terça-feira, 9 de junho de 2026

BACKROOMS

Lívia Matos Nery de Araújo Rodrigues


Já imaginou assistir um filme onde sua premissa nasce nos fóruns da internet? Backrooms (2026), dirigido por Kane Parsons e distribuído pela A24, é a adaptação em longa-metragem da série de curtas virais que o próprio Parsons publicou no YouTube em 2022, ainda adolescente, e que se tornou um dos fenômenos de horror do meio digital. O filme acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), dono de uma loja de móveis em crise após um divórcio, e Mary (Renate Reinsve), sua terapeuta, que descobrem no porão da loja um portal para uma dimensão de corredores infinitos e amarelados, os chamados Backrooms, de onde precisam encontrar uma saída enquanto enfrentam os perigos e as regras incompreensíveis deste plano alternativo.

Apesar de todo seu sucesso, alguns problemas estruturais ficam marcados no filme. O roteiro de Will Soodik por exemplo, mesmo que narrativamente bem estruturado, deixa a desejar na construção dos personagens. Clark e Mary existem mais como funções narrativas do que como seres humanos convincentes, e o espectador raramente sente o verdadeiro peso do que está em jogo para eles. 

Não existe uma conexão profunda entre espectador e personagens. O filme também pressupõe familiaridade com a mitologia das Backrooms, sua origem em fóruns e creepypastas, deixando boa parte do público sem ancoragem emocional ou narrativa. Porém, os méritos de Backrooms são consideráveis e, no fim, sobrepõem-se às suas fragilidades. A construção da atmosfera é o ponto mais alto da obra, Parsons demonstra uma proficiência técnica incomum para um diretor estreante, e o cuidado estético com os cenários resulta em imagens genuinamente perturbadoras. A fotografia de Jeremy Cox merece menção especial, a escolha por enquadramentos assimétricos, a forma como a luz fluorescente corrói as sombras e a textura quase analógica conferida aos corredores criam uma experiência visual sufocante, que transforma o cenário em personagem.

Mais do que um horror convencional, o filme funciona como alegoria quando visto com atenção. O conceito de no-clipping, termo da computação gráfica que designa ultrapassar oslimites físicos entre objetos sólidos, é usado como metáfora de dissociação: Clark, um homem que vendeu a vida inteira objetos que organizam o espaço doméstico, literalmente escorrega para fora da realidade quando seus próprios marcos internos entram em colapso. Os corredores sem fim podem ser interpretados como a externalização de uma mente que perdeu seus pontos de referência. Nesse sentido, o filme funciona melhor como terror psicológico do que como horror. É o trabalho de um cineasta talentoso que já mostra, quadro a quadro, que veio para ficar.

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