Entre o hype e a realidade: o desfecho de Stranger Things
Maria Eduarda Pereira da Silva
Stranger Things é uma série da Netflix criada pelos irmãos Duffer que mistura ficção científica, suspense, terror e aventura. A história acompanha um grupo de amigos da cidade de Hawkins que, após o desaparecimento de um deles, encontra uma garota perdida na floresta e começa a enfrentar ameaças ligadas ao Mundo Invertido. Ao longo de cinco temporadas, a série conquistou milhões de fãs por seus personagens carismáticos, pela ambientação nostálgica, pela capacidade de equilibrar momentos emocionantes e assustadores e pelo fato de seu elenco principal ser formado por crianças.
Entre os aspectos mais positivos da obra estão a fotografia, os cenários e a trilha sonora. A série recria os anos 1980 com riqueza de detalhes, tanto nos figurinos quanto nos ambientes. A fotografia utiliza tons escuros e efeitos visuais que ajudam a construir o clima de mistério. Já a trilha sonora se tornou uma das marcas da produção. Quem não assistiu várias vezes à cena em que Max escapa de Vecna ao som de “Running Up That Hill”, de Kate Bush, ou à de Eddie tocando “Master of Puppets”, da banda Metallica, no topo do trailer no Mundo Invertido? Esses momentos, além de combinarem música e narrativa de forma marcante, também serviram como porta de entrada para novos fãs por meio dos recortes compartilhados nas redes sociais.
Além do entretenimento, Stranger Things aborda temas como amizade, amadurecimento, luto e coragem. A série também reflete o poder da nostalgia na cultura atual, utilizando referências ao cinema, aos jogos e à música dos anos 1980 para criar identificação com diferentes gerações. Esses elementos ajudaram a transformar a produção em um fenômeno cultural que ultrapassou os limites dos streamings.
Apesar de todos os seus méritos, a quinta temporada representa o ponto mais fraco da série. Depois do sucesso da quarta temporada, que já apresentava um desfecho forte e emocionante, os irmãos Duffer fizeram o público elevar ainda mais suas expectativas para o encerramento da história. Na minha opinião, a temporada final já começou um pouco saturada pelo excesso de publicidade, pela divisão em três partes e pela avalanche de teorias e reações que dominaram as redes sociais. Parte dessa expectativa foi criada pela própria produção, mas também pelos fãs — incluindo eu mesma, que passei meses acompanhando cada novidade e especulação sobre o desfecho.
A temporada final começou de forma promissora, com momentos importantes de cair o queixo. No entanto, esses acontecimentos acabaram se tornando pontos isolados dentro deuma narrativa que perdeu força ao longo do caminho. A dependência excessiva de alguns personagens e a repetição de situações, como mais uma tentativa de sacrifício de Hopper, diminuíram o impacto da história. Durante cinco temporadas, acompanhamos personagens que deixaram de ser crianças que precisavam de proteção para se tornarem protagonistas capazes de proteger os outros. Por isso, algumas escolhas do roteiro parecem ignorar parte desse desenvolvimento. Além disso, o encerramento deixou questões importantes sem uma conclusão satisfatória. O sacrifício de Eleven, personagem central desde o início da série que merecia mais.
Também causa estranheza o fato de Joyce e Hopper nunca descobrirem a verdadeira identidade de Vecna, apesar de estarem diretamente envolvidos na luta contra o Mundo Invertido. Outra dúvida que permanece é o desaparecimento dos demogorgons durante a batalha final, já que essas criaturas foram apresentadas como uma das maiores ameaças da série ao longo de toda a narrativa. O resultado foi uma temporada que, embora tenha momentos interessantes, apresentou soluções que não tiveram o mesmo impacto dos anos anteriores. Para muitos espectadores, a quarta temporada possuía muito mais força para encerrar a série do que a quinta.
A grande expectativa criada em torno do final acabou aumentando ainda mais a decepção de parte do público. Uma prova disso foi a popularização da chamada “teoria do nono episódio”, criada por fãs que acreditavam que haveria um capítulo secreto capaz de responder às questões deixadas em aberto. O surgimento dessa teoria demonstra como muitos espectadores sentiram que o encerramento foi insuficiente para concluir uma história construída ao longo de quase uma década. Dessa forma, embora Stranger Things continue sendo uma das séries mais marcantes dos últimos anos e uma das minhas favoritas, sua temporada final deixou uma sensação agridoce, ficando abaixo do nível que a própria série havia estabelecido ao longo de sua trajetória.

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