terça-feira, 7 de julho de 2026

Cidade de Deus (2002)

Maria Letícia Souza Anjos

Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund, adapta o romance de Paulo Lins para contar a ascensão do crime na favela entre os anos 1960 e 1980. A história é conduzida por Buscapé, um narrador-testemunha cuja perspectiva revela a realidade da comunidade com intensidade e profundidade.

Buscapé narra o início da criminalidade no bairro, marcado pelo Trio Ternura e pela primeira aparição de Dadinho, que já demonstra crueldade ao participar de um assalto que terminou em massacre. Agora adulto, Dadinho se torna Zé Pequeno, dominando o tráfico com extrema violência. Bené, seu parceiro carismático, é seu único freio moral — até sua morte, que desencadeia um caos ainda maior. Motivado por vingança após tragédias pessoais, Mané Galinha enfrenta Zé Pequeno e inicia a Guerra da Cidade de Deus, envolvendo até crianças armadas e mostrando a escalada da violência geracional.

A guerra chega ao fim com a morte de Mané Galinha e, logo depois, a de Zé Pequeno, assassinado por crianças do “Caixa Baixa”. O encerramento evidencia o ciclo interminável da violência: quando um líder cai, outro ainda mais jovem ocupa seu lugar. Enquanto isso, Buscapé encontra sua fuga possível através do fotojornalismo, seguindo um caminho oposto ao destino trágico da maioria dos jovens da Cidade de Deus.

O filme mostra a favela como um espaço complexo, marcado por sociabilidade, laços comunitários, humor e resistência. A cultura das ruas aparece como parte da identidade brasileira, mas frequentemente marginalizada pela sociedade e pela mídia. A narrativa revela que a favela é mais do que violência: é também território de vida, convivência e criatividade. Em Cidade de Deus, o crime não é glamourizado. Ele surge como resultado da exclusão social, da ausência de oportunidades e das migrações internas que formam periferias sem suporte estrutural. A violência se torna um sistema que se reproduz pela falta de políticas
públicas eficientes e pela inexistência de caminhos reais para a mobilidade social.

Portanto,o longa é um retrato complexo que mostra o ciclo vicioso da violência brasileira e a impossibilidade da paz sem a inclusão social e a presença efetiva do Estado. O fotojornalismo serve como a linha divisória entre o destino trágico e a possibilidade de salvação individual, transformando a vida da favela em documento e, essencialmente, em memória.