sábado, 26 de novembro de 2022

Amanhã (2022)

Yara Adryelle Nascimento de Santana Souza

Amanhã é uma série lançada em abril de 2022, criada pela rede televisiva sul-coreana MBC e transmitida a nível mundial pela Netflix. Ela foi considerada (injustamente) pelo público coreano como uma das piores séries de 2022, mas mundo afora ela conquistou muitos corações e fez bastante sucesso. A série de 16 episódios que mistura fantasia e drama trata de forma leve, e ao mesmo tempo intensa, sobre o suicídio e traz à tona, em cada episódio, histórias de pessoas depressivas e que estão prestes a tirar a própria vida. Além do suicídio, a série traz temas polêmicos e que são considerados tabus pelo público coreano, o que justifica a rejeição. Histórias sobre violência sexual, anorexia, bulliyng e outras tramas tristes.

Choi Joon-Woon é um adulto que não consegue um emprego de jeito nenhum. Após voltar de uma entrevista de emprego fracassada ele pensa em se matar, mas muda de ideia, no entanto, vê um senhor tentando pular de uma ponte e tenta impedí-lo, mas acaba caindo na água no lugar do outro. Choi fica em coma e é convocado por uma instituição que cuida das almas de pessoas mortas a se juntar à uma equipe que trabalha para evitar suicídios, ele aceita para diminuir seu tempo em coma. Na equipe está Goo Ryeon, uma mulher que na última vida, durante a dinastia Joseon, se suicidou por causa dos julgamentos da sociedade em que ela vivia por causa de um incidente. E Lim Ryung-gu, um homem que na vida passada perdeu a mãe, que foi violentada, para o suicídio. Os dois têm motivos pessoais para lutar para que as pessoas não tirem suas próprias vidas. É uma equipe pequena e marginalizada entre as outras equipes de ceifadores. O líder dos ceifadores Park Joong-gil, está sempre tentando prejudicar a pequena equipe liderada por Goo Ryeon, os dois vivem em constantes conflitos. Park Joong-gil não se lembra, mas ele fez parte do passado de Goo Ryeon e sofreu muito com sua partida. Choi Joon-woon, Goo Ryeon e Lim Ryung-gu recebem a cada episódio a missão de salvar alguém, eles se infiltram na vida das pessoas, descobrem seus problemas e tentam ajudar para evitar o suicídio.

Essa série mexeu comigo mais que qualquer uma em toda a minha vida. Eu ri, eu chorei, eu aprendi, lavei a minha alma, morri e renasci. Quando uma série faz tudo isso comigo costumo dar 5 estrelas para ela. Mas vamos às avaliações… essa série possui um roteiro bem básico por se tratar de representar casos reais de depressão, então foi fácil prever o que aconteceria em cada episódio. Me deu raiva e ao mesmo tempo me deixou um gostinho de quero mais quando a história de Goo Ryeon e Park Joong-gil foi inserida na trama e não tiveram um final fechado, por mim, poderia ter uma série só deles, ou uma segunda temporada continuando a história deles. Os episódios que mais me levaram às lágrimas foram o do cachorro, o do herói de guerra e o das mulheres de conforto, mas chorei em todos os outros também. O figurino, os cenários e os efeitos de edição deram um toque surreal para a série e nos resgatou da verdade crua das tristes histórias. É uma série muito boa para ver e rever sempre que se sentir triste ou sem esperança ou simplesmente por ver mesmo. Eu assistiria várias e várias vezes e choraria em todas elas.

Amanhã é uma série injustiçada, ela mostrou a verdade e mostrou que a Coreia do Sul não é um mundo encantado como os doramas bobinhos levam a crer. Em todo canto há depressão, em todo canto há violência e há tristeza, mas viver e seguir em frente é importante. A série mostra como o amanhã é precioso e que devemos continuar vivos para vivê-lo.

Drive (2011)

 

Flávio Pantoja Monteiro

A narrativa do motorista calado e solitário que vive uma vida monótona até se interessar por uma mulher é bastante corriqueiro dentro do cinema. É possível ver enredos que se encaixem nesse “esqueleto” em filmes como Taxi Driver, Baby Driver, Teoria da Conspiração, entre outros. E Drive, do dinamarquês Nicolas Winding Refn, é mais um que estrutura sua história em torno desta premissa.

Na trama, acompanhamos a história de um motorista sem nome alternando entre seus trabalhos como dublê, mecânico e motorista de fuga para assaltos. Mesmo que pareça uma vida emocionante em um primeiro olhar, não demora a percebermos como a existência do protagonista é maçante, tediosa. Isso se altera a partir do momento em que ele se envolve com Irene, sua vizinha, e com o filho dela, Benicio.

O protagonista cria rapidamente um forte laço com os dois, que é perturbado pela chegada do marido de Irene, Gabriel. A partir desse momento, o que temos é um frenesi de violência e vingança que dá o tom dos dois terços finais da obra.

Drive passa longe de ser um filme original, isso é obvio. Os clichês de ação estão presentes durante a obra inteira, desde o bad-ass caladão até a dama em perigo, passando pelo mentor assassinado e por mafiosos sem escrúpulos ou profundidade. Ainda assim, a produção é extremamente marcante. Mas por que?

Em um cinema que cada vez mais se propõe a ser inventivo e original, se afastando – e muitas vezes até desprezando – o que se entende como “cinema comercial”, o filme de Refn vai pelo caminho contrário: ele abraça totalmente o seu lado comercial. E isso passa longe de ser algo ruim.

Durante diversas cenas da película, a impressão é de estar vendo um filme estereotipado, daqueles que aparecem dentro de outros filmes. A sequência inicial é extremamente padrão, com um motorista solitário na noite enquanto a trilha sonora de rock alternativo toca e o titulo em rosa neon surgindo em tela. Mas mesmo assim, é extremamente marcante.

A impressão que se dá, é que mesmo sem apresentar uma estrutura narrativa-técnica original, Refn tem um sucesso enorme na construção de seu filme por fazer tudo de maneira impecável. Em muitas formas, é como se Drive acertasse no tom de todos os aspectos que procura apresentar ao expectador: A violência é bastante gráfica e marcante, mas sem ser apelativa. As sequencias automobilísticas são excitantes, mas sem cair no padrão de “carro disparando em alta velocidade enquanto corta o trânsito”. Até os atos de vingança cometidos pelo protagonista são no tom certo, entregando satisfação pela “punição aos vilões”, mas mantendo uma certa “classe”.

Outro ponto a se ressaltar é a profundidade da relação entre o protagonista e Irene. Diferente do que se vê comumente no gênero, não há ênfase no aspecto sexual aqui. O filme não possuí cenas de sexo, e o contato mais próximo que o casal tem é a cena do beijo no elevador. Ainda que isso aparente um certo “puritanismo” do diretor, para mim a questão é um pouco mais complexa.

O motorista silencioso não se interessa por Irene por pura e simples atração. Claro, a atração está lá, mas não é o ponto principal. Ao meu ver, o que ele encontra na vizinha e no filho pequeno da mesma, é uma resposta para o vazio que ele sente em sua existência. Ele não sente somente desejo por Irene, ele se atrai majoritariamente pela sensação de afeto mutuo que se constrói naquela relação.

É possível entender isso a partir da análise da relação entre o protagonista e Gabriel, marido de Irene. No momento em que se conhecem, fica claro que há

um interesse compartilhado pelos dois em relação a mesma mulher. Uma situação como essa precederia um conflito em outras narrativas, mas não aqui. Em Drive, o que se tem é uma “aproximação” de ambos por causa de Irene. O protagonista tem os meios e a capacidade de afastar Gabriel da família, já que o mesmo os coloca em risco devido a seu passado. Essa ação, inclusive, seria mais interessante para o motorista silencioso, caso a sua motivação fosse de fato, simplesmente estabelecer uma relação com Irene. Mas não é esse o caso aqui.

O que o protagonista realmente deseja é o bem estar de Irene e de Benício, e a presença de Gabriel é importante para que esse objetivo seja alcançado. Benício provavelmente ama o pai (ainda que não haja um desenvolvimento disso na obra), e Irene, mesmo estando interessada no motorista silencioso, ainda sente afeto por Gabriel. Dessa forma, por se importar com ambos, o protagonista também passa a se preocupar com os problemas de Gabriel.

A cena dos quatro na mesa de jantar talvez simbolize melhor do que qualquer outra a natureza daquela relação. Enquanto todos os presentes na cena estão em uma convivência “feliz”, é possível perceber que o protagonista está satisfeito com aquela situação. Não há incomodo por não ser o par romântico de Irene naquele momento, já que Gabriel ainda é o marido dela, e nada aponta uma mudança desse cenário em um futuro ideal. Na verdade, o motorista silencioso se sente confortável em seu papel como “protetor”. Tudo o que ele quer, após anos de uma existência tediosa e maçante, é se sentir necessário e amado. Ele não quer fazer parte da vida de Irene por pura atração física. Ele quer pertencer e ter sua presença desejada naquele lugar.

Entretanto, quando há a possibilidade de permanecerem juntos, após todos os antagonistas serem derrotados, o motorista opta por seguir adiante e deixar Irene para trás. Por que? Bem, para mim, novamente há uma opção pelo bem estar dela e da criança. Entendo que nesse momento, após um ciclo de violência que se estabeleceu como consequência de uma aproximação afetiva, o protagonista entenda que a sua presença ao lado de Irene traria mais malefícios do que benefícios para a mesma. E dessa forma, decide se afastar.

De muitas formas, Drive é um filme simples, mas com nuances complexas. Ele é relativamente curto, com menos de duas horas de duração, mas bastante marcante. O expectador facilmente se insere dentro do enredo, ainda que talvez não entenda alguns aspectos narrativos presentes na produção. Não é uma obra de arte, mas facilmente se tornou um de meus filmes favoritos.

BEL-AIR

 

Helisa Jales Campos


Os reboots são nostálgicos, mas podem acrescentar ainda mais profundidade para a obra original. Na série Bel-air conhecemos a história de Will que mora na Filadélfia e acaba brigando com um traficante da área e vai morar com seus tios em um bairro rico de Los Angeles, chamado Bel-air. É surpreendente saber que esse reboot nasceu 30 anos depois por causa do trailer produzido por Morgan Cooper que era fã da série, e utilizou a premissa básica de como seria Um Maluco no Pedaço nos tempos atuais que troca as piadas para destacar o tom mais dramático dessa história.

As séries são parecidas e é difícil não comparar as duas, mas elas conseguem funcionar sozinhas. Além disso, os personagens, que em ambas as obras possuem os mesmos nomes, em seus problemas mais dramatizados e atualizados, como o personagem Carlton que no Maluco no pedaço tem o papel de alívio cômico e o primo rico e ingênuo, já na versão de 2022 o personagem é mais sombrio, isto é, ganha mais camadas, como o vício em drogas e o jeito que ele lida com o racismo na escola. Outro ponto positivo são os cenários grandiosos e modernos, a famosa mansão dos Banks não poderia ser mais luxuosa, assim como a caracterização dos personagens que é usada de uma forma bastante sutil, mas que dá um tom singular para cada um.

Por mais que Bel-air tenha surpreendido o público por tratar temas importantes com a história do “príncipe de Bel-air“ de uma maneira séria, ainda teve coisas que não me agradaram, visto que passa a sensação que tentaram usar várias coisas que ocorreram em 6 temporadas em uma única só, como a relação paternal do Tio Phil com Will que pareceu meio abrupta e a inexistência do relacionamento do Will com sua prima mais nova Ashley que foi meio esquecida na série. Sendo assim, mesmo com pontos negativos acredito que Bel-air conseguiu trazer algo novo para o universo da série e traz assuntos pertinentes para se refletir, além de deixar um final meio aberto para uma segunda temporada.

A Ganha-Pão

 

Laura Abreu da Silva


“A Ganha-Pão” é uma animação de 2017, dirigida por Nora Twomey, de extrema importância. Foi premiada em diversos festivais ao redor do mundo e indicada ao Oscar e ao Globo de Ouro em 2018. A narrativa é triste e dramática, porém realista. Faz um ótimo retrato do Talibã e como várias famílias do Afeganistão sofreram com o regime na época e continuam sofrendo atualmente.

Parvana é uma corajosa garota de 11 anos, afegã, filha de um professor e de uma escritora, que lida com as limitações impostas pelo Talibã. Após seu pai ser preso injustamente, ela corta o cabelo e finge ser um menino para ajudar sua família, pois o regime impede mulheres de andarem na rua sem um homem. Em paralelo aos duros acontecimentos do filme, ela conta uma história para acalmar seu irmão mais novo sobre um garoto que precisa derrotar um elefante que roubou todos os grãos da população.

A animação é lindamente realçada pelo contraste entre o marrom, o laranja e o cinza para retratar a beleza das cores do local, mas também a dor. Fora isso, o uso de cores fortes em momentos de sonhos, histórias e esperança. A narrativa é profunda e consegue tocar o coração do telespectador ao mostrar a perseverança de Parvana em meio a tanta angústia e injustiça. É fundamental representar a realidade da dominação do Talibã e como as mulheres tiveram sua liberdade roubada e o filme faz isso. Sua mensagem é clara e seu objetivo é representar a vida de jovens meninas que passam por situações semelhantes e criam coragem para lutar, dando ênfase no desfecho história: “Levante suas palavras, não sua voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não o trovão”.


O canto da sereia

 

Davi Miguel Mendonça Souza


Baseada no romance “O Canto da Sereia – Um Noir Baiano”, de Nelson Motta, a minissérie conta, em quatro capítulos, os bastidores da vida de Sereia, uma grande estrela da música pop e do axé, assassinada no alto de um trio elétrico em plena terça-feira de Carnaval em Salvador. 

A fotografia de “O Canto da Sereia”, assinada por Walter Carvalho, é marcada por uma saturação de cores quentes e uma ausência de tons frios. Sereia é destacada pelo estilo mais diferente de todos: utilizando apenas vestidos e saias, os figurinistas construíram para a personagem um figurino lascivo, que dá a ideia de movimento, e com muitas transparências para evidenciar a sua sensualidade. As cores azul, pérola e prata são utilizadas com predominância na maquiagem da atriz, para dar o efeito das águas do mar e sempre relacionar a personagem com a figura de Iemanjá. 

A concepção do diário de Sereia, onde ela registrava todos os fatos importantes de sua vida, levou em conta as constantes alterações de humor da personagem. A equipe de produção de arte criou páginas manchadas, preenchidas com diferentes canetas. 

A autoria do crime é revelada no último episódio da minissérie. O tiro foi disparado por Só Love, um grande amigo de Sereia. Poucos dias antes do Carnaval, Sereia revela a ele sobre sua doença terminal e pede que, como prova de amor, ele a mate, pois ela não quer sofrer em cima de uma cama de hospital e todos assistirem ela ficar debilitada. E assim o desejo dela acontece. Só Love, que aprendeu a atirar nos anos que passou no Exército, consegue uma arma contrabandeada e, do alto de um prédio, dispara o tiro que mata Sereia. 

Eu lembro de assistir essa minissérie inteira com a minha mãe em 2013 e foi uma das melhores experiências, envolvendo televisão, que tive junto dela. Como planejou Sereia, ela ficou na memória do povo como uma mulher linda, alegre e vitoriosa. 

“Foi o melhor para Sereia, meu coração está tranquilo. Eu não matei Sereia. Eu fiz Sereia viver para sempre.”