmente impactantes que dialogam com os sentimentos dos personagens. Além disso, o filme aborda temas universais, como amor, perda, memória e superação, tornando a história acessível mesmo para quem não possui conhecimento prévio sobre Shakespeare. A narrativa consegue transformar um episódio histórico em uma reflexão profunda sobre a experiência humana.

Entretanto, o ritmo lento pode, a princípio, incomodar parte do público acostumado a narrativas mais dinâmicas. Zhao privilegia o desenvolvimento emocional e a contemplação, o que faz com que alguns momentos pareçam excessivamente prolongados. Para determinados espectadores, a trama pode transmitir a sensação de pouca progressão dramática. Outro aspecto discutível é o forte apelo sentimental da obra. Embora a emoção seja essencial para a narrativa, em alguns momentos o filme se aproxima do melodrama, insistindo excessivamente na representação da dor e do sofrimento. Alguns críticos consideraram que essa carga emocional pode parecer manipuladora para parte do público.

Em conclusão, Hamnet é um filme sensível, elegante e emocionalmente poderoso. Graças à direção cuidadosa de Chloé Zhao, às excelentes atuações, especialmente de Jessie Buckley, e à sua beleza visual, a obra se destaca como uma reflexão tocante sobre o luto e os laços familiares. Apesar do ritmo lento e do tom excessivamente melancólico em alguns momentos, o filme oferece uma experiência cinematográfica profunda e marcante, sendo uma adaptação bem-sucedida do romance de Maggie O'Farrell e uma interessante releitura do universo shakespeariano.