sábado, 26 de novembro de 2022

The Crown

‘Gunpowder’: The Crown – Temporada 5, Episódio 8

Talles Andrade 


A quinta temporada do aclamado drama da Netflix retorna com mais munição do que nunca. Numa temporada cercada de escândalos e culpa, The Crown se transforma numa verdadeira novela familiar.

Criticada pela dramatização exagerada de fatos históricos, a série não deixa de entreter seu público-alvo, uma vez que consegue humanizar os dramas que rodeiam a Família Real Britânica.

Este episódio tem um papel ainda maior: expor publicamente como a Princesa Diana sobreviveu a todos os anos de silenciamento da Monarquia enquanto buscava levar sua verdade ao mundo, recriando sua polêmica entrevista dos últimos anos de sua vida. Abordando, também, o papel da BBC, veículo que, como relatado no episódio, só existe por conta de intervenção real, mas, ao mesmo tempo, foi responsável pela divulgação de uma das maiores críticas a esse sistema.

Como mencionado, a série tenta humanizar cada ponto de vista da Família Real, o que, às vezes, gera representações duvidosas. Não é difícil notar o papel do Príncipe Charles como antagonista, com seu caráter questionável refletido da vida real, principalmente na quarta temporada, porém, na atual, há uma tentativa de criar um arco de redenção para ele, visto no quinto episódio, “The Way Ahead”. Fenômeno parecido acontece com o Príncipe Phillip no episódio anterior a esse,

“Annus Horribilis”, no qual ele prova sua lealdade à Rainha Elizabeth II enaltecendo-a em meio a críticas.

A própria Rainha, que passou as temporadas iniciais sendo enquadrada como vítima de um sistema arcaico que não respeita sua existência humana, vai de vítima à vilã neste episódio, ao acusar a Princesa Diana de distorcer sua história para manchar a imagem da Família Real — quase um paralelo à situação de sua irmã, a Princesa Margareth, também trazida à tona nessa temporada — adicionando mais lenha à fogueira que tenta iluminar a Família Real como o problema.

Com a forte participação da BBC quase como um personagem, o episódio vai além do drama Real e adentra questões de comunicação pública e questiona o verdadeiro papel da emissora, que, na época, começava a perder espaço para emissoras comerciais e a própria TV fechada.

Com interpretações estrelares, a série continua a tirar o fôlego com recriações de eventos históricos. O fato de já sabermos o que irá acontecer não anula a sensação de angústia e empatia com os personagens, uma vez que, através da dramatização, estamos tendo acesso a um lado mais íntimo e empático de cada um deles, apesar de ficcional, algo curioso dessa polêmica produção tão renomada.

Eles Não Usam Black-Tie

RESENHA CRÍTICA – “Eles Não Usam Black-Tie” (1981)

Ionathan Gregory de Santana Cavalcanti

Em um contexto em que a ditadura militar dava indícios de estar enfraquecendo é que foi lançado o longa-metragem “Eles Não Usam Black-Tie”, do diretor Leon Hirszman. O filme, de 1981, mostra uma sociedade começando a vivenciar um respiro dos anos de brutalidade – anos estes em que o operário Otávio, um dos protagonistas, chegou a ficar preso. Tião, filho de Otávio e operário na mesma fábrica metalúrgica, descobre que Maria, sua namorada, estava grávida, ao mesmo passo em que se emergia uma tremenda greve sindicalista na fábrica. Os conflitos não se dão apenas na greve, mas também entre pai e filho, que entram em desavença por divergência de interesses e ideologias. Otávio, corajoso líder sindical, não se acanhava frente às opressões sofridas pela classe operária e militava pelos direitos seus e dos seus colegas. Já Tião, mais jovem, almejava outra perspectiva para a sua vida e, agora, para a vida de seu filho.

“Eles Não Usam Black-Tie” traz uma representação fiel e pontual do cenário político de 1980. Tião e Maria eram parte de uma geração cheia de incertezas, que nasceu já dentro da ditadura e viu as marcas do autoritarismo entre os seus. O medo e a esperança andavam juntos. Tião cede ao medo, justamente, por esperança de que fosse essa a melhor saída, caso a história os levasse pelo caminho em que sua família possivelmente passaria fome, mas enfrenta o alto preço de se acovardar e trair os seus aliados. Ao contrário do filho, Otávio acreditava na luta de classes como veículo de mudança e como forma de recuperar dias melhores que já vivera antes da ditadura. Isso nos proporciona enxergar tamanha polarização política da época e como a repressão coloca o povo contra o povo. Em diversos momentos, a obra também expõe e denuncia a tirania policial.

O filme, que conta com grandiosos nomes das artes cênicas brasileiras, como Fernanda Montenegro e Milton Gonçalves, não deixa a desejar em nada no quesito técnico e artístico, com imagens e cenografias muito reais. Sendo um filme lançado e que se passa durante a ditadura militar, “Eles Não Usam Black-Tie” chegou a ser censurado, mas também foi vencedor de três troféus no Festival de Veneza. Ambos os acontecimentos foram obtidos pelo fato do filme, adaptação da peça de Gianfrancesco Guarnieri (Otávio), ser uma denúncia em relação à violência militarista e ao totalitarismo que ainda pairava no ar. Todas essas características fazem do filme um longa-metragem emocionante, extremamente precioso na história do cinema brasileiro e que planta uma semente de reflexão crítica e social no telespectador.

Central do Brasil

O nordestern Central do Brasil e a cosmética da fome

Jair Libanio de Araújo Filho

Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e as diversas histórias retratadas durante o filme de Walter Salles - Central do Brasil, um filme de gênero apelidado carinhosamente de Nordestern, traduz de maneira contemporânea um movimento que pertenceu ao período da ditadura militar no Brasil. Central do Brasil é um marco para o cinema brasileiro, não porque ele foi indicado ao Oscar, mas pelo simples fato dele misturar e chacoalhar todas as nuances das fases do cinema novo - a busca pelo sertão seco interiorano se distingue da transformação úmida dos personagens Dora e Josué.

As influências vanguardistas e glauberianas em Central do Brasil retrata um ovo modelo de fazer cinema conceituado na reinvenção do que é ser Brasil, nessa busca sobre o ser urbano e o ser sertão é de certa forma plural em diversos aspectos narrativos. Fernanda Montenegro e o talentoso Vinicius de Oliveira interpretam dois personagens que possuem exatamente essa vista grossa sobre a realidade alegórica brasileira do ser urbano e o ser sertão da busca por algo - que de certa forma, metafísica - onde o urbano se correlaciona com o ser sertão e a jornada interior.

Tecnicamente, Salles traz essa reinvenção sobre a estética da fome traduzida em um polimento híbrido apelidada de Cosmética da fome, em que transforma a violência comentada na primeira fase do cinema novo em uma brutalidade suave e razoavelmente confortante - de certa forma, uma polidez que não esvazia, de fato, o contraste social brasileiro.

THE HAUNTING OF HILL HOUSE

UMA DAS MAIORES SÉRIES DE TERROR DA ATUALIDADE

Emely Luize dos Santos Brito

Lançado em outubro de 2018 na plataforma de streaming Netflix, o seriado The Haunting of Hill House não demorou a se tornar um sucesso. Criada, escrita e dirigida por Mike Flanagan, conhecido por suas obras cinematográficas de terror, e inspirada na obra de Shirley Jackson, a série contém a dose certa de suspense e drama familiar, deixando sua trama excruciante e ao mesmo tempo bastante sensível.

Contando a história da família Crain, que se muda para uma casa mal-assombrada, a obra se desenrola entre o passado e o presente, nos mostrando como as decisões tomadas pelo casal e seus cinco filhos enquanto habitavam a residência Hill acabaram influenciando todo o seu futuro.

Curiosamente, Flanagan esperava transformar a adaptação em um filme quando iniciou o projeto, e não em um seriado, mas, ao planejar o roteiro, ele percebeu que cada membro da família merecia mais do que poucas horas de tela, transformando assim sua história em algo mais denso e significativo. Seus dez episódios têm em sua maioria o objetivo de focar em cada personagem individualmente, analisando seus diferentes pontos de vista e suas formas de entender o que se passa ao seu redor. Suas ações acabam por ter reações na narrativa dos outros personagens, e é somente com o passar dos episódios que conseguimos entender a dimensão que elas possuem.

Um exemplo disso é o que acontece no episódio de número seis, intitulado Two Storms, que se desenrola entre duas narrativas paralelas. Enquanto a família enfrenta uma noite tempestuosa durante um funeral no presente, a mesma família, décadas atrás, precisa lidar com um apagão causado por uma tempestade que parece afetar somente a residência Hill. Esse episódio se tornou uma das grandes estrelas da série, pois foi usado nele uma técnica de filmagem bastante complicada.

Embora a opção de apresentar cortes seja muito mais viável para a televisão, já que facilita na edição e possibilita a correção de erros sem precisar da regravação do material, Flanagan escolheu fazer diferente ao imaginar todo o episódio sendo filmado em planos sequência demorados, e o fato das cenas se passarem em dois lugares diferentes não pareceu um grande desafio para a equipe: os dois cenários usados — o local onde estava acontecendo o funeral no presente e a residência Hill — foram construídos juntos, interligados, apenas para que esse episódio funcionasse.

Com apenas uma câmera na maior parte da filmagem, Two Storms foi gravado em apenas cinco longos planos sequência, tendo o maior deles o tempo de dezessete minutos. O episódio demorou cerca de um mês para estar pronto para as gravações, milimétricamente coreografado para que os atores e a equipe soubessem o momento certo de entrarem em cena e se locomoverem pelo cenário. Cada som e efeito de luz foi calculado para que tudo se encaixasse de forma harmoniosa no fim.

E não é só nas técnicas de filmagem que a série se destaca. The Haunting of Hill House possui uma fotografia merecedora de atenção, já que usa paralelos muito frequentemente para contar sua história. O encaixe perfeito da câmera é necessário, feito de forma precisa para que consigamos entender quando certas cenas se interligam.

The Haunting of Hill House é a prova que dá pra se fazer terror de boa qualidade. A série não só assusta, mas também emociona e choca quem a assiste de um jeito tão surreal e incomum nas obras de horror genéricas de Hollywood. O diretor sabia o que estava fazendo ao acrescentar cada detalhe no roteiro, na produção e até mesmo no cenário, que também surpreende com suas várias mensagens escondidas, desde fantasmas capazes de serem vistos nos cantos de cenas triviais até mesmo estátuas que se movem com uma troca simples de foco.

Quebrando regras do audiovisual e apostando em uma nova maneira de contar boas histórias de terror, The Haunting of Hill House ainda é uma série que merece ser discutida e analisada. E que as pessoas permaneçam encontrando nela tantas outras belezas e complexidades, que talvez continuem tão bem escondidas quanto os fantasmas em suas cenas.


Pedacinhos de Grama

Resenha crítica de Entrelinhas Pontilhadas

Giovanna de Morais Souto

Zero está indo viajar com os seus dois melhores amigos, Sarah e Secco. E, além de ter que lidar com os pequenos problemas que vão acontecendo durante a viagem, ele está tentando processar o porquê de sair de Roma para Biella e lida com sua consciência, que assumiu a forma de um grande tatu falante. Através de situações cotidianas cômicas, essa minissérie de animação nos faz refletir questões da vida, falando muito e bem em pouco tempo.

“Entrelinhas Pontilhadas” foi criada, roteirizada e dirigida pelo cartunista italiano Zerocalcare, o próprio protagonista. O estilo se animação é simples, mas não peca no sentido da sua fluidez. Isso se dá não somente pelas observações de situações cotidianas, como também pelo seu estilo stand up, com a fala direta ao público quebrando a quarta parede tal qual Ferris Bueller em Curtidindo a Vida Adoidado.

A comédia presente, na verdade, é utilizada como uma ferramenta para sérias reflexões trazidas pela clara ansiedade de Zero, como o sentimento de fracasso, seu lugar no mundo, relacionamento abusivo, amor e a morte. Todos esses pequenos pedaços vão se juntando de maneira não-linear, de modo até de te surpreender no final, para montar um único e grande tema: a vida adulta, suas expectativas e decepções.

É uma série incrível e altamente emocionante, com personagens em que você consegue se identificar. É uma verdadeira montanha-russa de emoções, então, mesmo que tenha apenas seis episódios, é importante assistir com calma e preparado. Mesmo assim, ela é ótima para nos lembrar que o mundo inteiro não está nos nossos ombros e que no final das contas “somos apenas um pedacinho de grama num campo aberto”.