sexta-feira, 29 de julho de 2022

One day at a time

 


Hévellin Rayane Mendes Abade


Em um formato seriado, One day at a time (Netflix) é uma nova versão de um programa de Tv com o mesmo nome. Na versão atual é possível acompanhar uma família de emigrantes cubanos formada por uma mãe dedicada que é ex-soldado do exército americano, uma avó tradicional e ao mesmo tempo excêntrica, uma adolescente inteligente, amável e de opiniões fortes e um pré-adolescente carismático e muito experto. Eles vivem em um apartamento modesto e confortável o que nos leva a conhecer mais um personagem importante dessa narrativa, o vizinho intrometido que é dono do prédio e posteriormente se torna parte da família Alvarez.

Apesar de todos os personagens da série fazerem parte do mesmo núcleo cada um em algum momento desenvolve um enredo particular. Cada temporada centraliza o foco no drama de um dos personagens, sem deixar que a narrativa dos outros caia no esquecimento, dessa forma ao final de cada temporada fica uma deixa para o tema a ser tratado na temporada seguinte.

A exemplo disso pode se notar no final de uma das temporadas que tratava da reconciliação de Elena (a filha) com seu pai, que anteriormente não havia aceitado sua sexualidade, mas termina com o pai da garota que também é um alcoólatra em tratamento assim como Schneider (o vizinho) contando para Penélope (a mãe) que aparentemente o vizinho recaiu ao vício, isso acontece literalmente no último episódio da temporada e na seguinte acompanhamos Schneider ser pego bêbado por Alex (o filho) e Lídia (a avó).

O homem encontra na família Álvares uma rede de apoio para recomeçar o tratamento do zero e lidar com tudo que o levou a regredir. Pode ser concretizado que é dessa mesma forma que os integrantes da série lidam com o drama de todos os personagens, se juntando e o apoiando e no fim sempre fica um aprendizado que lhes amadurecerá em algum aspecto.

One day at a time aborda vários assuntos socialmente importantes de maneira leve, didática e divertida, contudo, a sitcom trata principalmente da importância da família, da relação de amor, união e compreensão, por mais clichê que possa ser, observar os integrantes da casa se envolvendo cem por cento para ajudar a carregar as bagagens do outro passa exatamente essa mensagem e mostra o que se espera das pessoas a quem chamamos de família e do lugar que chamamos de casa.

Glee

Beatriz dos Santos Amaral e Maurício Santa Rosa Bigois


Qual o valor de um sonho? Para os alunos do New Directions, o sonho é como um combustível na direção do que eles tanto almejam, que é viver da arte. Porém o McKinley High é o pior lugar para querer ser artista, os jovens que decidem entrar no clube do coral, já podem esperar uma raspadinha ser jogada na sua cara. Essa é uma das principais formas de bullying que os jogadores e as lideres de torcida praticam com esses alunos, e o aval vem da treinadora e vilã mais carismática da série Sue Sylvester, que tem como missão destruir Will Schuester o professor do clube e os seus alunos. 

Will encontra no clube o amor e as recordações da época em que era jovem, então ele decide ser o novo diretor, que ao longo das aulas vai se envolvendo com a vida pessoal dos alunos, sendo não apenas um diretor mas um grande conselheiro para muitos deles. Dentre os jovens temos a Rachel Berry que é odiada por quase todos os alunos, incluindo seus companheiros de coral, o motivo? Ela é chata, egocêntrica e narcisista. Mas tem um grande talento e uma voz que deixa todos encantados, encanto esse que deixa o quarterback do time de futebol Finn Hudson apaixonado por ela. 

Não podemos deixar de citar outros personagens essenciais como o Kurt, Mercedes, Artie, Tina, Puck, Mike, Sam, o warble Blaine e Quinn, Santana e Brittany, a trindade profana. Todos eles com uma característica particular que representa quem eles são, considerados pela sociedade parte de uma minoria. Eles são totalmente opostos uns dos outros mas na sala do coral se tornam uma família, com o mesmo sonho. Juntos eles competem para fazer o New directions ser campeão da competição nacional de corais. 

A primeira temporada tem histórias como, gravidez na adolescência, gravidez psicológica, sexualidade, romances e tudo isso com muita música. Tendo mais de 700 performances em seus quase sete anos de exibição, covers dos maiores clássicos dos musicais aos hits atuais. Essa escolha das músicas é uma questão importante para compor o episódio, pois eles buscam passar a mensagem certa e que represente o estado de espírito do personagem que está cantando. 

O tema principal da série é sobre amizade e união, e mostrar que todos nós temos nossa importância. Eles usam do discurso que todos somos ‘’perdedores’’ por que o bullying que eles sofrem na série, destacando essas características que para alguns é um defeito, é algo que muitas outras pessoas possuem. Existe inclusive um episódio intitulado Born This Way, dedicado somente a esse quesito, onde eles vestem camisetas com seus defeitos e aprendem a ter orgulho deles. Mostrando para o público e os fãs da série que se identificam com os personagens, que está tudo bem em ser um ‘’perdedor’’. E é nesse lugar de empatia que a série consegue relatar diversas situações da sociedade com comédia e música, e faz com que o telespectador se sinta conectado e especial. Como diz a Rachel Berry ‘’Fazer parte de algo especial, te torna especial.’’

Bruno

 


Bem-vindo, Bruno! Com Spoilers…


Gisla Eduarda dos Santos Brito


A primeira e única temporada de “É o Bruno!” (2019), da Netflix, é uma série rapidinha, com apenas oito episódios, essencial e divertidíssima para os amantes de cães. A história gira em torno de Malcolm (Solvam Naim), um homem fascinado por seu cão, e que faria, literalmente qualquer coisa, para seu melhor amigo de quatro patas, o puggle Bruno. Os dois são inseparáveis e lidam com diversas situações típicas do mundo canino: problemas com vizinhos, guerra entre passeadores, pessoas que não recolhem o cocô de seus animais, amores problemáticos, psicopatas fãs de cachorros e, principalmente (a pior coisa para a dupla) a proibição de entrar no mercado do bairro.

Malcolm dá tratamento de rei ao seu cachorro e quer garantir que todos ao seu redor tratem o mesmo com o respeito que ele merece, quase como se fosse um deus. Na série, esse sentimento só é conquistado no fim do último episódio, em que podemos ver a redenção do Brooklyn, onde os dois vivem, mas não antes de muita luta (e porrada) por parte de seu amado dono.

O último episódio da minissérie intitulado “Bem-vindo, Bruno” é a representação final do maior desejo da dupla: entrar no mercado. Esse feito, não é só um simples ato para os dois, é a prova que Bruno não é qualquer outro cão, ele “é um ser humano também” como Malcolm diz. O interessante aqui, é que além de seu melhor amigo, podemos ter outra interpretação sobre o pet, que ele seria a representação do ego de seu dono e por isso Malcolm teria atitudes tão maníacas e precisaria protegê-lo a qualquer custo, já que qualquer atentado (por menor que seja) contra o bichinho, poderia levá-lo ao fundo do poço, como visto no sexto episódio da série.

Ainda sobre o final da primeira temporada, vemos o uso de uma linguagem cômica que utiliza a ferramenta da repetição de imagens e sons, fazendo com que você não consiga parar de assistir e rir. Visualmente, a entrada no mercado é retratada como um sonho, com trilha sonora de música clássica e câmera subjetiva centrada no Bruno, afinal ele é a estrela aqui.

Os personagens que apareceram durante o decorrer da série reaparecem para reafirmar e se curvar diante da superioridade da figura canina, mas o devaneio é repentinamente cortado para uma revelação chocante: Bruno possui uma vida dupla. E esse fato é, sem dúvida, o gancho necessário que a minissérie precisava para dar aquele gostinho de quero mais. Quem era Bruno no passado? Ele já teve outro dono? Será que seu nome é mesmo Bruno? Essas perguntas por enquanto não tem previsão de resposta com a indefinição da emissora sobre a renovação da série, mas sem dúvidas, a obra é uma boa pedida para um relaxante momento de fantasia.

veneno

 




Gil Araújo


A série Veneno é dirigida pela dupla Los Javis, a trama envolve a vida e morte de Cristina Ortiz Rodriguez, La Veneno, mulher trans que ganhou visibilidade na televisão espanhola e se tornou um grande ícone da cultura LGBTQIAP+. Em paralelo, a trama envolve a descoberta de Valéria e as maneiras de como sua vida se mistura com a de Cristina.

O encontro das duas protagonistas se configura através de uma reportagem sobre a saída de Cristina da prisão e sua estadia na cidade onde Valéria mora. A jovem que indiretamente acompanhou a trajetória de Cristina na televisão fica animada com a possibilidade de se encontrar com um de seus ícones. O encontro acontece, La Veneno e sua amiga Paca já reconhecem que Valeria una de nosotras - como citado pelas personagens. A partir disso, a história das duas se entrelaçam até a morte de Cristina.

Por ser uma minissérie há a preocupação de montar os arcos narrativos e finalizá-los, nesse sentido, Veneno é marcada por dois núcleos principais: a transição de Valéria e a visita ao passado de Cristina. Com isso, há na série muitos flashbacks enquanto La Veneno narra sua história de vida para a escrita do livro, planejado por Valéria, e, dessa maneira a narrativa vai se construindo através da transição de gênero de Valéria e a visita ao passado da estrela. O episódio 2 é muito provavelmente o mais representativo desse formato narrativo, intitulado "Un viaje en el tiempo" é todo concentrado na infância da protagonista e o começo da sua jornada de se entender mulher. Junto a esse, o episódio final fecha vários arcos narrativos incluindo o de ambas protagonistas de forma dramática e tocante.

O principal conflito apresentado na narrativa é a dúvida se a trajetória de vida de Cristina está sendo contada por ela sem mentiras. Assim sendo, toda a superfície da trama se estremece quando a dúvida aparece através da personagem Valéria, que confia e possui uma relação de afeto com o ícone da TV espanhola. 

Todavia, essa dúvida apresentada no episódio 5 só reforça o potencial dramático dessa biografia e passa a admitir que mesmo não sendo totalmente verossímil, a versão de Cristina perpassa por uma carga emocional muito pesada de lidar com seus traumas passados enquanto busca alcançar os holofotes da mídia novamente. O flashback de La Veneno ainda criança demarca muito bem como a fantasia se mistura com a dureza dessa história. Durante a cerimônia de primeira eucaristia Cristina corta um pedaço de sua roupa para simular um vestido e sobe ao altar da igreja vestida dessa maneira na frente de toda sua vila, enquanto ela narra a forma de como se sentiu preenchida em fazer aquilo, é representado na tela a cauda de um pavão abrindo suas penas quando se sente vista por todos naquele momento.

Nesse sentido, a produção da série acompanha o floreamento da narração de Cristina, tendo, por vezes, aspectos fantasiosos nos flashbacks, que funcionam quase como uma alternativa de evitar a dureza de uma vivência transgênero na Espanha. Assim sendo, a produção acompanha de maneira excelente a história que o roteiro constrói.

Quanto aos personagens, há três núcleos: a família de Veneno, sua comunidade e os profissionais envolvidos em seu período na televisão. 

O primeiro aparece primordialmente nas voltas ao passado que a série realiza, geralmente reforçando um lugar de dor, maus tratos e preconceito gerados principalmente pela figura de sua mãe. 

O segundo, representa, em primeiro momento, o desdém e a competição, principalmente no ambiente de prostituição que perpassa a história, mas logo acontece a reviravolta de se tornar um local de apoio e amor incondicional. 

Por fim, o terceiro núcleo, representa a oportunidade do sucesso que foi repentina e exploratória. Dessa maneira, pode-se concluir que todos os âmbitos da vida de Cristina lhe causaram dor de algum modo. A personagem se monta diante do telespectador enquanto um indivíduo que busca por amor e aceitação e, por poucas vezes, consegue alcançá-los.

Veneno é, por definitivo, uma excelente representação de como fazer uma série biográfica, em especial, de uma pessoa transgênero, todas as três atrizes que interpretam Cristina são trangêneros como a personagem bem como a parcela majoritária do elenco, demonstrando que a representatividade não se trata somente de contar essas histórias, mas também de como elas são contadas. A minissérie espanhola é um convite para que todos possam entender a jornada de viver seu próprio gênero e as batalhas que envolvem o processo de transição através do carisma e dor de La Veneno, a bomba da espanhola.

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Trilogia da Terra

  


Uma análise comparativa dos filmes Terra para Rose (1987) O Sonho de Rose (2000) e Frutos da Terra (2008), de Tetê Moraes



Ygor Felipe Pinto


O presente trabalho tem por objetivo analisar os filmes da Trilogia da Terra: Terra para Rose (1987), O Sonho de Rose (2000) e Fruto da Terra (2008), da cineasta Tetê Morais. Para tanto, parto de uma análise comparativa entre os filmes, buscando apontar os procedimentos e elementos estéticos escolhidos pela diretora, identificando aproximações e distâncias entre as estratégias discursivas de cada narrativa. Como metodologia parto da análise pragmática de Luiz Gonzaga Mota (2013), utilizando seus procedimentos operacionais para debater a respeito dos sentidos expressados pela narrativa, levando em conta o contexto histórico de produção e as estratégias discursivas elaboradas pela diretora que dão sentido aos filmes.


Introdução

A Trilogia da Terra é uma série de 3 filmes documentais, produzidos pela diretora Tetê Moraes, em um espaço de tempo de 22 anos. Os filmes representam a história de luta do MST, sua evolução como organização e as ideologias que norteiam a lógica dos assentamentos, não o bastante, a partir do segundo filme, a diretora confronta os filmes anteriores aos personagens, medindo os efeitos recepção da narrativa do filme na vida dessas pessoas. O tempo tem papel fundamental no processo de construção discursiva, pois tanto os personagens quanto a diretora sempre estão em confronto com ele, questionando sempre sua posição anterior a tomadas de cenas.

O primeiro filme, Terra para Rose (1987) foi gravado em 1986. O filme conta a história do processo de ocupação da Fazenda Annoni, um latifúndio improdutivo de nove mil hectares, através da trajetória de Rose, uma militante histórica do MST, primeira mulher a dar à luz em um assentamento, que morreu em um suposto acidente, durante o processo de ocupação desta fazenda.

O Sonho de Rose (2000) narra a volta de Tetê Moraes aos assentamentos do Rio Grande do Sul, no filme a diretora reencontra os antigos militantes, evidenciando as transformações em suas vidas. Também encontra a família de Rose, descobre que após a sua morte, seu marido e filhos se afastam do movimento, indo morar em Porto Alegre. Lá ele reencontra Marcos, filho de Rose e primeira criança a nascer em uma acampamento do MST, que relata não lembrar da mãe e não ter sonhos. Após as gravações do filme, o MST decide conceder um lote à família de Rose, em função de sua luta e sacrifício pela reforma agrária, o que faz a família retornar aos quadros do movimento.

O último filme da trilogia é Fruto da Terra (2008), é um curta-metragem de 15 minutos, onde a diretora reencontra Marcos, na ocasião, estudante de medicina em Cuba. O filme aborda a trajetória de Marcus até chegar a universidade e o papel que os outros filmes possuem em sua vida. Também mostra um pouco das experiências de Marcos em Cuba.

Nessa análise irei aplicar o método de análise pragmática de Luiz Gonzaga Mota, para discutir a respeito das escolhas estéticas e conceituais empregadas pela diretora em seus filmes. Levando em conta que meu olhar sobre a narrativa se debruça sobre o contexto comunicacional da enunciação, onde tanto o contexto, quanto o de recepção devem ser levados em conta (Mota, 2013). Compreendendo que os discursos narrativos se constroem através de estratégias e astúcias comunicativas que decorrem dos desejos do sujeito narrador.

Ele recorre consciente ou inconsciente a operações e ardis linguísticos e extralinguísticos a fim de realizar certas intenções: as estratégias narrativas realizam-se em contextos pragmáticos e produzem certos efeitos de sentido de acordo com os contratos comunicativos e a burla consentida (e compreendida desses contratos cognitivos. A comunicação narrativa gera, assim, certo tipo de relação entre os sujeitos interlocutores: consciente ou inconscientemente o narrador investe na construção narrativa do seu discurso como um projeto dramático e solicita uma determinada interpretação de parte do seu destinatário (se essa interpretação se realizará de fato é outra questão. (Motta, 2013, p 126)

Irei adotar os procedimentos da Metodologia de Análise Pragmática consiste em um esquema de três planos de entendimento, sendo eles plano da expressão (linguagem ou discurso) corresponde à descrição, o plano da estória (ou conteúdo) equivale à análise, e o plano da metanarrativa (tema de fundo) o da interpretação. Em seguida defino os três níveis de narração, em que operam dentro das narrativas, sendo eles, narrador autor, narrador mediador e narrador personagem. Por fim iremos enquadrar os filmes nos sete movimentos narrativos: a intriga, o paradigma, os episódios, o conflito dramático, os personagens, as estratégias argumentativas e a metanarrativa.


Pano de expressão, estória e metanarrativa

O plano de expressão é como a narrativa é empregada, no caso das três narrativas analisadas, por serem filmes, é o audiovisual de não ficção (documentário).

Já o plano de conteúdo diz respeito a substância das histórias e o assuntos principais abordados, no casos dos filmes da Trilogia da Terra (1987 a 2008) é a Luta dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio Grande do Sul, focalizada na história da militante Rose, mártir na luta pela reforma agrária e símbolo do movimento e seus múltiplos (positivos e negativos) desdobramentos.

O plano meta-narrativo diz respeito aos subtemas e grandes temas empregados na narrativa, como por exemplo a “moral da história” ou quais discussões a narrativa que levar ao público. Nos filmes propostos para análise fica clara a centralidade de questões relacionadas à desigualdade no campo, concentração fundiária, falta de interesse de agentes políticos e violência policial e política, uma vez que trata da trajetória, até a pós a morte, da militante Rose, vítima de violência do campo, que faleceu sem ver seu sonho se realizar.


Níveis de narração

Como narrador-autor, temos a empresa que produz os filmes bem como suas fontes de financiamento. Quando falamos de contexto comunicacional esse narrador autor tem grande relevância, uma vez que, é quem financia e tem seus interesses expressos nas narrativas. Os filmes analisados foram produzidos pela produtora VemVer Brasil, de propriedade da diretora dos filmes, Tetê Moraes, assim podemos dizer que tanto o narrador-autor, quanto o narrador-mediador se coadunam, sendo eles a mesma pessoa. Contudo, precisamos identificar as linhas de financiamento e apoiadores financeiros das obras.

O primeiro filme (Terra para Rose, 1987) teve apoio da EMBRAFILME, FUNTEVÊ/TV-E RIO, FINEP, IBASE, SECRETARIA DE ATIVIDADES SÓCIO CULTURAIS/INACEN (Coordenadoria de mulher e cultura), FUNDAÇÃO NACIONAL PRÓ-MEMÓRIA, CEDI, CESE, MST-RS; Segundo filme (O Sonho de Rose 2000), com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura n 8.313 (MINC), BILANCE, ICCO, INCRA/PNUD Terceiro filme (Fruto da Terra, 2008) teve apoio, AECID – Centro Cultural São Paulo, CTAV – Centro Técnico Audiovisual, MINC – Secretaria do Audiovisual.

Todos os apoios partem de instituições de caráter social e financiamento público, isso deixa claro o caráter militante dos filmes, sendo essas narrativas contestadoras da situação abordada, a desigualdade fundiária e a violência política no Brasil. Olhar as fontes financiadoras é um grande passo para entender a posição ideológica e a mensagem que as narrativas empregam.

Para identificar o narrador-personagem precisamos lançar um olhar aos elementos estéticos do filme. As Sonoras: Assentados, políticos, fazendeiros, transmitem memórias e opiniões, que reforçam a mensagem do cineasta, também são utilizadas como contraponto de opiniões na montagem dos filmes.

Outro fator importante é Voz Over (voz de Lucélia Santos) narra a história contextualizando, trazendo dados estatísticos, históricos e factuais. No primeiro filme ela é um elemento organizador das ações, empregada de uma forma muito parecida com a feitura de documentários expositivos e reportagens jornalísticas. Já no segundo serve como elemento de ligação entre os episódios. Por exemplo, quando a diretora vai de um assentamento a outro, a voz over traz alguma informação histórica, ou sobre a organização do MST.

O Arquivo é um elemento fundamental, tanto para a cobertura da voz over, quanto para contextualizações históricas. A partir do segundo filme ele ganha maior relevância pois a diretora sempre usa o arquivo para fazer comparações entre o antes e depois das personagens, colocando as personagens em choque com o passado.

A partir do segundo filme a presença da diretora é mais frequente, ela interage com as personagens aparecendo em cena com eles. Dessa forma a diretora se converte em personagem participando das ações em cena.

Tomadas de cenas em som direto: Quotidiano do acampamento, registros das negociações com a polícia, palavras de ordem, cantos. Essas cenas trazem o aqui e agora das ocupações, das marchas e o cotidiano dos acampamentos. Procedimentos esse remonta o perfil de produção do cinema direto e cinema etnográfico francês.


Os sete movimentos analíticos

1º Movimento: compreender a intriga como síntese do heterogêneo

Para compreender a intriga dos filmes foi necessário compreender suas partes e como elas interagem com o todo narrativo, para tanto, fiz uma decupagem dos filmes analisados, onde os filmes foram “desmontados” para identificar como se opera a intriga dessas narrativas.

Terra para Rose (1987) Foca na personagem Rose, mostrando suas posições e luta. É dividido em capítulos que narram a luta pela desapropriação da fazenda Anoni, Mostrando o nascimento do filho de Rose, o acampamento ao redor da fazenda, a caminhada até a cidade de Porto Alegre, a volta ao acampamento, a violência policial e a morte de Rose (atropelada por uma carreta desgovernada nas proximidades de Fazenda Anoni). A voz Over guia a história, sendo reforçada pelas imagens in loco dos eventos e as sonoras dos diversos agentes envolvidos.

O Sonho de Rose (2000) é focado na relação da cineasta (personagem) com as personagens. Faz usos de flashes backs, com imagens do filme de 1987 e atuais. A voz over surge possui papel de elemento de ligação. Ao invés de capítulos temos as visitas da cineasta aos assentamentos, apresentados como cartelas. O auge da narrativa está no encontro de Tetê Moraes com a família de Rose, principalmente a entrevista com o menino Marcos, que diz não lembrar da mãe, não sonhar e querer ser pintor como seu pai, totalmente afastado do antigo sonho de sua mãe de ter uma terra para plantar.

Frutos da Terra (2008) e foca na relação da cineasta com Marcos, filho de Rose e a primeira criança a nascer num assentamento do MST. Esse filme é um resultado do filme anterior, já que após as gravações o MST, resolveu acolher a família concedendo um lote de terra, o que fez toda a família voltar ao movimento Marcus faz curso de medicina em Cuba, onde as cenas são gravadas. A voz over agora é do próprio Marcos, que fala sobre as mudanças de sua vida, sua relação com a mãe e o MST. O momento atual de Marcos é sempre contraposto com cenas dos dois outros filmes.


2º Movimento: compreender a lógica do paradigma narrativo

A lógica do paradigma narrativo muda com a produção dos filmes. Enquanto o primeiro filme é centrado na trajetória de Rose, nos filmes seguintes o foco das ações são os encontros dos personagens com a diretora, que a partir daí levanta questões referentes aos trabalhos anteriores. A personagem Rose sempre é lembrada, em arquivos e depoimentos.

Os filmes vão se desdobrando uns nos outros, Terra para Rose, a luta de Rose por terra e sua trágica morte; O Sonho de Rose, retorno de Tetê Moraes para saber se o sonho de Rose havia se realizado e como estão os outros integrantes do MST registrados em 87 e como o movimento se desenvolveu nesse período; por fim Frutos da Terra, a realização do sonho de Rose, pois sua família estava assentada e seu filho estudando medicina em Cuba graças aos convênios do MST com o estado cubano.


3º Movimento: deixar surgirem novos episódios

Terra para Rose: 6 capítulos – Prólogo (sem cartela); Pressão; A Espera; O Confronto; O Sonho; A Trégua. As cartelas são igual com a imagem de uma carroça em cima de uma monte ao pôr do sol, só mudando os texto.

Sonho de Rose: Cada assentamento é um capítulo, onde ocorrem os encontros entre a diretora e as personagens.

Frutos da Terra: Curta metragem sobre a vida de Marcus em Cuba.


4º Movimento: permitir ao conflito dramático se revelar

Foram identificados os seguintes conflitos dramáticos nas obras?

Terra para Rose: A luta pela terra, sob a perspectiva da desigualdade e violência no campo. Personagem Rose personifica esse conflito.

O Sonho de Rose: A luta pela conquista da terra pela família de Rose, que até então havia deixado o movimento, ao final do filme o MST consegue assentar o companheiro e os filhos de Rose (filme como mediação da conquista familiar) Secundário: As transformações na vida das personagens do primeiro filme.

Frutos da Terra: Como Marcus lidou com sua presença nos filmes, com a perda precoce da mãe e como chegou a cursar medicina em Cuba. A importância de um movimento social organizado e multidisciplinar e sua militância no MST.


5º Movimento: personagem: Metamorfose de pessoa a persona

São três os personagens principais da série, Rose, Marcus e Tetê Moraes, pude identificar que a história gira em torno de suas ações e memórias, norteando assim a narrativa.

Rose, militante do MST que se torna mártir no primeiro filme. A construção dessa personagem é muito forte no primeiro filme, o que a torna um símbolo do movimento por sua luta e por sua entrega. A trajetória de Rose é central para pensar a série de filmes, sob sua órbita emergem outras histórias e temas a serem debatidos.

Marcos Tiaraju Correa da Silva, filho de Rose, primeira criança a nascer em um assentamento do MST. Sua trajetória é marcada pelo afastamento do movimento quando criança e seu retorno, que fica evidente no terceiro filme, como estudante de medicina do MST. Marcus simboliza as conquistas do movimento, seu sucesso e sua internacionalização.

A diretora Tetê Moraes, que aparece em imagem e interage em cenas com as personagens, troca com elas memórias, se tornando um elemento mediador, entre as obras.


6º Movimento: as estratégias argumentativas

São muitas as estratégias argumentativas para produção de um documentário. Aqui já escrevi um pouco sobre algumas dessas estratégias como a voz over e o arquivo. Também podemos encontrar nos filmes influências de diferentes escolas do cinema documentário como o cinema direto, que privilegia os encontros entre cineasta e personagens e depoimentos “no calor do momento” (ex manifestações). Outra estratégia vem de encontro com o documentário expositivo, onde a voz over guia as ações que aparecem na tela, construindo uma relação de som e imagem, por vezes de ilustração ou de oposição argumentativa.


7º Movimento: permitir às metanarrativas aflorar

Esses filmes têm por objetivo trazer uma visão positiva do MST, não entram em muitas polêmicas em relação ao movimento, as únicas que pude identificar são relacionadas aos assentados trabalharem em cooperativas ou para si, o que não apareceu, nas sonoras, ser algo tão polêmico entre as personagens. O que os filmes procuram transmitir é a questão da desigualdade no campo, simbolizada pela ocupação de áreas como da fazenda Annoni, um latifúndio improdutivo de 9 mil hectares de terras. Desse tema afloram outros subtemas como a falta de comprometimento político e a violência por parte do estado.

Nos dois últimos filmes a diretora expande essa visão e além das questões referentes a desigualdade, levanta-se questões relacionadas ao trabalho em cooperativas e agroecologia. Trabalhar de forma cooperada e unida sob uma base de preceitos agroecológicos, ou seja, alimentos limpos que respeitam a natureza tem sido uma das principais bandeiras do MST.


Conclusões

Os filmes da Trilogia da Terra, são um conjunto de filmes que abordam a luta e a organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Podemos concluir que um filme é o desdobramento do anterior, evidenciando a busca da diretora por simbolizar o MST por meio dos personagens Rose e Marcos, mãe e filho que participam ativamente das lutas do movimento.

As propostas discursivas da diretora modificam muito a forma estilísticas dos filmes, enquanto Terra para Rose, temos um grande cuidado com planos (direção Walter Carvalho) e em registrar os vários momentos da personagem Rose e seu filho recém-nascido, com contextualizações históricas, trazendo para discussão a voz de autoridades, pesquisadores e políticos ou outros dois se baseiam nos encontros da diretora com as personagens e as mudanças em suas vidas após o lançamento do primeiro filme, assim. Terra para Rose é como um ponto de partida para as outras narrativas.

O sonho de Rose (2000) teve um papel importante para a família de Rose, já que a partir das gravações desse filme, os filhos e marido de Rose realizaram o sonho de ganhar um lote de terra no Rio Grande do Sul. Mostrando assim o potencial mobilizador e transformador que as narrativas audiovisuais possuem.

Por fim, Frutos da Terra (2008) simboliza a realização do sonho, a ascensão social de quem foi tão massacrado pela sociedade. Isso se dá pois o filme foca unicamente na relação de Marcos com os filmes realizados por Tetê Moraes, ela chega a dizer em um momento “esses são os filmes da sua vida”. Em entrevista em O Sonho de Rose, Tetê questiona Marcos se ele lembra de sua mãe, se tem sonhos e o que quer ser quando crescer, Marcos responde que não lembra nada da mãe, que não sonha e quer ser pintor como o pai. Em Frutos da Terra fica clara a mudança de perspectiva que o filme anterior gerou na vida da família do garoto.

Ainda há muito que se refletir sobre os filmes, transmito aqui uma primeira análise que será o primeiro passo para reflexões mais profundas, com base em entrevistas com a cineasta e com os personagens envolvidos.



Referências

MOTA, Luiz Gonzaga, Análise Crítica Narrativa - Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 2013, 254p

Filmes

Terra para Rose (1987) https://www.youtube.com/watch?v=1ZlqjK4K1-0

O Sonho de Rose (2000) https://www.youtube.com/watch?v=xP2Jm23RJ9Y

Fruto da Terra (2008) https://www.youtube.com/watch?v=EzGqqYJlWZI