quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

FLEABAG


 Rangel Silva 

Criada e estrelada por Phoebe Waller-Bridge, a série ganhou três Emmys na edição de 2019! Original da Amazon Prime Video e em parceria com a BCC, Fleabag é uma série de televisão do Reino Unido de comédia dramática, isso mesmo que você leu. A série fala sobre a vida de uma mulher de 33 anos com desejos sexuais apurados, que está passando por alguns problemas de relacionamento. Sim, a primeira impressão pode ser estranha mas com o passar dos episódios é possível entender a genialidade da história. 

No decorrer da série vemos momentos tão triviais da vida de forma tão leve de ser consumida, vemos momentos em família, romance, sexo, mas tudo isso não é NADA previsível, pelo contrario, os momentos podem ser tão fortes, de maneira dramática ou engraçada - a quebra de quarta parede deixa a personagem mais próxima do espectador - que te surpreenderá! Ao longo da história é possível ver momentos íntimos, incômodos e banais de forma totalmente diferente, vemos a jovem mulher em diversas situações e fazendo comentários que com certeza podem estar na cabeça de qualquer pessoa, mas não são comuns no universo tradicional do audiovisual. O interessante é que nos sentimos tão próximos a personagem sem nem saber o seu nome, a mulher é referida como Fleabag mesmo e nos fala todos os pensamentos mais íntimos que estão na ponta da língua, falas que muitas pessoas jamais teriam coragem de dizer, ela diz! 

A gente espera que a magia de produções audiovisuais estejam em uma história mística, até mesmo fictícia, ou algo bem conceituado, mas em Fleabag vemos os momentos mais reflexivos nas cenas mas comuns. Na cenas de sexo, por exemplo, sem nenhuma contextualização muito romantizada, pelo contrário, elas trazem, através da banalidade, pensamentos que muitas vezes nem são externados. E é seguindo essa linha que vemos a face "”brincalhona" da personagem ir de encontro aos verdadeiros momentos da vida, aos momentos difíceis. 

Nos momentos sinceros e diretos encontramos a comédia e nos momentos reflexivos encontramos o drama, agora ficou mais claro, não? E detalhe: a série possui 2 temporadas, cada temporada com 6 episódios de 30 minutos cada, é fácil demais de maratonar! Corre que está disponível na Prime Vídeo.

Love, Death & Robots



Pedro Henrique Cadó 

Love, Death & Robots é uma série de diversos gêneros que está disponível na Netflix desde março de 2019 e traz para o telespectador um conjunto de animações dos mais diversos estilos (dos desenhos 2D até os mais minuciosos), em seus mais diversos formatos: dos mais infantis até os ultrarrealistas. A excepcionalidade de cada animação, criadas por Tim Miller e David Fincher, é um show à parte e legitima a série como uma das bem mais trabalhadas e produzidas se tratando de animação. E apesar do seu nome, amor, morte e robôs são só três palavras-chave que dão o pontapé inicial na construção de relação e identificação entre aquele que assiste e a série em si. 

A animação traz nos seus 18 episódios diversos temas onde alguns são trabalhados de forma mais recorrente, entre eles, por exemplo, violência, percepção da realidade, o poder do Estado, a liberdade de escolhas do indivíduo, realidades alternativas, distopias, escolhas e consequências são algumas das pautas que aparecem de forma mais evidenciada. Como ela não fica presa à uma narrativa, a série tem a leitura muito fácil de ser interpretada, uma vez que cada episódio independe um do outro, então, cada história traz consigo uma moral que geralmente é configurada num mesmo padrão. Os autores conseguiram construir uma ideia de surpresa sempre nos minutos finais da série, mesmo cada episódio tendo em média 10-15 minutos, o que é bastante admirável. 

Considero, pela forma como os temas foram trabalhados em Love, Death & Robots, pelas criaturas aterrorizantes e pitorescas que a série nos apresenta em alguns episódios, pelas surpresas bizarras que ela nos mostra em outros e pela abordagem e humor sempre ácido, que a série é uma espécie de Black Mirror só que em versão animada. Dos 18 episódios, 2 ou 3 dão a impressão de repetitividade, mas isso tem mais a ver com o traço das animações do que com o recado que cada um quer dar em si. Enfim, em síntese, não importa, a série vai lhe garantir três coisas: a autocrítica, a revolta e, claro, boas risadas.

adaptação

 


Bom Dia Veronica, série da Netflix adaptada do livro homônimo, de autoria de Ilana Casoy e Raphael Montes

Artur José Francisco

Ambientada na São Paulo dos dias atuais, apesar de ter várias referências aos anos 90, narra a saga de Verônica Torres, uma escrivã da Delegacia de Homicídios, durante sua investigação para capturar um predador sexual que cooptava suas vítimas pelas redes sociais, as roubava e humilhava, o que provocou o suicídio de Marta, autora da primeira denúncia. Durante a investigação, Verônica se depara com outro caso, que parece ser somente mais um caso de violência doméstica, mas que ela descobre ser um assassino em série que usa a própria esposa para achar suas vítimas. O suspense é reforçado pelo fato de Carvana, seu chefe, fazer corpo mole em toda investigação e Anita, a investigadora chefe, sempre questionando a utilidade de Verônica, que é uma simples escrivã. E quando ela descobre a identidade do assassino em série tudo fica pior, pois a investigação para completamente. E no desenrolar das investigações, Verônica enfim descobre tudo sobre a morte de sua mãe e a tentativa de suicídio de seu pai (que também era investigador da Polícia e todos acham que está morto), culminando em suas atitudes que ficam como o suspense para a próxima temporada.

Bom Dia Verônica passa por 3 aspectos muito claramente durante toda a trama, a violência contra a mulher; dominação; e corrupção policial. O autor mostra muito bem todo o sadismo do Cel Brandão (excelente atuação de Du Moscovis) junto à Janete, sua esposa e com suas vítimas, apesar de a série deixar muito incipiente que este distúrbio foi causado por algum trauma na infância de Brandão. Os alertas de prevenção contra a violência inseridos nos diálogos também são elementos importantes.

Logicamente que a percepção de um homem assistindo a série será totalmente diferente de uma mulher e, mais ainda, de uma que tenha sofrido algum tipo de violência, mas creio que em todos fica uma sensação de que a vítima tem que procurar ajuda, mas que é muito fácil falar, nem tanto conseguir fazer, como no caso de Janete, em que o marido controlava tudo.

A protagonista da série é a própria Verônica, que também é a narradora da série; classifico como antagonistas o chefe dela, Carvana e o Cel Brandão, sendo o sagrado feminino a Janete. Excelente série que faz com que os espectadores fiquem com aquela sensação de “preciso assistir o próximo episódio”.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

novos deuses


American Gods

Walber Gomes

Deuses Americanos é um romance de Neil Gaiman passado no mundo “real”, onde Shadow Moon personagem interpretado por Ricky Whittle se vê no meio de uma Guerra dos Deuses.

A série traz como produtor executivo o próprio Neil Gaiman e demorou um tempinho para sair. A produção é impecável, o clima de road movie é mantido e o texto foi atualizado, se até os deuses evoluem, o livro também pode ser atualizado para os dias atuais, pois o texto é de 2001.

A história começa quando Shadow, é liberto da prisão alguns dias antes do fim de sua pena, pois sua mulher havia morrido. Shadow descobre que sua mulher morreu num acidente de carro com seu melhor amigo, para ser mais preciso, com o seu melhor amigo do amigo na boca, se é que me entende.

No decorrer da história, Shadow encontra um sujeito do qual recebe uma oferta de emprego como guarda-costas, o sujeito se apresenta como Mr Wednesday, seguindo a trama descobrimos que ele é Odin, o deus supremo da mitologia nórdica.

O primeiro dos deuses antigos chegou ao novo mundo, e muitos foram atrás dele. O autor, conta histórias de deuses muito desconhecidos, como Chernobog, que é uma entidade eslava que foi mencionada em textos do século 12. Na história são mostrados muitos outros deuses e também deuses novos.

Na história os deuses deixam de existir quando o último de seus fiéis morrem. Então os deuses antigos hoje em dia têm apenas uma parte de seus poderes. Como Bilquis, a Rainha de Sabá, que atualmente (na série) trabalha como prostituta e sobrevive das migalhas de adoração de seus clientes (que ela devora durante o ato sexual).

Já os novos deuses são a Globalização, Tecnologia, Mídia, que tem seu poder e alcance em ascensão. Inclusive a Mídia é interpretada por Gillian Anderson, que aparece para Shadow Moon em um videowall, interrompendo um episódio de I Love Lucy. Como Lucille Ball.

A série gira em torno de Odin que pretende reunir os deuses antigos para grande batalha contra os novos deuses, porém, os novos deuses querem trazer Shadow Moon para o seu lado, por algum motivo.

Shadow não se importa, anda sem esperanças, e sem muita pretensão de vida, depois de ter descoberto a outra face de sua esposa. Mas mesmo assim permanece leal a Odin.

A série também mostra os deuses antigos isolados, sem uma ligação direta com a história (O que particularmente eu acho excepcional), como Anúbis recolhendo a alma de uma velhinha e testando sua bondade. E fica a dúvida se todos vão se encontrar no final.

Para quem leu o livro, vai conseguir entender o que está acontecendo e acompanhar a série seguindo a história, porém se não leu não vai entender nada de primeira, mas para nossa sorte, o Shadow Moon também não está entendendo nada, e vamos descobrindo mais o que está acontecendo junto de suas descobertas, ele basicamente é um ateu vendo deuses de verdade surgirem diante de seus olhos.

Com histórias como um Jesus Mexicano entrou nos EUA como ilegal, e Anansi que chega a américa através das orações de um escravo aprisionado em um navio. 

A série segue para sua terceira temporada e é uma obra fantástica que nos leva a outro universo, mesmo se passando no nosso. É fascinante e intrigante, nos prende e nos faz querer saber cada vez mais das histórias e sobre os deuses que nos são apresentados.

o futuro presente agora

ANA LÍVIA PINHEIRO DE MORAIS


 The Handmaids Tale (O Conto da Aia) nos apresenta a República de Gilead, anteriormente o território dos EUA, após o país sofrer uma revolução teocrática e ser governado por radicais cristãos. Nessa sociedade, ambientada em um possível futuro de nossa História, existe um nível considerável de contaminação e poluição atmosféricas; um certo desprezo por religiões e, acima de tudo isso, uma condição de infertilidade que fez com que a taxa de natalidade da população caísse a níveis próximos de zero. Regidos por interpretações exageradas do Velho Testamento, os novos governantes excluem as mulheres da vida em sociedade e as dividem em castas funcionais: as Marthas, são pelos serviços domésticos; as Esposas, administradoras do lar; as Aias, como reprodutoras; e as Tias, senhoras que educam as mulheres para a servidão e submissão. 

Sem direito a opinar, de se expressarem ou mesmo de serem alfabetizadas, as mulheres estão no nível mais baixo da sociedade. Imersa nesse contexto, Offred é uma aia que vai nos contando sua rotina na casa do Comandante, tendo ali a estrita função de lhe dar um filho. O propósito da série não é simplesmente retratar a realidade do mundo, mas apresentar uma perspectiva de futuro assombrosa, ao apresentar uma realidade onde o patriarcado e o radicalismo triunfam em pleno ocidente. 

A violência e opressão sofridas por Offred e todas as aias, ainda que não aconteça em escala governamental, é uma analogia ao que ocorre em muitos lares e relacionamentos abusivos – onde os homens ainda persistem em subjugar ao mulheres, simplesmente por serem aquilo que são. Impondo-lhes uma realidade de terror e escravidão social. 

Com tanto fervor e punições religiosas, com tanta morte em nome de Deus, com tanta repressão de liberdades, sexualidades e todo tipo de prazer em nome de uma divindade que parece cega a tantas atrocidades, esses indivíduos ainda têm tempo para altas doses de hipocrisia. Exatamente como acontece com todo o escopo religioso contemporâneo que se pauta da fé para interferir na construção do Estado ou de uma Constituição. 

The Handmaid’s Tale é uma série que nos mostra o que uma sociedade pode se tornar quando uma camada extremista de uma religião (qualquer religião!) assume o controle das coisas e passa a dizer o que deve ou não deve ser feito. O alerta, porém, é muito mais para as coisas em gestação do que para coisas seu resultado final. Um cenário sociopolítico desses não se faz da noite para o dia. Muitas interferências, muito ódio à sexualidade alheia, muita tentativa de suprimir direitos e barrar coisas que as pessoas queiram fazer de suas próprias vidas, são visíveis antes mesmo do golpe final. E aí está o alerta. Em nosso mundo, temos inúmeras dessas coisas acontecendo, em estágios e lugares diferentes. O nosso pedido é que este tenebroso fruto jamais seja aberto pelo Senhor. Sob o seu olhar.