sexta-feira, 28 de novembro de 2025

A Longa Marcha

 

Caminhe ou Morra

Lyênia Monteiro das Chagas

A Longa Marcha (2025) é a adaptação romance de Stephen King sob direção de Francis Lawrence, o mesmo responsável pelos principais filmes de Jogos Vorazes e que neste filme parece confortável revisitando o tema de jovens em situação violentas. A premissa do longa segue a estrutura do livro: em um Estados Unidos distópico, cem jovens participam de uma competição de resistência em que caminhar é questão de sobrevivência. Manter uma velocidade mínima garante a permanência; parar significa morrer, com a promessa de um desejo a ser comprido para o último de pé. Entre vários participantes memoráveis estão Ray Garraty, interpretado por David Jonsson, e McVries, vivido por Cooper Hoffman, que desenvolvem uma relação marcante ao longo do percurso. A supervisão rígida da marcha fica a cargo do Major, personagem de Mark Hamill.

O filme começa exibindo a brutalidade das regras de forma direta, mas aos poucos a câmera passa a recuar, evitar o espetáculo da dor e deslocar nossa atenção para quem continua vivo. A violência não desaparece, mas deixa de ser espetáculo para se tornar consequência. Quando o espectador passa a conhecer seus ritmos, medos e pequenos momentos de humor, a narrativa reduz a exposição das mortes e enfatiza a humanidade desses jovens. Eles deixam de ser apenas rostos desconhecidos e se tornam identidades em movimento.

A repetição do cenário não enfraquece a experiência. Mesmo atravessando diferentes regiões, tudo continua sendo a mesma estrada infinita. A escolha reforça o desgaste físico e mental imposto pela competição. O cansaço visual é parte da construção dramática: a sensação de continuidade forçada torna-se elemento narrativo.

Do ponto de vista técnico, Francis Lawrence demonstra controle sobre ritmo, tensão e linguagem visual. A direção utiliza enquadramentos longos para traduzir a exaustão, edição precisa para manter a urgência e uma paleta que destaca a deterioração progressiva da jornada. As performances de Jonsson e Hoffman sustentam a imersão emocional enquanto Hamill entrega um antagonista de presença sem exageros.

“A Longa Marcha” é um filme que usa de um conceito simples em uma experiência física e emocional. A narrativa mantém o público atento, enfatizando conexões, resistências e escolhas. A marcha continua porque precisa continuar, e essa sensação é o que move o filme do início ao fim.

A Origem do Mal


João Tobias Ribeiro de Lima


Um grupo de seis pessoas, há 45 mil anos, chega a uma ilha desconhecida em busca de abrigo, comida e sobrevivência, e se deparam com criaturas desconhecidas e muita escuridão, lidando até com certas traições ao longo do caminho. Com isso, eles tentam se manter unidos (ou não), e explorar sem ter nenhuma ideia do que vão encontrar.

“A Origem do Medo” é um filme lançado em 2022 e dirigido por Andrew Cumming, em sua estreia em longas-metragens, com uma ambientação bastante escura e misteriosa, mantendo um ar de terror e thriller ao longo de todo o filme. A língua falada na obra é completamente inventada, o que achei bastante interessante, além das roupas de pele e alguns equipamentos, como a lança, que deixam o longa com um tom realista. 

Porém, mesmo sendo um filme de quase uma hora e meia apenas, acabam deixando o filme maçante e arrastado em algumas partes, ao mesmo tempo em que outras partes ficam corridas até demais, sem um aprofundamento, sem ter um tempo para digerir ou de os próprios personagens sentirem o que acabara de acontecer. Além disso, a personagem Ave é pouquíssimo explorada durante todo o longa, tendo escassas falas e sendo reduzida apenas a grávida da história, que está sempre assustada.

A obra tem uma ótima ambientação, e estende muito bem as cenas de terror e suspense na floresta, prendendo quem assiste a ver o que vai acontecer em seguida, se a criatura irá se revelar, se tal personagem está vivo, e a escuridão casa perfeitamente com isso.

O final do filme me agradou bastante, com duas grandes revelações que, mesmo que uma delas seja meio óbvia, deixa o público boquiaberto, e acaba por ser uma grande finalização.

Frankenstein 3


 Hannah Carneiro



Na mitologia grega, a ambição de conceder mais dons à espécie humana levou Prometeu a roubar o fogo dos deuses e ser punido para a eternidade pelo mais poderoso deles: Zeus. Qual é o preço para quem desafia as leis da natureza? Quanto paga o criador e quanto paga a vítima? Em todas as formas e adaptações de Frankenstein, ou o Prometeu Moderno, clássico da ficção científica e da literatura gótica, escrito por Mary Shelley, esses são questionamentos que perduram. 


Do meio da neve surge uma criatura robusta e assustadora, determinada em dominar o destino de seu próprio inventor. A partir daí, como no livro original, Frankenstein (2025), dirigido por Guillermo del Toro, acompanha a odisséia de Victor Frankenstein e de seu monstro, desde o princípio de seus traumas geracionais. Distante da realidade literária, em que Victor tem uma infância colorida por amor e acolhimento, o filme ilustra um período marcado pela rigidez e frieza vinda de seu pai, o que colabora para uma melhor compreensão do seu amadurecer apático, voltado para o seu orgulho de superar as habilidades da figura paterna e desafiar a organicidade da vida.


Em contraste com sua ambição, surge Elizabeth Lavenza, vivida com sensibilidade e perspicácia pela atriz Mia Goth, que encontra na apreciação de pequenas formas de vida a maior beleza. O que, vale ressaltar, é meticulosamente transposto nos seus figurinos em cores e padrões que remetem a besouros, líquens e até mesmo um raio-x, idealizados pela diretora de arte Tamara Deverell. Dessa forma, em justaposição, sua personalidade destaca a vaidade e orgulho de Frankenstein, um homem movido pela sede de de alcançar um poder que compense o que a vida não lhe cedeu: amor.


Victor torna-se, então, o espelho de seu próprio pai: que gerou a vida, mas não a acolheu. Entre a vaidade que eleva o homem ao papel de deus e o abandono que o torna monstro, nasce o drama mais humano da obra: um filho que deseja ser inteiro, um pai feito de soberba incapaz de amar o que criou. E nessa ausência de amor, o horror deixa de ser sobrenatural — ele se torna profundamente humano.

Nesse cenário, a atuação do ator australiano Jacob Elordi merece destaque. Longe de interpretações caricaturais do seu passado, Elordi entrega uma Criatura crua e que transborda humanidade, prometendo sucesso em seus próximos trabalhos cinematográficos. Em um tom diferente, mais maniqueísta e infantil, se aproxima da curiosidade e ingenuidade perante o mundo transmitidas pela atriz Emma Stone, como Bella Baxter em “Pobres Criaturas” (2023), de Yorgos Lanthimos. A criatura de Del Toro é imponente, retalhada com partes escolhidas a dedo pela vaidade de Frankenstein, mas o olhar é frágil, quase infantil. Elordi compreende que o monstro não reside em sua aparência, mas na forma como o mundo o vê.

Apesar disso, pode-se observar que Del Toro escolheu aproximar sua Criatura da bondade e menos da dubiedade, o que é construído na obra de Mary Shelley de forma mais equilibrada: enquanto demonstra empatia para com certos indivíduos, também é cheio de violência e sentimento de vingança, o que torna a leitura do público mais próxima da compreensão da subjetividade humana e menos de um maniqueísmo que oprime a reflexão e entrega de bandeja o bem e o mal.

No que tange as forças inegáveis do filme, não se pode deixar de elogiar a direção de arte, que impressiona com seu caráter estonteante e demonstra consonância com os trabalhadores anteriores de Del Toro, conhecido por sua estética gótica e pela fusão entre o fantástico e o orgânico (A Forma da Água, O Labirinto do Fauno). O universo visual é híbrido: vestuários e cenários remetem ao século XIX, mas dispositivos tecnológicos e máquinas improváveis insinuam um futuro que jamais existiu. O filme se instala nesse paradoxo, refletindo a própria essência de Frankenstein, que sempre se tratou de fronteiras rompidas. 

Por isso, pode-se dizer que Frankenstein de Guillermo del Toro é uma obra que merece ser apreciada pela sua beleza estética e pela sensibilidade que o diretor extrai da literatura para as telas. Entretanto, não se pode deixar de questionar até onde vamos abrir mão da subjetividade da linguagem para tornar uma narrativa cada vez mais verborrágica e unilateral.



“Pecadores” (2025)

 


João Carlos Justino do Nascimento


E se os maiores fantasmas não viessem do sobrenatural, mas das próprias memórias e culpas que carregamos? Superficialmente, este é o enredo explorado em Pecadores (2025), mais novo filme do diretor de Pantera Negra e Creed, Ryan Coogler. Aqui, o diretor aposta em um território híbrido: terror gótico, drama de época e mitologia musical. Ambientado em 1932 no Delta do Mississippi, o filme traz Michael B. Jordan no papel duplo dos temidos irmãos gêmeos Fumaça e fuligem, que ao retornarem para casa, decidem inaugurar um bar para o povo negro celebrar suas tradições e músicas clássicas, mas acabam confrontados por forças sobrenaturais antigas, encarnados na figura de vampiros.

Para além do nome mais badalado do filme, a história também nos apresenta outra figura importantíssima para o desenrolar da trama: Sammie, ou, “pastorzinho” – apelido dado por conta de seu pai, pastor da cidade. O jovem ,de origem humilde, vive uma realidade dividida entre a religião – advinda do seu pai – e a sua paixão pelo blues, que parece ser algo intrínseco à sua gênese, um talento quase que místico. Misticismo esse que não é novidade para os adeptos à história do blues, uma vez que o personagem Sammie, como comentado pelo próprio diretor, bebe muito da lenda de Robert Johnson, que foi um famoso cantor de blues que supostamente vendeu sua alma ao diabo em troca de talento musical.

Dentre os vilões, um dos maiores mistérios é acerca dos vampiros, que na figura de seu líder: Remmick, inicialmente vemos um vilão estereotipado e sem muito desenvolvimento, mas que esconde um passado de muita relevância para o contexto impresso na obra. E é a partir da origem irlandesa do personagem que o filme ganha mais uma camada em seu subtexto, uma vez que, por ser um vampiro e irlandês, Remmick esteve presente em diversos períodos da história, dentre eles, o período de repressão e apropriação cultural praticada pela Grã-Bretanha contra o seu povo. No filme, o processo acontece de forma semelhante, ao criar-se um momento de empatia dos vilões com o os negros que estavam na inaguração do bar. Os vampiros chegam a comentar a real intenção dos donos do galpão em que estavam e que, na verdade, pela manhã, eles seriam abatidos pelos integrantes da Ku Klux Klan. A ideia era, através do encanto pela música do jovem Sammie, convertê-lo e usá-lo como porta de acesso aos seus ancestrais, representando a apropriação cultural sofrida pelos próprios irlandeses e, mais explicitamente, pelos negros nos EUA.

Pecadores vende-se como um filme do gênero terror, mas isso é apenas a camada superficial da trama, que recheia seu subtexto de crítica social, música tradicional (blues) e horror simbólico para explorar racismo, legado, culpa e trauma de um modo visceral. O filme não esconde, em momento algum, a importância da música como forma de resistência de uma cultura, transformando a trilha sonora do filme em uma experiência à parte e quase personificando o blues, que é colocado como um gênero musical ancestral, capaz de rasgar o tecido do tempo e transportar a cultura de seu povo.

Entre os “poréns”, é possível notar uma certa lentidão inicial — a primeira parte do filme demora a engatar no terror propriamente dito, focando mais no estabelecimento do ambiente e dos personagens. Além disso, a fusão de gêneros e símbolos — mitologia, obrenatural, musical — funciona como força motriz, mas corre o risco de dispersar quemprefere narrativas mais clássicas de terror sem camadas simbólicas ou envolvimentos culturais mais densos.

Por fim, a obra é um espetáculo visual, uma experiência digna de IMAX, dando ainda mais profundidade estética e sonora para o produto. Aborda diversos temas relevantes como a resistência, o legado e o racismo, além de conjugar emoção, crítica e entretenimento num gênero que, tradicionalmente, favorece sustos antes de reflexão. Pecadores é, para além dos seus feitos técnicos, um manifesto de resistência da cultura negra e das demais culturas, que, de alguma forma, lutam pela sua existência.

Superman (2025)


 Filme resgata herói sem abrir mão do contemporâneo

 

Nicollas Aquino


“Há três séculos atrás, os primeiros seres superpoderosos conhecidos como metahumanos apareceram na Terra, inaugurando uma nova era de deuses e monstros. Três décadas atrás, um bebê extraterrestre é enviado em uma nave espacial e adotado por um casal de fazendeiros do Kansas. Três anos atrás, o bebê agora crescido se anuncia ao mundo como Superman, o metahumano mais poderoso de todos. [...] E há três minutos atrás, Superman perdeu uma batalha pela primeira vez”.

É através desse letreiro que o diretor James Gunn lança sua mais nova produção, Superman, e dá o pontapé inicial para uma nova fase da DC Comics.

Filme estrelado por David Corenswet busca resgatar a essência clássica dos quadrinhos do Azulão através de cenários coloridos, valores morais bem estabelecidos, e um toque de cafonice que apenas um herói de cueca é capaz de proporcionar. Seu enredo é relativamente simples: Superman, movido pelo seu senso de humanidade e empatia, interfere em um conflito armado entre duas nações, o que gera uma divisão na opinião pública e o coloca na mira de um bilionário ganancioso cujo único objetivo é acabar com o herói, consequentemente levando-o a uma jornada de autoconhecimento onde busca conciliar suas origens kryptonianas com sua criação humana. Apesar da simplicidade, Gunn constrói a narrativa e o universo da obra de uma maneira natural e consistente, fazendo uso dos demais personagens — como o de Lois Lane (Rachel Brosnahan), Jimmy Olsen (Skyler Gisondo), Lex Luthor (Nicholas Hoult), entre outros — para aprofundar os impasses morais de seu drama

Particularmente, acredito que um dos pontos fortes da produção é a construção de seus personagens, principalmente a divisão entre as personas de Clark Kent e Superman. Gosto da forma como a interpretação de David trouxe à tona as nuances entre as identidades do protagonista — o jornalista desengonçado e o herói destemido —, formando uma linha tênue entre homem e deus que no fim das contas se borra para revelar um indivíduo sensível e, apesar de poderoso, também é falho e está suscetível a erros. Da mesma forma, Nicholas Hoult eleva o papel de Lex Luthor a um outro patamar, interpretando um homem multifacetado — um bilionário charmoso e afável aos olhos do público, porém egoísta e impiedoso em particular, com traços levemente narcisistas e extremamente manipulativo. Sem dúvidas uma das melhores representações do personagem em tela até então. 

A relação entre esses dois personagens marca a produção, cujo drama central é inteiramente motivado pela inveja quase que patológica de Lex com relação ao Superman — novamente, evidenciando os ego do personagem.

Outro ponto interessante e que vale ser mencionado é o leve subtom político da obra, e também a forma como os meios midiáticos são utilizados para manipular a opinião pública, refletindo o estado moderno da nossa sociedade e seus conflitos de forma implícita — ou explícita, depende do ponto de vista. Como jornalista em formação, achei esse detalhe essencial para consolidação da trama. 

Vale ressalva, também, para Rachel Brosnahan que interpreta uma Lois Lane extremamente centrada e valente, honrando de fato o viés determinado da personagem, que vai muito além do arquétipo da donzela em perigo. O romance entre Lois e Clark Kent é desenvolvido de forma natural, porém em segundo plano — por não ser, necessariamente, o foco do filme —, o que pessoalmente prefiro, já que dá ao diretor maior liberdade para trabalhar cada papel individualmente, livrando a atriz do papel de ser apenas o “par romântico” do mocinho — o que ainda vemos acontecer com certa frequência com personagens femininas em filmes de heróis.

Com trilha sonora animada e humor único, cheio de personalidade, a adaptação é um manjar para os amantes dos quadrinhos clássicos do Superman, porém podem trazer um ar infantil ou até mesmo bobo para o público geral, principalmente levando em consideração as produções mais sérias e sombrias que a DC Studio tinha entregue até então. No entanto, como fã, posso dizer que fiquei muito satisfeito em ver a essência do herói sendo resgatada e que vejo grande potencial para futuras continuações ou, até mesmo, demais adaptações — talvez mais aparições da “Gangue da Justiça” nas outras obras do estúdio? Ou, quem sabe, a estreia da tão prometida série com os membros do Planeta Diário?

De modo geral, é um filme leve e divertido, que pode ser visto em família mas que também traz críticas mais maduras, destacando humanidade e empatia como verdadeiros atos de rebeldia nos dias atuais — o verdadeiro significado de ser punkrock.

 

Superman (Idem – EUA, 2025)

Direção: James Gunn;

Roteiro: James Gunn;

Elenco: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Hoult, Edi Gathegi, Nathan Fillion, Isabela Merced, Anthony Carrigan, Pruitt Taylor Vince, Neva Howell, Wendell Pierce, Skyler Gisondo, Beck Bennett, Mikaela Hoover, Christopher McDonald, Sara Sampaio, Terence Rosemore, Frank Grillo, María Gabriela de Faría, Milly Alcock, Sean Gunn, Grace Chan, Alan Tudyk, Michael Rooker, Pom Klementieff, Jennifer Holland, Bradley Cooper, Angela Sarafyan, Stephen Blackehart, Michael Rosenbaum, Will Reeve;

Duração: 129 min.

dorama ocidental

 

Afinal, os clichês de triângulos amorosos ainda fazem sucesso?


Maria Eduarda Meira de Araujo


A resposta é simples: sim, e talvez sempre façam. Há algo atemporal em ver um coração dividido entre dois amores, especialmente quando esse dilema se desenrola à beira-mar, embalado por cores ensolaradas e músicas que falam diretamente à alma adolescente. A terceira temporada de “O Verão que Mudou Minha Vida", da Prime Video, sabe disso e não tem vergonha alguma de abraçar o óbvio. Pelo contrário, se diverte com ele.

Os últimos capítulos da jornada de Belly (Lola Tung) chegam como uma tempestade de verão: previsível e de deixar marcas. Todos que assistiram as duas primeiras temporadas já imaginavam o desfecho da história, mas isso não tornou menos emocionante acompanhar cada momento desse verão. A série se transformou em um fenômeno cultural, saindo da tela para ocupar transmissões em bares dignas de Copa do Mundo, timelines efervescidas e até torcidas organizadas, que brincaram com a disputa entre Team Conrad (Chris Briney) e Team Jeremiah (Gavin Casalegno). Assistir em conjunto, comentando cada reviravolta nas redes ou em conversas de bar, foi quase tão importante quanto a trama em si, talvez até mais.

Tecnicamente, a produção entrega o que se espera: fotografia luminosa, estética polida, trilha sonora certeira, recheada de Taylor Swift e outros sucessos pop, um dos grandes trunfos da série que conduz as emoções dos personagens de maneira perfeita. Mas também tropeça em alguns diálogos cansativos e atuações que, às vezes, exageram no drama, lembrando ao público que estamos diante de um romance juvenil que nunca quis ser mais do que isso.

E é justamente aí que reside sua força: Jenny Han, criadora da obra, entende o clichê e o abraça como quem sabe que um beijo na chuva sempre funcionará. Não há pretensão de profundidade, apenas a promessa de entregar risos, suspiros e aquele aperto no peito que faz parte do pacote da nostalgia romântica.

Mas nem tudo foi como uma brisa fresca. Para muitos fãs, a grande decepção foi a escassez de cenas entre Belly e Conrad, casal que deveria sustentar o coração da narrativa. O relacionamento central foi deixado em segundo plano, resultando em um final apressado, como se onze episódios tivessem sido comprimidos em uma única hora. Ainda que esse caminho siga fielmente os livros que inspiraram a série, na tela a sensação é de que a história não respirou o suficiente para que a despedida tivesse o impacto esperado.

E quando falamos de romance adolescente, triângulos amorosos e drama, não dá para ignorar um fenômeno que conversa diretamente com essa estética: os doramas. Muito do fascínio que “O Verão que Mudou Minha Vida” provoca também é encontrado em produções sul-coreanas que exploram emoções intensas, amores impossíveis e conflitos juvenis embalados por fotografia delicada e trilhas marcantes.

E, claro, a lógica do triângulo amoroso está longe de ser exclusividade de Belly, Conrad e Jeremiah. A cultura pop coleciona histórias que sobreviveram justamente por essa fórmula, como os clássicos de clichê teen: “Crepúsculo” e “The Vampire Diaries".

No fim, “O Verão que Mudou Minha Vida” não reinventou o gênero e nem precisava. A série soube rir de si mesma, provocar lágrimas fáceis e manter vivo o velho feitiço dostriângulos amorosos. Foi previsível, sim, mas também foi cúmplice das nossas emoções, como aquelas músicas que sempre voltamos a ouvir, mesmo sabendo de cor a letra.

Porque, no fim das contas, o sucesso não está em surpreender, mas em nos fazer sentir tudo outra vez.

O Céu de Suely

Vanessa Medeiros

Em O Céu de Suely (2006), Karim Aïnouz retrata a jornada silenciosa de Hermila, uma jovem que retorna
ao sertão nordestino depois de uma vida breve e frustrada no Sudeste. O filme, embora minimalista na
ação, é profundo no que revela sobre o corpo e o desejo feminino em um contexto de imobilidade
social e afetiva.

A câmera de Aïnouz é cúmplice de Hermila: observa sem julgar, acompanha seus gestos, sua espera e o peso da repetição dos dias. A paisagem árida de Iguatu funciona como extensão da própria personagem — um espaço de confinamento e de desejo. Quando Hermila cria o alter ego “Suely” e decide rifar “uma noite no paraíso”, o gesto não é apenas uma provocação ou fuga econômica, mas uma ação simbólica de autonomia. É como se, diante de um mundo que a reduz, ela decidisse se reinventar, atribuindo novo sentido ao próprio corpo e à própria história.

A travessia de Hermila/Suely é também a travessia de muitas mulheres brasileiras que tentam afirmar-se num espaço de opressão e ausência de futuro. O Céu de Suely fala sobre a coragem de desejar, sobre o preço da liberdade e sobre a delicada força que nasce da solidão. O filme é belo em sua secura, e mesmo quando parece vazio, é nesse silêncio que pulsa a resistência de uma personagem que se recusa a aceitar o destino que lhe impuseram.

Os Donos do Jogo

 João Victor Medeiros Cândido


"Os Donos do Jogo”, série de ficção criada por Heitor Dhalia, mergulha nos bastidores das quatro famílias que controlam o Jogo do Bicho no Rio de Janeiro — Moraes, Guerra, Fernandez e Saad — revelando um universo marcado por disputas de poder, pactos instáveis e rivalidades geracionais. A narrativa acompanha a ascensão do Profeta, um homem vindo do interior que chega à capital com a ambição de assumir o comando dos bicheiros, enfrentando heranças criminais, alianças frágeis e a brutalidade do submundo carioca. Personagens como Mirna Guerra, Búfalo e Suzana reforçam a densidade dramática da obra, cada um representando diferentes estratégias e tensões dentro desse tabuleiro de poder.

Criticamente, a série se destaca por retratar o Jogo do Bicho como uma instituição quase tradicional no Rio, mostrando como ele evoluiu para uma máfia estruturadaque combina crimes locais, conexões internacionais e influência política. A iminente legalização dos jogos de azar e o interesse de um grupo criminoso estrangeiro funcionam como motores narrativos que ampliam o conflito e atualizam o debate sobre o crime organizado no Brasil. A produção acerta ao construir personagens complexos, que oscilam entre códigos de honra, ambição e violência, evitando caricaturas superficiais.

Visualmente, a obra aposta em fotografia sombria, ritmo intenso e atuações sólidas, mas às vezes exagera no melodrama e na estilização da violência. Ainda assim, “Os Donos do Jogo” oferece uma visão crítica sobre como tradições ilegais podem se transformar em impérios familiares e como o poder, quando disputado entre parentes, se torna ainda mais imprevisível e destrutivo. É uma série que mistura política, crime e legado de forma envolvente, deixando o espectador reflexivo sobre as fronteiras tênues entre ordem, corrupção e herança familiar.

o rei das manhãs


Mateus Rerick Oliveira 


O filme "Bingo o rei das manhãs", dirigido por Daniel Rezende, conta a história de Arlindo Barreto (no filme Augusto Mendes) como o famoso palhaço Bozo (Bingo) e como ele estraga sua vida familiar, profissional e amorosa por sempre se superestimar demais.

De cara algo a se elogiar é a direção do Daniel Rezende, sempre muito inventiva, dinâmica e que aproveita o máximo possível os atores, principalmente os protagonistas Lúcia e Augusto (Leandra Leal e Vladimir Britcha). A fotografia do filme é excelente mas peca em alguns quesitos específicos como a luminosidade, em muitos momentos a filme é escuro demais, não chega a estragar a experiência mas é de se estranhar.

O longa apresenta uma trama firme e consistente e que cumpre o que promete. A problemática central é o melhor ponto, onde Augusto se frustra, o personagem (Bingo) tem seu reconhecimento, não ele mesmo. Ainda na trama o desenvolvimento dele com seu filho é muito interessante. Por negligência, Gabriel (o filho) se sente abandonado pelo pai, já que ele dá atenção a todas as crianças do Brasil, menos pra ele mesmo. Os únicos momentos onde o filho o vê são nas manhãs, na televisão.

Frankenstein 2

 

Maria Clara Jácome

Na nova versão de “Frankenstein”, dirigida por Guillermo Del Toro, acompanhamos a história, já tão conhecida, do ambicioso cientista Victor Frankenstein, vivido por Oscar Isaac, em sua jornada para criar vida a partir da matéria de cadáveres, mas que logo abandona sua criação, deixando-a à mercê de um mundo que não foi feito para ela, e condenando-a a vagar sem pertencimento e a ser rejeitada por todos que a cercam. Em sua versão de Frankenstein, Del Toro acrescenta marcas autorais à história, que, embora se afastem da versão original escrita por Mary Shelley, evidenciam a beleza presente na liberdade de reinventar e reinterpretar o que já conhecemos. Toda a estética do diretor parte do princípio de ver humanidade e pureza no monstruoso; ele trabalha com a linha tênue entre o horrendo e o delicado, e a sua capacidade de enxergar beleza no grotesco torna a obra muito sensível.


Entretanto, ao tentar envolver a Criatura - interpretada brilhantemente pelo Jacob Elordi - numa compaixão e doçura quase que absolutas, ele suaviza muito a discussão de ambiguidade moral que cerca a narrativa original e que basicamente não existe aqui. O filme apresenta uma perspectiva romantizada e que acaba não explorando muito bem o que deveria ser o dilema central da obra: as consequências éticas e emocionais da busca humana ao ultrapassar os limites da natureza e sobre como a criatura se tornou um espelho de toda a maldade que lhe atingiu. Del Toro demonstra ter tanto receio de que o público não simpatize com o “monstro”, que acaba não atribuindo sequer nenhum instinto violento a ele, o que pode ter decepcionado os fãs da obra original que buscavam uma adaptação fiel.

Como já esperado do diretor, Frankenstein é visualmente deslumbrante, com cenários e uma paleta de cores que refletem bem o tom sombrio, gótico e melancólico da narrativa. O design da criatura e o trabalho detalhado de maquiagem e figurino se destacam, deixando a experiência visual ainda mais impactante e emocionante. Destaque, também, para a performance do Jacob Elordi, que conseguiu transmitir a complexidade do seu personagem com sutileza e sensibilidade, sem depender de diálogos longos, expressando sua dor, fúria e inocência, na maior parte do tempo, através, apenas, da linguagem corporal, com olhares, movimentos e expressões que comunicam com clareza os sentimentos da Criatura.

No geral, o Frankenstein de Del Toro não é uma adaptação que busca fidelidade literal, mas dialoga carinhosamente com a versão da Mary Shelley, e convida o público a olhar a história sob uma nova perspectiva, tornando o mito do prometeu moderno mais humano do que nunca.

Tick, Tick… BOOM 2


Cecília Batalha


 Tick, Tick… BOOM! não é apenas um filme musical — é um lembrete pulsante de que a arte nasce, quase sempre, daquilo que ameaça nos consumir. Lin-Manuel Miranda, em sua estreia como diretor, transforma a angústia criativa de Jonathan Larson em um espetáculo que vibra entre o palco e a vida real, como se ambos estivessem constantemente tentando afinar o mesmo piano emocional. 

Andrew Garfield, em uma performance elétrica, vive Larson como um fio desencapado: sempre faiscando ideias, sonhos e inseguranças. Ele corre por Nova York como quem tenta ganhar alguns segundos contra o relógio — esse mesmo relógio que dá título à história e que soa, incessantemente, como lembrete de que os 30 anos estão chegando… e o grande musical ainda não. 

O filme usa a estrutura do “musical dentro do musical” como um mapa emocional: cenas cotidianas irrompem em canções afiadas, confessionais e, às vezes, deliciosamente caóticas. A cidade, os amigos, o amor e a tragédia da epidemia de HIV compõem o pano de fundo, mas é a urgência — quase desespero — de criar algo que realmente importe que conduz cada passo, cada nota e cada lágrima. 

O resultado é um retrato íntimo de um artista à beira do estouro, traduzido em ritmo, humor e um bocado de coração. Tick, Tick… BOOM! nos lembra que criar pode ser doloroso, solitário e exaustivo — mas também pode ser, paradoxalmente, o que nos mantém vivos. No fim, saímos com a sensação de que o filme é uma carta de amor aos teimosos que seguem tentando, mesmo quando o mundo parece medir tudo em prazos, boletos e expectativas. E talvez a maior explosão aqui não seja o “BOOM”, mas o momento silencioso em que percebemos: a vida não espera — então por que nós esperaríamos? 

Bacurau

Anita Maria Filgueira Lopes

Representando um dos “Brasis” que se entreolham, Bacurau carrega gêneros como os filmes de faroeste, de ficção científica e, em certa medida, docangaço. Um cinema que, à primeira vista, pode soar “tarantinesco” pelo sanguederramado, mas que pretende ir além disso. Lançado no Governo Bolsonaro , o filmeconsegue transpassar as influências hollywoodianas à medida em que se reafirmauma obra provocativa em um Brasil quase distópico: seja pelos livros queimados pelo prefeito da cidade, na ficção, seja pela tentativa de minar a cultura de um país  na realidade.

Bacurau traz à discussão o cinema-manifesto de Glauber Rocha ao resgatar os ideais do seu texto “A estética da fome”, que negava um cinema que tentava tornar as violências retratadas mais palatáveis. É um filme que nasce em um Brasil enfraquecido democrática e culturalmente, tornando-o mais forte característico de um tempo político marcado por vieses anticientíficos, anticulturais antipovos. Torna-se um filme delator de seu tempo e também propulsor de um cinema que comunica, seja se afirmando enquanto uma obra que subverte ou enquanto uma obra que reproduz teses ultrapassadas.

 Quer dizer, ao satisfazer o olhar gringo com um filme sanguinário que mostra os trópicos dotados de selvageria, o que maximiza a visão colonizadora imperialista do estrangeiro, Bacurau também pode encarnar o exato oposto de uma ideia de cinema que não pretende banalizar a violência. Pois, nesse caso, o filme é uma obra que se dispõe a mostrar o “inimigo” morto; que se dispõe a querer chocar o público com a cena das cabeças cortadas por Lunga, o “herói” da cidade.

Bacurau nos mostra um interior nordestino ultratecnológico cuja população descobre que misteriosamente sumiu do mapa; nos mostra que os habitantes parecem estar interconectados ideologicamente, de professores às prostitutas; nos mostra uma preocupação com a falta de água, com a precariedade da educação, da saúde, com forças paramilitares; nos mostra no momento em que a cidade precisava ser “salva” dos invasores gringos que a “Lei” ali, por unanimidade, era uma pessoa: Lunga. Uma espécie de “neo-cangaceiro” andrógino que performa um protetor insurgente de um povo que testemunha um momento histórico; nos mostra também com crueza e sarcasmo que os brasileiros brancos não são brancos o suficiente para os norte-americanos e europeus. Isto é, são resumidamente latinos e altamente descartáveis, assim como todo o restante, pelos ultraconservadores da trama.

Ainda assim, Bacurau pode ser interpretado como uma obra que reforça a ideia de um sertão primitivo, de violência animalesca, pois a matança e as cenas de sexo se transfundem, podendo contribuir para que o imaginário coletivo acerca do Nordeste seja mais uma vez alimentado por um produto cultural quebreinventa e sofistica os mitos fundadores dessa região como a miséria, violência, a seca. Diante do contexto político em que foi lançado filme, de profunda permissividade da violência estatal e consequentemente social por parte da ultradireita, Bacurau também pode ser lido como uma obra que diz que o extermínio das forças inimigas pode ser uma solução; que a vingança é uma reparação histórica democrática. Em se tratando de um filme, é claro que esse jorrar de sangue apesar de literal em cena pode ser metafórico em sentido. Ou não.

Sendo assim, Bacurau é um exemplo de filme que será aclamado por uns grupos e odiado, deturpado por outros. É um filme que buscou se instituir enquanto uma resposta para tudo que estava acontecendo nos últimos anos, política e socialmente, legitimando o forte desejo social por vingança, por justiça com as próprias mãos, reafirmando o sentimento de revolta de uma parcela da população que queria ver o “inimigo” sendo derrotado. No entanto, o que fica para nós, espectadores, é a certeza de que uma produção artística assume o papel de aclarar as nossas miopias. Seja para interpretarmos o próprio produto, a sociedade ao nosso redor ou a nossa posição diante de tudo isso.