terça-feira, 30 de junho de 2026

QUERÔ (2007)

MARIA EDUARDA LIMA CAMARA

Lançado em 2007 e dirigido por Carlos Cortez, Querô é um drama baseado na obra de Plínio Marcos. O filme aborda temas como abandono, violência, exclusão e a falta de oportunidades na sociedade brasileira ao retratar a história de um jovem que já nasce em ambiente problemático.

A história acompanha Jerônimo, apelidado por Querô, um adolescente órfão que, após sofrer maus-tratos em um abrigo, passa a viver nas ruas. Ao longo de sua trajetória, ele enfrenta violência policial, exploração, preconceito e dificuldades para construir uma vida diferente daquela que o destino parece lhe impor. Mesmo tentando encontrar um caminho melhor, as circunstâncias fazem com que sua realidade seja marcada por muitos obstáculos.

Um dos maiores pontos positivos do filme é seu realismo. As atuações, especialmente a do protagonista, é um destaque, pois transmite emoção e torna a narrativa assustadoramente próxima da realidade. Além disso, a obra apresenta uma crítica social importante ao evidenciar como a desigualdade e a ausência de políticas públicas afetam a vida de milhares de jovens brasileiros, levando o espectador a refletir sobre problemas que ainda permanecem atuais.

Por outro lado, Querô está longe de retratar uma jornada do herói tradicional. O filme apresenta cenas de violência bastante fortes e uma sucessão de acontecimentos trágicos, o que pode causar desconforto e uma intensa sensação de desesperança em parte do público. No entanto, essa parece ser justamente a proposta da obra, já que não há um final feliz nem uma superação convencional.

Em conclusão, esse é um filme emocionante e impactante, que vai além de contar a história de um único personagem. A obra nos faz refletir sobre a realidade de pessoas que já nascem com oportunidades limitadas e que precisam enfrentar barreiras sociais desde o momento em que nascem. Ao evidenciar como o abandono e a desigualdade influenciam o destino de tantos jovens, o filme desperta empatia e reforça a importância de possibilitar condições mais justas para que todos tenham a chance de construir um futuro diferente.

sábado, 27 de junho de 2026

MINHA VIDA DE ABOBRINHA (2016)

 

LETÍCIA CAROLINA MÁXIMO MOTTA

 

  Minha Vida de Abobrinha é um filme de animação em stop motion lançado em 2016 e dirigido por Claude Barras. Apesar de ser uma animação, a obra aborda temas profundos e sensíveis, como abandono, violência doméstica, luto, adoção e a importância dos laços afetivos. O filme mostra que, mesmo diante de situações difíceis, é possível encontrar esperança, carinho e um novo começo.

  A história acompanha Icare, um menino conhecido pelo apelido de Abobrinha. Após um acidente que causa a morte de sua mãe, ele é levado para um orfanato, onde acredita que nunca mais será feliz. No início, Abobrinha sente medo, tristeza e dificuldade para se relacionar com as outras crianças. No entanto, aos poucos, ele percebe que todos os colegas também carregam histórias de sofrimento e abandono. Essa convivência faz com que eles criem uma amizade sincera, baseada na compreensão, no respeito e no apoio mútuo.

  Um dos pontos mais marcantes do filme é a forma delicada com que trata assuntos tão complexos. Em vez de focar apenas na tristeza, a narrativa mostra a capacidade das crianças de superar as dificuldades por meio da amizade, do carinho e da confiança. A chegada de Camille, uma menina que também enfrenta problemas familiares, fortalece ainda mais essa mensagem e desperta em Abobrinha sentimentos de afeto, esperança e coragem para acreditar em um futuro melhor.

  A animação em stop motion é outro grande destaque da obra. Os personagens possuem um visual simples, mas muito expressivo, permitindo que o público perceba suas emoções com facilidade. Os cenários, a iluminação e a trilha sonora contribuem para criar uma atmosfera sensível e acolhedora, tornando a experiência ainda mais emocionante. Mesmo sendo um filme curto, com cerca de uma hora de duração, ele consegue transmitir mensagens profundas e provocar reflexões importantes.

  Além do aspecto artístico, Minha Vida de Abobrinha também faz uma crítica à realidade enfrentada por muitas crianças que sofrem com o abandono, a violência e a falta de estrutura familiar. Ao mesmo tempo, mostra a importância da solidariedade, do cuidado e da adoção como formas de oferecer uma nova oportunidade para quem passou por momentos difíceis.

  Em conclusão, Minha Vida de Abobrinha é uma animação emocionante, sensível e inspiradora. O filme ensina que o amor, a amizade e a empatia podem transformar vidas, mesmo depois de experiências dolorosas. É uma obra que emociona espectadores de todas as idades e deixa uma importante mensagem sobre esperança, superação e a importância de acreditar em novos recomeços...

terça-feira, 23 de junho de 2026

Druk

 

DANIELY GABRIELLA SANTOS MACIEL

Uma das maiores tragédias da vida adulta é descobrir que nem sempre o cansaço vem da falta de descanso, mas da falta de sentido. Existe um momento da vida em que as perguntas mudam. Já não queremos saber apenas para onde estamos indo, mas se ainda existe entusiasmo no caminho. É nesse espaço entre a estabilidade e a estagnação que Druk – Mais Uma Rodada constrói sua narrativa. Longe de ser apenas um filme sobre álcool, a obra de Thomas Vinterberg é uma reflexão sensível sobre envelhecimento, crise de identidade e a busca por significado.

A trama acompanha quatro professores que decidem testar uma teoria atribuída ao psiquiatra norueguês Finn Skarderud, a de que os seres humanos nascem com um déficit natural de álcool no sangue. A proposta é manter uma pequena taxa alcoólica constante para aumentar criatividade, autoconfiança e desempenho. Inicialmente, os resultados parecem funcionar. Martin, interpretado com sensibilidade por Mads Mikkelsen, recupera o entusiasmo em sala de aula e reencontra uma versão de si mesmo que parecia perdida na rotina.

No entanto, reduzir o filme aos efeitos da bebida seria ignorar sua camada mais interessante. O álcool funciona como um catalisador que revela desejos, frustrações e inquietações já presentes nos personagens. A questão central nunca é o quanto eles bebem, mas o porquê sentem tanta necessidade de beber. O experimento expõe uma insatisfação silenciosa que passa na vida adulta contemporânea que é a sensação de estar apenas cumprindo tarefas e sobrevivendo aos dias, em vez de realmente vivê-los.

É a partir desse ponto que surge a principal crítica social do filme. Druk questiona uma sociedade que valoriza produtividade, estabilidade e controle, mas pouco discute o vazio emocional que pode existir por trás dessas conquistas. Os personagens não estão em crise porque fracassaram, eles estão em crise porque fizeram tudo o que lhes disseram que deveriam fazer e, ainda assim, sentem que algo está faltando. O álcool surge como uma tentativa de preencher essa ausência, mas também como um lembrete de que não existem atalhos permanentes para o sentido da vida.

Sem recorrer ao moralismo, Vinterberg constrói uma narrativa humana e honesta. O filme não condena nem glorifica a bebida, na verdade utiliza a embriaguez como metáfora para explorar vulnerabilidades que fazem parte da experiência humana. Ao final, Druk não oferece respostas definitivas sobre felicidade ou realização pessoal. Em vez disso, expõe as contradições de uma geração que aprendeu a funcionar, mas nem sempre a sentir. E talvez seja por isso que a história de Martin e seus amigos seja tão fácil de reconhecer. Afinal, como sugere a frase que abre esta reflexão, nem todo cansaço vem da falta de descanso; às vezes, ele nasce da distância entre quem somos e quem gostaríamos de ser.

Michael (2026)


 ELIRABETH BATALHA

A grandiosidade de Michael Jackson conseguiu ser muito bem interpretada. Essa é a principal impressão deixada por "Michael", cinebiografia que retrata a trajetória de um dos maiores artistas da história da música. O filme acompanha a ascensão de Michael Jackson desde sua infância até sua consolidação como fenômeno mundial, explorando os desafios que marcaram sua formação pessoal e artística.

Mesmo conhecendo parte da história do cantor antes de assistir ao longa, fui surpreendido pela profundidade com que a narrativa apresenta alguns momentos de sua vida. O filme superou minhas expectativas ao mostrar que a construção de um artista vai muito além dos palcos e do sucesso comercial. Entre os diversos acontecimentos retratados, a infância de Michael assume papel fundamental para compreender sua personalidade e sua forma de se relacionar com o mundo. A pressão exercida pelo pai e a rotina intensa de trabalho desde muito jovem ajudam a explicar diversos aspectos de sua trajetória posterior.

O roteiro concentra sua atenção principalmente no artista e em sua ascensão ao estrelato. Em vez de aprofundar as polêmicas que marcaram sua vida pública, a narrativa prefere destacar sua dedicação à música, ao espetáculo e à busca constante pela perfeição. Essa escolha torna o filme equilibrado em sua proposta, embora deixe algumas questões controversas em segundo plano, possivelmente reservando maior aprofundamento para futuras produções.

Um dos grandes destaques do longa é a atuação de Jafaar Jackson. Por ser sobrinho de Michael, a semelhança física já impressiona, mas o que realmente chama atenção é sua capacidade de reproduzir os gestos, a presença de palco e até mesmo aspectos vocais do artista. Em diversos momentos, especialmente durante as apresentações musicais, a interpretação transmite uma sensação de autenticidade que aproxima o espectador da figura retratada. A atuação do intérprete de Joe Jackson, pai de Michael, também merece destaque por representar com intensidade a relação difícil e exigente entre pai e filho.

Os aspectos técnicos do filme contribuem significativamente para a experiência. A fotografia apresenta um visual grandioso e realista, valorizando tanto os momentos íntimos quanto os grandes espetáculos. As cenas de shows são reproduzidas com impressionante cuidado, recriando performances icônicas que marcaram a cultura popular. A trilha sonora não funciona apenas como elemento nostálgico, mas também como ferramenta narrativa, acompanhando o desenvolvimento emocional e profissional do protagonista.

Entre os temas centrais da obra destacam-se a fama e a infância roubada. O filme evidencia os sacrifícios exigidos pela indústria do entretenimento e mostra como o sucesso extraordinário de Michael foi construído a partir de uma rotina de cobranças e responsabilidades incompatíveis com sua idade. Dessa forma, a narrativa convida o espectador a refletir sobre os custos humanos da fama e sobre como grandes artistas são moldados por experiências muitas vezes dolorosas.

domingo, 21 de junho de 2026

Hamnet_2

Cecília Dantas


Hamnet
é um drama histórico que acompanha Agnes e William Shakespeare diante da perda de seu filho, Hamnet. A obra utiliza uma narrativa sensível e contemplativa para explorar o luto, o amor familiar e a forma como a arte pode transformar a dor em algo coletivo. Embora se passe em um contexto histórico específico, o filme aborda sentimentos profundamente universais, permitindo que o público se conecte com seus personagens de maneira íntima.

No início, o filme pode parecer um pouco confuso. O ritmo é interessante, mas há muitas coisas acontecendo rapidamente dentro de cenas extremamente lentas, o que dá a sensação de que algo foi perdido ou de que a história começou no meio. Entretanto, conforme as crianças passam a ocupar um espaço maior na narrativa, tudo se torna mais envolvente. O filme faz um trabalho impecável ao construir a conexão entre os filhos e seus pais, criando momentos tão profundos que é impossível não se apegar a eles. A relação familiar é retratada com tanta sensibilidade que sentimos aquelas crianças como se também fossem nossas. Quando Hamnet se sacrifica pela irmã, a cena ganha um peso emocional devastador e marca o ponto em que a história realmente atinge seu auge.

O momento mais bonito da obra, porém, está na trajetória de Agnes. Sua reação à peça inspirada na perda do filho é extremamente emocionante: primeiro, a revolta por ver algo tão pessoal exposto ao público; depois, a compreensão da beleza presente naquele ato, ao perceber desconhecidos chorando e lamentando “seu filho” como se ele também pertencesse a eles. Essa transformação mostra como a arte pode preservar memórias e conectar pessoas através da dor. Hamnet é um filme profundamente humano, delicado e emocionante, capaz de arrancar lágrimas e permanecer na memória muito depois dos créditos finais. E isso por si só já demonstra o quão bela e poderosa essa obra é.

sábado, 20 de junho de 2026

Fallen Angels (1995)


 Jhonnatha Felipe

Escrito e dirigido pelo chinês Wong Kar-Wai, Fallen Angels foi pensado como um terceiro núcleo no filme Chungking Express. Porém, foi apenas nesse filme que o cineasta pode contar essa história. Passado inteiramente a noite, a obra trás uma estética cheia de personalidade, sempre com cenas escuras, em ambientes estranhos e um ritmo digno de videoclipe dos anos 2000. 

A história tem uma estrutura parecida com a de seu “irmão” Chungking Express, trazendo duas histórias distintas, mas nos últimos minutos conectando-as. 

O Maior trunfo do cineasta está em como ele cria cenas tão impactantes de forma tão simples. Em vários momentos estamos vendo apenas um ou dois personagens conversando ou fazendo algo extremamente simples, mas tudo é filmado e montado de forma que parece a coisa mais interessante e estilosa do mundo. Chega a parecer um videoclipe de uma hora e meia. 

Outro ponto super positivo aqui é como ele dosa bem a comédia do drama. No primeiro núcleo apresentado, vemos a história de um criminoso e sua parceira, onde ele faz o trabalho sujo de matar pessoas e ela faz o trabalho de limpar a sujeira da casa dele. Eles quase nunca se veem, mas ela desenvolve uma grande paixão por ele. 

Já no outro núcleo, acompanhamos um homem que não consegue falar e é super peculiar. Uma das ideias dele é de que precisa trabalhar, mas faz isso invadindo estabelecimentos na madrugada e forçando quem encontra a pagar por seu serviço. E tudo isso é feito com um timing de comédia absurdo, onde eu gargalhava sempre que ele estava em cena. 

No fim, Fallen Angels é uma obra que consegue entregar tudo que propõe, e assim se torna um clássico para o cinema de Hong Kong e para o cinema melancólico mundial, até hoje servindo como referência e conquistando as novas gerações.  

Dias Perfeitos (2023)

Gilvictor Silva do Nascimento

Dias Perfeitos (Perfect days, 2023), dirigido por Wim Wenders, é uma obra que transforma a simplicidade cotidiana em uma profunda reflexão sobre existência, tempo, felicidade e solidão. Longe das narrativas tradicionais baseadas em grandes conflitos ou reviravoltas dramáticas, o filme aposta na contemplação e na observação dos pequenos gestos que compõem a vida de seu protagonista, Hirayama. E entrega que mesmo os grandes silêncios, perduram grandes significados.

O aspecto mais marcante do filme é a maneira como ele encontra beleza na rotina. Hirayama trabalha limpando banheiros públicos em Tóquio, uma profissão frequentemente invisibilizada e socialmente desvalorizada. Mesmo tendo a rotina que muitos não acham ideal para se alcançar a ideia de felicidade, Hirayama desconstrói toda essa visão ao mostrar que é possível apreciar as mais pequenas das belezas cotidianas tendo uma vida extremamente dinâmica. A câmera de Wenders acompanha seu dia a dia com respeito e sensibilidade, humanidade, revelando dignidade, significado em tarefas consideradas banais.

A repetição dos mesmos hábitos, acordar cedo, cuidar das plantas, ouvir músicas em fitas cassete, ler livros antes de dormir, não é apresentada como uma prisão, mas como uma escolha consciente. Como um lugar de se apreciar sua paz, calmaria e o desfrutar o real significado de se manter vivo e não sobrevivendo. O filme questiona a ideia contemporânea de que a felicidade depende de constantes mudanças, produtividade extrema ou sucesso financeiro. Mas Hirayama rompe essa narrativa ao mostrar que até os dias mais cansativos, mais tenebrosos, mas significativos, carregam a beleza e o poder de estar conscientemente em paz ao viver sua vida sem as amarras banais dos pensamentos negativos.

Outro elemento fundamental é a economia de diálogos. Hirayama fala pouco, mas sua interioridade é revelada por meio de expressões, olhares e gestos. O silêncio representa em grande parte do filme como um resposta, curta, simples e direta.  Ele não representa vazio; pelo contrário, funciona como espaço de reflexão.

Nesse sentido, a atuação de Koji Yakusho é extraordinária. O personagem dele se conecta com o mais frágil até o mais forte dos seres humanos, ao abdicar de um futuro considerado próspero para enfim alcançar sua liberdade espiritual. Sem grandes discursos, ele constrói um personagem complexo, capaz de transmitir serenidade, melancolia, satisfação e sofrimento apenas através da expressão facial. O espectador é convidado a observar e interpretar, em vez de receber explicações prontas.

O filme também simboliza o conceito japonês de Komorebi: a luz do sol que é filtrada pelas copas das árvores, criando um jogo contínuo de luz e sombra. Esse fenômeno representa a beleza e a poesia encontradas na impermanência do momento presente. Mais do que um fenômeno da natureza, o komorebi revela uma forma de enxergar o mundo. A palavra japonesa descreve a luz do sol atravessando as folhas das árvores, mas seu significado vai além da imagem: ela traduz a sensibilidade de perceber a beleza nos instantes mais simples e passageiros da vida. É um convite à contemplação, à presença e ao reconhecimento de que os pequenos momentos também carregam significado.

Essa ideia dialoga diretamente com o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders. Assim como o komorebi, a obra encontra poesia em gestos cotidianos que costumam passar despercebidos: a luz entrando pela janela, o balanço das árvores ao vento, o café tomado em silêncio ou o trajeto diário para o trabalho. O protagonista não busca grandes acontecimentos para dar sentido à vida; ele encontra plenitude justamente na atenção dedicada aos detalhes. Nesse sentido, o komorebi não é apenas uma imagem presente no filme, mas uma filosofia que atravessa toda a narrativa: a de que a felicidade pode estar escondida nos breves feixes de luz que iluminam a rotina.

Embora pareça um filme simples, Dias Perfeitos apresenta uma crítica sutil à sociedade atual. Em uma época marcada pela aceleração, pelo excesso de estímulos e pela busca incessante por resultados, Hirayama vive em outro ritmo. Ele valoriza o presente, aprecia a natureza e encontra prazer em experiências simples.

O contraste entre Hirayama e outros personagens evidencia diferentes formas de encarar a vida. Enquanto alguns vivem preocupados com dinheiro, relacionamentos ou expectativas sociais, ele parece buscar uma existência baseada na contemplação e no equilíbrio interior.

Entretanto, o filme não idealiza completamente esse estilo de vida. Aos poucos, surgem pistas sobre um passado doloroso e sobre escolhas que envolveram renúncias. A tranquilidade do protagonista também carrega traços de isolamento e solidão.

Um dos grandes méritos da obra é evitar respostas fáceis. Hirayama é feliz? O filme nunca responde claramente.

Por um lado, ele demonstra satisfação com sua rotina e parece ter encontrado paz em sua simplicidade. Por outro, há momentos em que a tristeza emerge discretamente, sugerindo perdas, arrependimentos ou vínculos rompidos.

Essa ambiguidade alcança seu ponto máximo na cena final. O longo enquadramento do rosto de Hirayama revela emoções contraditórias: ele sorri, chora, reflete e continua seguindo em frente. A sequência sintetiza a principal mensagem do filme: a vida não é composta apenas de felicidade ou tristeza, mas da coexistência de ambas.

A fotografia utiliza enquadramentos limpos e uma iluminação naturalista que reforçam a sensação de intimidade. A trilha sonora, composta por clássicos do rock e do pop ocidental das décadas de 1960 e 1970, funciona como extensão da personalidade do protagonista e contribui para a construção de uma atmosfera nostálgica.

O ritmo lento pode afastar espectadores acostumados a narrativas mais dinâmicas. Porém, essa lentidão é uma escolha estética coerente com a proposta do filme: desacelerar o olhar e permitir que o público experimente o tempo da mesma forma que Hirayama.

Dias Perfeitos é um filme profundamente humanista que propõe uma reflexão sobre o significado da felicidade em um mundo acelerado. Ao transformar ações comuns em momentos de contemplação, Wim Wenders demonstra que a beleza pode estar escondida nos detalhes mais simples da vida.

Mais do que contar uma história, o filme convida o espectador a repensar sua relação com o tempo, o trabalho, os afetos e a própria existência. Sua maior força está justamente em mostrar que os “dias perfeitos” não são aqueles livres de sofrimento, mas aqueles em que somos capazes de encontrar sentido mesmo em meio às imperfeições da vida.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Juno (2007)

 
NATHALIA KATHLEEN LIMA RODRIGUES


Juno é um coming of age extremamente interessante que usa a gravidez na adolescência como ponto de partida, mas não faz dela o centro absoluto da narrativa. Na verdade, os personagens são tão interessantes e bem construídos que, em vários momentos, esquecemos completamente que nossa protagonista, Juno (Elliot Page), está grávida.

Desde o início, Juno foge de praticamente todos os estereótipos associados a esse tipo de história. Assim que descobre a gravidez, ela decide o que quer fazer e não passa o restante do filme questionando sua escolha. Pelo contrário: ela segue sua vida normalmente, mantendo sua personalidade e sua rotina quase intactas durante toda a gestação.

É nesse contexto que conhecemos Paulie Bleeker (Michael Cera), pai biológico da criança e interesse amoroso de Juno. Bleeker está longe do arquétipo do galã adolescente que costuma aparecer em filmes românticos. Ele é tímido, confuso e, muitas vezes, difícil de interpretar. O filme nunca tenta nos dizer exatamente o que pensar sobre ele, o que torna o personagem ainda mais interessante.

Também conhecemos Vanessa e Mark Loring, o casal escolhido por Juno para adotar o bebê. Vanessa (Jennifer Garner) sonha em ser mãe e se entrega completamente à ideia de construir uma família. Já Mark (Jason Bateman) é uma figura muito mais ambígua. Conforme a história avança, suas atitudes fazem com que o espectador questione constantemente suas intenções e sua maturidade.

Mesmo abordando temas complexos, Juno é um filme leve, divertido e surpreendentemente acolhedor. Grande parte disso vem da própria protagonista, que encara a gravidez de uma forma muito diferente do que estamos acostumados a ver no cinema. Ela não trata aqueles nove meses como o evento que define sua existência, mas como uma etapa passageira dentro de uma vida que continua acontecendo.

O que mais me encantou foi a forma como o filme trabalha as expectativas do público. Em nenhum momento a narrativa sugere claramente que Juno vai mudar de ideia, mas existe uma construção quase silenciosa que nos faz acreditar nessa possibilidade. Por isso, quando ela segue exatamente o plano que havia traçado desde o começo, o desfecho acaba sendo mais impactante do que parece. Gosto muito dessa escolha porque ela apresenta uma perspectiva sobre maternidade e adoção que raramente recebe espaço em produções do gênero.

No fim, Juno me surpreendeu bastante. Eu esperava uma história focada na gravidez adolescente, mas encontrei um filme sobre crescimento, escolhas e pessoas imperfeitas tentando descobrir quem são. É divertido, sensível e cheio de personagens que permanecem na cabeça mesmo depois que os créditos terminam.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Obsessão


 Laila Maria Venâncio Batista


À primeira vista, Obsessão parece partir de uma premissa simples. Bear (Michael Johnston), um funcionário tímido de uma loja de discos, é apaixonado por Nikki (a futura ganhadora do oscar Inde Navarrette), sua amiga de infância e colega de trabalho. Incapaz de revelar seus sentimentos, ele recorre a uma solução aparentemente inofensiva: um misterioso brinquedo dos anos 1960 “One Wish Willow” capaz de realizar desejos. O pedido é simples, fazer com que Nikki o ame mais do que tudo no mundo. O problema é que o desejo funciona.

A partir daí, o filme abandona rapidamente qualquer possibilidade de romance e mergulha em um terror psicológico desconfortável. Nikki passa a demonstrar uma obsessão extrema por Bear, alternando momentos de carinho exagerado com surtos perturbadores que indicam que algo está profundamente errado. Enquanto os amigos percebem que ela já não é a mesma pessoa, Bear se agarra à fantasia de finalmente viver a relação que sempre desejou.

O aspecto mais interessante do roteiro está justamente na escolha de acompanhar a história pela perspectiva de Bear. Em vez de focar na vítima, Curry Barker coloca o espectador ao lado do responsável pela tragédia. O protagonista não é retratado como um vilão clássico, mas como alguém que, por egoísmo e frustração, ultrapassa um limite moral sem medir as consequências. Isso torna o filme ainda mais inquietante, porque o horror não surge apenas do elemento sobrenatural, mas das decisões humanas que colocam toda a situação em movimento.

Nesse sentido, Obsessão funciona como uma reflexão sobre obsessão afetiva, consentimento e idealização romântica. O que começa como um desejo aparentemente inocente se transforma em uma relação construída à força, onde Nikki perde completamente sua autonomia. O filme evita transformar essa discussão em um discurso explícito, preferindo deixar que o desconforto das situações fale por si.

Grande parte do impacto emocional da obra vem da atuação de Inde Navarrette. Mesmo tendo relativamente pouco espaço para interpretar a verdadeira Nikki, a atriz entrega uma performance impressionante ao alternar entre vulnerabilidade, terror e comportamento obsessivo. É uma atuação intensa, perturbadora e facilmente uma das melhores do gênero nos últimos anos. Em muitos momentos, ela consegue transmitir o sofrimento da personagem apenas através de expressões e pequenas mudanças de comportamento.

Curry Barker também merece destaque pela direção segura e criativa. Com um orçamento estimado em apenas 750 mil dólares, o diretor constrói cenas visualmente marcantes e utiliza os recursos disponíveis de forma inteligente. O filme nunca parece limitado financeiramente, muito pelo contrário: a produção transforma suas restrições em uma vantagem, apostando mais na atmosfera e nos personagens do que em grandes efeitos.

No final, Obsessão se destaca por oferecer algo cada vez mais raro dentro do terror contemporâneo: uma ideia original executada com personalidade. Entre momentos de humor ácido, violência gráfica e discussões desconfortáveis sobre desejo e posse, o filme constrói uma experiência inquietante que permanece na cabeça do espectador muito depois dos créditos finais. Impulsionado pela direção inventiva de Curry Barker e pela atuação impressionante de Inde Navarrette, o longa se consolida como uma das maiores surpresas e um dos melhores filmes do ano.

A Sociedade do Anel

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel


Adalberto Cristh Ferreira Filho


Reassistir O Senhor dos Anéis é sempre como voltar pra casa depois de um bom tempo fora. Lançado em 2001 (em 2002 no Brasil) e dirigido por Peter Jackson, O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel consegue se manter extremamente atual, mesmo mais de 20 anos após seu lançamento. É impressionante que um filme do início dos anos 2000, recheado de computação gráfica, não tenha ficado visualmente datado mesmo após tanto tempo, e isso mostra o carinho e dedicação com os quais a equipe do filme trabalhou para produzir uma obra tão ímpar.

Apesar de ter um formato que pode assustar espectadores novos, com quase 3h de duração (e a versão estendida chegando às 3h28), o filme trabalha seu roteiro de forma magistral, com sequências empolgantes, personagens extremamente bem trabalhados e uma história que honra o material original. A sequência de abertura de fato é um pouco longa e talvez se torne maçante para um público mais jovem, acostumado com um cinema mais acelerado, além de que a versão estendida deixa bem claro o porquê de aquelas cenas terem sido cortadas, porém no momento em que você se permite ser levado nessa jornada, é um caminho sem volta.

Mais do que atingir um objetivo, A Sociedade do Anel é sobre aproveitar a jornada. Se entregar à esse mundo mágico e deixar ser conduzido por ele. Sentar por 3 horas e simplesmente caminhar pela Terra Média. E com a forma como esse mundo é construído, essa tarefa não é difícil.

O carisma dos Hobbits é contagiante desde o início, as figuras de Aragorn e Gandalf são inspiradoras e os elfos são encantadores. O design de produção do filme definitivamente também é um dos seus pontos altos. Com cenários de tirar o fôlego, figurinos e props extremamente bem trabalhados em cada detalhe e elementos de CGI utilizados com uma finesse absurda, a equipe cria um mundo fantástico e misterioso impressionantemente crível.

Trazendo como protagonista a singela figura de um hobbit, A Sociedade do Anel é um filme inspirador e instigante, que, assim como sua obra de inspiração, mostra como alguém simples, sem grande importância para o mundo e sem grandes poderes ou habilidades pode ter grandes feitos, e nos instiga a ir em frente, partindo em nossa própria jornada e aceitando os desafios que nos são propostos, de preferência com nossa própria Sociedade.

Vidas Passadas

Samuel Ferreira da Silva

Vidas Passadas (Past Lives, 2023), estreia de Celine Song na direção de longas-metragens, é um filme que transforma uma história aparentemente simples em uma profunda reflexão sobre tempo, identidade e escolhas. A narrativa acompanha Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo), amigos de infância separados quando a família dela deixa a Coreia do Sul. Ao longo de mais de duas décadas, os dois se reencontram em diferentes momentos da vida, carregando consigo não apenas a memória um do outro, mas também o peso dos caminhos que escolheram seguir.

A obra parte do conceito coreano de In-Yun, segundo o qual os encontros entre pessoas são resultado de conexões construídas ao longo de vidas passadas. No entanto, Celine Song evita transformar essa ideia em uma defesa do amor predestinado. Em vez disso, utiliza o conceito para refletir sobre os encontros e desencontros que moldam a existência humana. O filme está repleto de perguntas sobre as vidas que poderíamos ter vivido e sobre as pessoas que deixamos para trás ao longo do caminho.

Um dos maiores méritos de Vidas Passadas é sua recusa aos clichês do romance tradicional. Embora o reencontro entre Nora e Hae Sung pudesse facilmente conduzir a uma narrativa melodramática sobre um amor interrompido, o roteiro opta por um caminho mais maduro. Os personagens já construíram suas vidas, suas carreiras e suas identidades. O que está em jogo não é a possibilidade de recomeçar uma história de amor, mas a necessidade de compreender o significado que ela ainda possui.

Essa sensibilidade também se manifesta na linguagem cinematográfica. A fotografia de Shabier Kirchner utiliza tons suaves e uma atmosfera melancólica para aproximar passado e presente, enquanto a montagem estabelece paralelos visuais que reforçam a ideia de que determinadas lembranças permanecem vivas independentemente da passagem do tempo. O resultado é um filme contemplativo, que encontra força justamente nos silêncios, nos olhares e nos gestos contidos de seus personagens.

Além da dimensão romântica, o filme aborda questões ligadas à imigração e ao pertencimento. Nora não abandonou apenas um país, mas também uma versão de si mesma. O reencontro com Hae Sung funciona como um confronto entre a mulher que ela se tornou e a garota que ficou para trás na Coreia. Nesse sentido, Vidas Passadas discute como a construção de uma nova identidade implica inevitavelmente perdas, ainda que essas perdas sejam necessárias para o crescimento pessoal.

As atuações contribuem decisivamente para a força emocional da narrativa. Greta Lee constrói uma personagem marcada pela contenção e pela ambiguidade, enquanto Teo Yoo transmite com delicadezaa melancolia de alguém que nunca deixou completamente o passado para trás. Juntos, os dois criam uma dinâmica que torna palpável a sensação de proximidade e distância que define a relação de seus personagens.

No fim, podemos dizer que Vidas Passadas é uma obra sobre as possibilidades que a vida deixa pelo caminho. Sua grande força está em nos fazer refletir sobre quem seríamos se tivéssemos tomado outras decisões e sobre as versões de nós mesmos que permanecem guardadas na memória. Ao evitar respostas fáceis e abraçar a complexidade das escolhas humanas, Celine Song entrega um filme sensível, elegante e profundamente comovente, capaz de transformar uma experiência particular em algo universal.

As patricinhas de Beverly Hills

Marília Gabrielle Costa Trindade

Quando pensamos em adaptações de livros de época, é comum lembrar de filmes como Orgulho e Preconceito ou O Morro dos Ventos Uivantes. Porém, um dos exemplos mais criativos e bem-sucedidos desse processo costuma ser deixado de lado: As Patricinhas de Beverly Hills, de 1995. Inspirado em Emma, de Jane Austen, o longa tem roteiro e direção de Amy Heckerling, que transpõe a essência da obra para o universo dos adolescentes dos anos 1990. O resultado é uma adaptação inteligente, divertida e acessível para uma nova geração. Mais do que um sucesso, o filme tornou-se um marco da cultura pop, influenciando a moda, a linguagem e a música de sua época.

Por trás dos clichês típicos das comédias adolescentes, como o ambiente escolar, as disputas de popularidade e os famosos makeovers, o filme constrói uma sátira aos hábitos e valores da alta sociedade. A protagonista, Cher Horowitz, é apresentada como a clássica patricinha rica, mimada e aparentemente fútil. No entanto, diferente do estereótipo comum, ela não ocupa o papel de antagonista. Assim como Emma, personagem criada por Jane Austen, Cher utiliza sua influência para ajudar as pessoas ao seu redor, ainda que suas intenções nem sempre produzam os melhores resultados.

Ao lado de personagens memoráveis, como Dionne, sua melhor amiga, e Tai Frasier, a nova aluna que tenta se adaptar ao universo elitizado da escola, o filme explora as pressões sociais ligadas à aparência, ao consumo e ao pertencimento. Nesse sentido, a obra vive uma contradição, onde ao mesmo tempo em que satiriza esse estilo de vida, também o glamouriza, transformando-o em objeto de desejo para o público.

A narrativa acompanha principalmente o processo de amadurecimento de Cher, que passa a enxergar o mundo para além de seus privilégios. Nesse percurso, se destaca sua relação com Josh, interpretado por Paul Rudd. Mais velho e universitário, ele é frequentemente retratado como a “voz da razão”, ocupando uma posição de superioridade intelectual em relação à protagonista. Ao longo da história, Josh passa a reconhecer em Cher qualidades que vão além da aparência, valorizando seu crescimento emocional e intelectual. Como em muitas comédias românticas, o relacionamento entre os dois surge como recompensa ao final da jornada da personagem.

Analisando de uma ótica contemporânea, essa relação desperta certo desconforto. Embora não tenham laços sanguíneos, Cher e Josh compartilharam uma dinâmica familiar próxima durante parte de suas vidas, o que torna o romance estranho para muitos espectadores atuais. Além disso, a diferença de maturidade entre os dois e a forma como Josh frequentemente assume uma posição de mentor fazem com que essa relação tenha envelhecido mal diante das mudanças culturais e de gerações.

Ainda assim, As Patricinhas de Beverly Hills permanece relevante 30 anos após seu lançamento. Mais do que uma comédia adolescente divertida, o filme funciona como um retrato das contradições de sua época, abordando temas como classe social, padrões de beleza, popularidade e identidade. Ao mesmo tempo em que critica esses valores, também os reproduz, o que torna sua análise ainda mais interessante. Talvez seja justamente essa ambiguidade que explique sua popularidade.

American Horror Story

O Declínio: As Falhas Estruturais e o Vazio Narrativo


Carlos Vitor Soares Freire


American Horror Story: Double Feature (a décima temporada da antologia de Ryan Murphy e Brad Falchuk) surgiu com uma promessa audaciosa: entregar duas narrativas distintas pelo preço de uma. Dividida entre o terror costeiro de Red Tide (Maré Vermelha) e a ficção científica conspiratória de Death Valley (Vale da Morte), a temporada acabou se tornando um estudo de caso sobre como ótimas premissas podem naufragar por pura pressa narrativa.

O maior pecado de Double Feature reside em sua própria estrutura bipartida. Ao fraturar a temporada em duas micro-histórias, os criadores sabotaram a capacidade de desenvolvimento de ambas. O formato reduzido sufocou o ritmo. Red Tide, que vinha construindo uma atmosfera primorosa de suspense psicológico, foi obrigada a correr para um desfecho abrupto e anticlimático no sexto episódio. O roteiro simplesmente jogou as resoluções no colo do espectador, sacrificando a coerência em nome do relógio. Se a primeira metade pecou pelo final apressado, a segunda metade desandou por completo. A fusão entre o preto e branco histórico (os anos Eisenhower e os alienígenas) e o núcleo contemporâneo (os jovens clichês em viagem) não encontrou equilíbrio. O segmento moderno careceu de carisma, entregando atuações engessadas e diálogos que beiravam o constrangedor.

A promessa implícita de que as duas partes se amarrariam de forma inteligente evaporou. O que restou foi a sensação de estarmos assistindo a dois projetos inacabados que foram colados às pressas para preencher a grade de programação.Apesar dos tropeços estruturais, seria injusto não reconhecer o requinte técnico e o talento que reluzem em meio ao caos. Visualmente, os seis primeiros episódios entregam uma das melhores atmosferas de toda a antologia. A ambientação cinzenta e gélida de Provincetown, no inverno, evoca um isolamento quase lovecraftiano. A fotografia e a trilha sonora trabalham em perfeita simetria para construir um incômodo constante. A premissa da pílula preta — que desperta o talento genial dos criativos à custa de sua humanidade, enquanto transforma os medíocres em monstros pálidos — é uma sátira brilhante e ácida sobre a indústria do entretenimento, a ambição e o preço do sucesso. O elenco veterano salva a temporada do esquecimento. Evan Peters e Frances Conroy dão um show de excentricidade e humor ácido como a dupla de escritores macabros. Sarah Paulson, irreconhecível como "TB Karen", entregauma das performances mais cruas e viscerais de sua carreira, servindo como o compasso moral daquela comunidade corrompida.

American Horror Story: Double Feature é um espetáculo de potencial desperdiçado. A temporada prova que a criatividade de Murphy e Falchuk continua afiada, mas a ambição estética foi sufocada por um roteiro que não soube administrar o tempo. Vale a experiência pela atmosfera poética e pelas atuações brilhantes de seu início, mas exige do espectador uma boa dose de paciência (e indulgência) com o seu desfecho.

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Diabo Veste Prada 2

 Ana Cecília da Silva Souza


Anunciado quase vinte anos após o sucesso do original, O Diabo Veste Prada 2 retomou ao universo criado por Lauren Weisberger. A trama acompanha Miranda Priestly, ainda à frente da revista Runway, agora enfrentando a decadência do império das revistas impressas e a ascensão de uma nova lógica de consumo de moda. Em paralelo, Andy Sachs retorna à narrativa em uma nova fase da carreira, consolidada profissionalmente, mas novamente atraída para a órbita da antiga chefe. O filme tenta equilibrar nostalgia e atuação temática, apostando menos na comédia de transformação pessoal e mais em um drama sobre poder, legado e adaptação.

O roteiro entende que o sucesso do primeiro filme não estava apenas no universo da moda ou nas falas marcantes de Miranda, mas também no conflito vivido por Andy entre crescer profissionalmente e manter sua própria identidade. Nesta sequência, as personagens aparecem em momentos diferentes da vida. Andy já não é mais a jovem insegura do primeiro filme, enquanto Miranda precisa lidar com um mercado que mudou e que já não funciona da mesma forma de antes.

Apesar de trazer conflitos interessantes, o filme se perde em alguns momentos da própria narrativa. Grande parte da trama gira em torno de Andy precisando reconquistar a confiança de Miranda, o que acaba dando a sensação de que a personagem retrocedeu depois de toda a evolução apresentada no primeiro filme. Enquanto isso, a disputa nos bastidores para derrubar Miranda cria uma tensão que demora muito para avançar e rende diversas cenas que poderiam ser mais objetivas.

O roteiro abre várias linhas narrativas ao longo da história, mas nem todas recebem uma conclusão. Com isso, o filme acaba ficando mais longo do que precisava e, em alguns momentos até arrastado. Embora os reencontros entre as personagens principais sustentem o interesse do público, a narrativa demora para chegar ao ponto e deixa algumas questões sem resposta quando os créditos sobem.O ponto mais forte do filme continua sendo a relação entre Miranda e Andy.

Meryl Streep mostra mais uma vez porque a personagem se tornou tão marcante, entregando uma Miranda firme e intimidadora, mas também mais vulnerável do que no primeiro filme. Desta vez, a personagem precisa lidar com mudanças que fogem do seu controle e com a possibilidade de perder o espaço que construiu ao longo da carreira. Anne Hathaway também convence ao interpretar uma Andy mais madura, embora o roteiro a coloque novamente em uma posição de dependência em relação à antiga chefe. Ainda assim, os encontros entre as duas são os momentos mais interessantes da trama e sustentam boa parte do filme.

No final, O Diabo Veste Prada 2 funciona mais por causa dos seus personagens do que pela história que constrói. O filme traz reflexões interessantes sobre carreira, poder e envelhecimento, principalmente através de Miranda, mas tem dificuldade em desenvolver todos os conflitos que apresenta. Algumas tramas ficam sem uma conclusão satisfatória e o ritmo arrastado prejudica o impacto de determinados acontecimentos. Mesmo assim, a sequência consegue despertar a nostalgia dos fãs e entregar momentos emocionantes, ainda que não alcance o mesmo brilho e a mesma força do filme original.

LITTLE WOMEN


Maria Eduarda Oliveira Sena

O filme Little Women, traduzido como Adoráveis Mulheres, foi lançado em 2019 pela diretora Greta Gerwig e é mais uma das várias adaptações do livro “Mulherzinhas” da escritora Louisa May Alcott. A história apresenta a vida das 4 irmãs March, Jo (Saoirse Ronan), Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson) e Beth (Eliza Scanlen) contada com sensibilidade e intimidade como se fosse um diário das vivências da família.

A história, apesar de ocorrer em meados de 1860, é abordada de forma bastante atual com o olhar que Greta aderiu para a obra, tirando o que poderia ser mais um filme de época com probabilidade de se tornar “arrastado” e adicionando atemporalidade e dinamicidade para a trama.

A diretora também traz uma fotografia e temporalidade da ordem dos fatos muito interessante e bastante conectada com a história ao utilizar colorações mais quentes para cenas do passado e tons mais frios para os momentos do presente, mostrando o sentimento de nostalgia e felicidade para as situações da juventude. Isso mostra a liberdade que Greta teve ao construir a história diferente do que foi escrita. Ainda ligada a fotografia, também é possível perceber a conexão da sonoplastia com o que as situações, juntamente com a colorimetria, transmitem para o telespectador, trazendo suavidade e animação para as cenas do passado, ou seja, mais quentes e melancolia para as do presente, então tons mais frios como citado anteriormente.

Pelo filme utilizar de uma temporalidade despadronizada, também é possível perceber o  Paralelismo, abordado na obra “A arte do cinema: uma introdução” de David Bordwell e Kristin Thompson. Essa forma de narrativa tem como objetivo utilizar comparativos em ações, escolhas e cenas entre personagens e sem dúvidas, a diretora faz bastante uso desse formato ao “brincar” com essas trilhas sonoras, cores e cenas do passado que tem referência ou similaridades no presente, o que já contribui para um diferencial não só entre as próprias adaptações já feitas do livro, mas também sai do tradicional que é produzido na indústria cinematográfica.

O elenco, que não deve ter sido barato, faz compensar com a entrega espetacular dos atores que não só faz o telespectador se sentir parte daquela vivência, mas também faz sofrer e torcer pelo sucesso dos personagens. Apesar do claro protagonismo da Jo, é notório que ainda sim cada um dos participantes conseguiu ter seu destaque com o desenvolvimento e atuação.

O final do filme traz uma quebra de expectativa ao ser um final aberto saindo do que o livro aborda e sendo totalmente realizado por escolha da Greta. Quando a obra é finalizada o telespectador não sabe se aquilo que foi apresentado realmente aconteceu ou se foi uma realidade alternativa acrescentada pela diretora que, para alguns, não foi bem aceita.

Mas mesmo com em média 7 adaptações da história para as telas, por que a Greta teve tanto destaque? Todas essas mudanças e liberdade que construiu em seu filme alteraram a essência do livro ou potencializam o que era bom? Será que o final em aberto escolhido pela diretora foi a melhor escolha? Apesar desses questionamentos não se pode negar que é sim um filme cativante, mesmo sendo de época traz apontamentos e inovações que persistem até hoje.

Hamilton

 Mariana Gonçalves Pereira


Quando morremos, quem conta a nossa história?

Essa é a pergunta que nos guia pela narrativa de Hamilton, o musical mais notável que a Broadway recebeu na última década. A fama é tanta que ele foi até gravado profissionalmente e disponibilizado nas plataformas digitais para que os fãs pudessem experimentar um pouco do teatro dentro da própria casa, e a produção conta até com simulação de intervalo entre os atos.

Mas afinal, o que há de tão especial em uma obra sobre a vida de um dos pais fundadores dos Estado Unidos? E adendo, não estamos falando de George Washington ou Thomas Jefferson, mas sim de um certo Alexander Hamilton, já ouviu falar?

Lin Manuel-Miranda, compositor do musical, encontrou uma forma de fazer arte com algo que geralmente leva as pessoas a dormir durante a aula de história. A narrativa acompanha a ascensão e queda de Alexander Hamilton, um imigrante que chegou a ser secretário do tesouro dos Estados Unidos e um dos autores da constituição deste país. A chave para o acerto do musical está grandemente na vida do próprio Alexander - de um sem ninguém em um país de terceiro mundo para um dos homens mais poderosos do país que ajudou a construir. No entanto, a principal chave para garantir que essa obra fosse interessante e fizesse sentido era o talento de Lin, e ele tem de sobra.


A história é contada apenas através de músicas - se existem falas, elas estão recheadas de rimas para se encaixar na canção. E não apenas quaisquer músicas, em sua maioria elas são rap ou hip hop. Essa escolha também não foi por acaso, a vida frenética de Hamilton, como ele não parava por nada nem ninguém, e como ele sempre escrevia como se seu tempo estivesse acabando, combina perfeitamente com o estilo rápido e ríspido do hip-hop. Além disso, o musical traz outro toque interessante: apenas atores não brancos foram escolhidos para representar todos esses personagens históricos que eram, de fato, todos brancos. A combinação de aspectos não convencionais para um musical, ou para uma produção audiovisual em geral, formam uma peça não só muito interessante, como genial.

A gravação profissional feita da peça consegue realçar muito bem outro aspecto que pode passar despercebido quando a vê ao vivo: toda a dinâmica de luzes e de micro expressões dos atores, que realçam cada palavra que eles estão cantando. A gravação profissional também coloca luz em um grande debate do mundo dos musicais: existe diferença entre simplesmente gravar a apresentação da Broadway e fazer uma produção cinematográfica completa da história retratada no musical? Aqui, a direção de Thomas Kail opta pela primeira opção. E não poderia ser diferente - a história já é contada inteiramente apenas através das músicas, o que tornaria desnecessário qualquer diálogo adicional que seria preciso para compor um filme.

O jeito como as músicas vão se encontrando ao longo da produção, uma fazendo referência a outra, e a narrativa frenética que faz você sentir que o tempo do protagonista está acabando, até que de fato acaba, torna tudo genial. Tudo isso é potencializado quando percebemos a real mensagem por trás da produção: quando morremos, quem conta a nossa história? Alexander estava tão preocupado em ser um dos grandes, que não pensouque o único jeito de isso acontecer era tendo sua história contada. E em grande parte, ele não teve. Quando você pensa nos pais fundadores dos Estados Unidos, você não pensa em Alexander Hamilton. Ou melhor, não pensava. O musical Hamilton, e ainda mais a gravação veiculada no Disney Plus, difundiu a história dele mais do que qualquer aula na escola poderia ter feito. E aí entra também o poder da arte: ela une países, línguas, e ensina mesmo que seja do mais não convencional possível. Como cantam - de fato, a história tem os olhos em você.