segunda-feira, 18 de novembro de 2019

jornalismo visto pelo cinema 2


Análise do filme “Todos os homens do presidente”

Júlio Marcel Castro de Albuquerque

O longa-metragem Todos os homens do presidente”, de 1976, dirigido por Alan J. Pakula, conta a história real dos repórteres Robert Woodward e Carl Bernstein – que trabalhavam no jornal The Washington Post – e investigaram a fundo um roubo ocorrido na sede do Partido Democrata americano, caso que no futuro ganharia proporções gigantescas, acarretaria no afastamento do então presidente Richard Nixon, e assim seria conhecido como “Caso Watergate”.

Retratando detalhadamente vários processos jornalísticos os quais os profissionais tiveram que realizar, o filme mostrou de forma muito clara toda a dificuldade e todos os riscos que Robert e Carl passaram para poderem elucidar todo o caso. Além disso, também foi mostrada a importantíssima fonte oculta que os informava e os atualizava algumas vezes durante o decorrer do longa.

Uma observação interessante sobre os repórteres é que eles se puseram a elucidar o caso enfrentando todo o tipo de adversidades, tais como: o descrédito que o editor-chefe do The Washington Post estava dando aos seus textos, a dificuldade de obterem informações totalmente corretas – tendo que confiar na fonte anônima –, como também no próprio risco que estavam correndo ao se envolverem em assuntos tão delicados e com pessoas tão importantes dentro do governo.

Além disso, é mostrado o poder e a influência que o jornalismo possui nos rumos que a sociedade toma, principalmente pela força que ele exerce na política. Um presidente americano foi deposto de seu cargo, sendo este o mais importante dos Estados Unidos e do mundo, por causa de matérias publicadas em um jornal. Foi um fato que mudou um país inteiro.

Enfim, por conter todos os pontos supracitados e mostrar ao telespectador um ótimo exemplo de como fazer uma boa apuração dos fatos, “Todos os homens do presidente” também cumpre o papel de ensinar jornalistas que estão no início de carreira – ou ainda pessoas as quais ainda irão se tornar – muitos processos e singularidades da profissão.

jornalismo visto pela cinema 1

RESENHA (Filme The Post)

Marcelo F. do Nascimento

O filme The Post, com roteiro de William Goldman e estrelado pelos talentosos Robert Redford Dustin Hoffman retrata o trabalho jornalístico investigativo e as dificuldades e riscos enfrentados pelos jornalistas quando do envolvimento de figuras políticas e instituições.
    
A trama, baseada em fatos reais mostra a derrocada do governo Americano, na figura do então presidente Richard Nixon, iniciada depois de que informações secretas do governo foram obtidas por Robert Woodward e Carl Bernstein,  uma dupla de jornalistas investigativos que trabalhava para o jornal Washington Post.. Iniciou-se a partir dai através do trabalho jornalístico investigativo a descoberta de uma trama inimaginável existente nos bastidores do governo que ia da espionagem a lavagem de dinheiro.

Apesar das sanções impostas pelo governo americano e as dificuldades enfrentadas pela dupla de jornalistas, eles conseguem levar ao conhecimento do público fatos que colocaram em discussão de como são tratados os assuntos de governo e a verdade factual na solução de um caso extremamente polêmico e obscuro.

O filme nos remete as nuances do cenário político brasileiro atual, onde apresenta situações assemelhadas dentro de um contexto ligado diretamente a última eleição presidencial, a partir da divulgação de conversas interceptadas que revelam o envolvimento de um ex-juiz e um membro do ministério Público Federal, que mostra uma suposta trama para desestabilizar a candidatura de um dos concorrentes, que se mantida, poderia dar uma configuração totalmente diferente ao cenário hoje existente.

A trama revelada através das conversações envolvendo os dois membros do sistema judiciário, fez com que se levantassem dúvidas se houve ou não um plano orquestrado por um sistema político que visava à ascensão ao poder e que utilizou mecanismos bastante contundentes para atingir seu objetivo.

De fato, o que se pode ter por certeza é que a imprensa sempre estará presente e atuante para que a democracia seja preservada.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

beco em festa

A RECUPERAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO DE NATAL POR TRÁS DOS GRAFITES

Novos painéis de grafites fazem parte do projeto de revitalização do centro histórico da capital potiguar, na Cidade Alta. Mas é preciso ir além, através de becos e vielas, para compreender como o reaquecido ponto histórico, cultural e agora turístico ressurgiu da lama.

Por: Heillysmar Lima, Jefferson Bernardino e Jônatas Saturnino


O PROJETO VIVA O CENTRO

Insatisfeito e inquieto com a negligência do poder público, o deslocamento do centro  comercial  para shoppings da zona Sul e da pouca valorização por parte da população daquele que um dia já foi o “Grande Ponto”, principal espaço comercial e cultural de Natal através das décadas do século passado, o comerciante Delcindo Mascena uniu forças aos poucos com outros comerciantes da Cidade Alta com a finalidade de restaurar e dar nova vida aos espaços, atraindo mais clientes e criando novas áreas de consumo de arte e lazer. A partir dessa mobilização, nasceu o projeto Viva o Centro, em 2018, com o propósito de resgatar a cena cultural de um dos mais antigos bairros de Natal, e do seu comércio. Sem falar no turismo local, que se resume a praias, às bordas da cidade. Delcindo, liderando o projeto, correu atrás das autoridades competentes e após se reunir com elas conseguiu garantir iluminação, limpeza e segurança para o nascedouro da noiva do sol. O projeto chamou a atenção de instituições como o SEBRAE, a Fecomércio, a Câmara de Dirigentes e Lojistas (CDL), FIERN. A partir de novas reuniões e dos riscos para o comércio e o lucro na região, aderiram à ideia dando suporte em uma ação que envolve de 250 a 300 empresários no momento, além dos moradores do centro, dando um tom apenas não somente cultural ao projeto, mas financeiro.

Delcindo conseguiu levar de volta para o centro o Natal em Natal, incluí-lo na agenda de shows e atividades comemorativas. O prefeito Álvaro Dias colocou nas mãos do projeto a responsabilidade de planejar e administrar os festejos. Ao serem perguntados sobre quais artistas queriam para se apresentar nos eventos, disseram que além dos artistas locais, desejavam Fagner, Waldonys e Alexandre Pires. O prefeito lhes deu os três.

Em parceria com uma empresa de turismo, que pôs o Centro da cidade em sua rota, o projeto atrai dezenas de turistas por dia. A resposta sempre é positiva.
Um outro projeto, da prefeitura da cidade juntamente com a SEMURB e a STTU, visa a construção de um calçadão ligando a catedral nova à catedral velha, com praças em seu percurso. O projeto de restauração da fachada e da arquitetura neoclássica dos prédios já começou. 

Em relação ao Alecrim, há uma parceria do projeto Viva o Centro com a Associação dos Empresários do Bairro do Alecrim (AEBA) e também com representantes da Ribeira para novos trabalhos de revitalização.

Segundo ele, houve o início de um diálogo com a Secretaria Municipal de Cultura (FUNCARTE) mas não deu em samba, assim como com a Associação dos Amigos do Beco da Lama e adjacências (SAMBA), segundo ele. No Beco da Lama, não houve incentivo por parte da prefeitura e todo o processo de revitalização foi feito por conta própria e financiamento dos envolvidos, apenas não tendo que arcar com a tinta, única oferta e auxílio da Prefeitura. No Espaço Cultural Ruy Pereira, foi diferente. A prefeitura se interessou em restaurar o local. Segundo Delcindo, a revitalização significa “trazer de volta a nossa base cultural, a estrela onde brilhou Natal. E a partir do momento em que conseguirmos revitalizar cultural, urbana e comercialmente, a estrela volta a brilhar para o mundo”. Para ele, não há futuro sem cultura.

Atualmente 600 vagas estão abertas para oficinas, através da FUNCARTE, ministrada por artistas dos mais diversos tipos de arte, em todas as zonas da cidade, com inscrições abertas em outubro. Cerca de quarenta editais estão abertos.

A REVITALIZAÇÃO ATRAVÉS DOS SPRAYS

Arte de rua e de estética urbana, inicialmente marginalizada por estar associada à periferia e ainda vítima de preconceito por parte de outros artistas e pela população, o grafite nasceu a partir de uma necessidade de comunicação, representação e afirmação artística; e registro de ideias de uma camada social até então silenciada. Vindo dos guetos norte-americanos para ganhar as ruas e becos do Brasil, e consequentemente de Natal.

A ideia de revitalizar o Beco da Lama partiu de Delcindo Mascena, que viajou até São Paulo para visitar um amigo que possui quatro bares na Vila Madalena, nas vizinhanças do Beco do Batman. Pediu ao amigo para que o apresentasse o artista responsável pelas artes do local. Conheceu o artista de renome internacional Dicesarlove. Após um diálogo, em que afirmou não ter dinheiro para pagar o cachê dele, o artista quis apadrinhar o beco e pediu apenas as passagens, hospedagem e alimentação.

Um dos artistas locais responsáveis pela grafitagem dos espaços culturais revitalizados, Miguel Caracará, conta que o processo criativo começou a partir de uma troca de ideias com Dicesar, a partir da necessidade de usar os espaços como galerias de arte a céu aberto para os artistas que trabalham com o grafite em Natal.  O primeiro passo foi a pesquisa de locais nos espaços onde o trabalho pudesse ser desenvolvido. O Beco da Lama foi o primeiro contemplado e na sequência outros espaços como o Ruy Pereira. A temática abordada primeiramente no beco foi a da figura de Câmara Cascudo e logo após, eles tiveram uma liberdade maior para criar, a partir de sugestões e propostas partindo do seu trabalho. A partir de uma curadoria, alguns artistas foram selecionados após terem os seus projetos apresentados, com remuneração e estrutura garantidas, com total liberdade para usufruírem de suas técnicas. “Já existia uma cena e um mercado para o grafite aqui e estava faltando apenas fomentação e na medida em que começou a aparecer, foi melhorando para todos que trabalham diretamente com a arte do grafite aqui na cidade”. Foram em torno de quarenta e oito artistas.

A presença da cultura popular nas gravuras se deu a partir de uma influência local, nordestina, e usada por quase uma unanimidade de artistas grafiteiros da região, descrita por Miguel como uma riqueza cultural e popular, algo comum dentro do processo criativo de artistas nordestinos.

A revitalização e grafitagem de outros pontos da cidade, como bairros periféricos, ainda estão sobre planejamento, dependendo de alguns investimentos e que serão grandes painéis, com um significativo impacto visual. O de Areia Preta ainda será inaugurado.

O BECO DA LAMA

A estreita rua Vaz Gondim já foi ponto de encontro de intelectuais, boêmios e artistas da cidade. Recebeu esse nome pela quantidade não só de lama mas também de excrementos humanos encontrados por lá. Nas últimas décadas, era um espaço decadente, desvalorizado, com seus bares frequentados ainda por quem buscava por uma boa farra, mas seus canteiros por dependentes químicos e prostitutas, em uma degradação física e moral. O Beco da Lama ganhou nova cara, novo significado e floresceu como um espaço de lazer novo para a população e de manifestação da cultura popular potiguar. Diariamente, rola um sambinha por lá a partir das três horas da tarde, indo até o anoitecer. Além dos grafites e bares, também há outros tipos de comércios, como uma loja de produtos religiosos onde a pomba-gira está ao lado de Maria e Buda as observa no canto oposto da entrada da loja. A programação cultural agora envolve eventos no colorido e grafitado local como o Samba no Beco, o Festival Gastronômico do Beco da Lama – Pratodomundo e o mais recente Festival Literário do Beco da Lama – FliBeco e a Feira de Quadrinhos. Se tornou um forte espaço de turismo, comércio (comidas e bebidas, livros, discos) e produção artística e criativa. No bar da Nazaré, nunca faltam uma gelada, um papo descontraído e um bom petisco.

Porém, há críticas ao projeto por parte da Diretora da Associação dos Amigos do Beco Maria Gorette Barbosa. Em entrevista ao Brasil De fato, a dona do bar mais famoso do Beco, Nazaré, disse que não houve nenhum incentivo e apoio por parte das autoridades. “Eles colocam banheiro químico e iluminação para o samba do sábado [do projeto Viva Centro, de comerciantes do bairro], mas na quarta-feira retiram e não podemos usufruir dos serviços.”. Um outro comerciante do local, um açougueiro, alegou que a movimentação nos bares aumentou e o faturamento também.  Disse que as entidades ligadas ao Viva o Centro estiveram no local para discutir e conversar sobre o projeto com os comerciantes do beco. Muitos bares perigavam até fechar. Para outros tipos de comércio, a situação continuou na mesma. O preconceito da sociedade com o reduto cultural também diminuiu.

Os artistas também fazem um balanço positivo por terem um novo espaço para mostrarem o seu trabalho e lucrarem com isso, dando um maior alcance a eles não só em termos de visibilidade mas de expressividade.  Ou para que os visitantes conheçam as batucadas do bar da Nazaré que até então eram abafadas pela precária estrutura e pela discriminação para com o espaço e o que era produzido nele. “Eu tenho fé em Deus que quanto mais a gente trabalha, mais vai dar certo o nosso trabalho. Porque os artistas da terra não tem nenhum valor não. Só quem lembra de nós é Deus. A prefeitura e o Estado não ajudam em nada. Eu não tenho nem carteira de artista”, protestou um deles.

ESPAÇO CULTURAL RUY PEREIRA E O ZÉ REEIRA

No espremido beco, encostado ao IFRN da Cidade Alta, boêmia rua Professor Zuza, nas subidas e descidas da Avenida Rio Branco quem manda é o Zé Reeira, uma figura já bastante idosa mas rodeada por amigos que frequentam diariamente o seu bar, de grande vitalidade e alegria. A revitalização chegou até lá. Com grafites espalhados multicolores e que representam uma certa quantidade de personagens, e uma tenda com mesas e cadeiras, Zé Reeira viu o seu bar, local de uma vida inteira, ganhar nova vida e ser valorizado, ganhando até nova e eclética clientela. “Quando eu abri o bar, essa rua ainda era aberta. Depois, a câmara tombou. Depois disso, o espaço melhorou. O nosso interesse é sempre na área cultural. Começou com feirinhas de artesanato, de legumes e verduras. Ainda temos algumas feiras aqui. Muito do que não tem espaço no IFRN é realizado aqui e o espaço a cada dia fica mais famoso. Eu sou um felizardo do projeto mas antes era eu mesmo que bancava tudo”. Ele é esperançoso em relação ao futuro do espaço, se palitando pelo projeto de revitalização. A todo o tempo, cobre o prefeito Álvaro Dias e sua gestão de elogios.

Um homem embriagado, um dos seus melhores amigos e mais assíduos frequentadores (todos os dias), não gostou da nova decoração do local por achar que as novas imagens são “muito pesadas” e que não representam a cultura popular. Bêbado, pergunta várias vezes o significado da palavra “revitalização” e acha que o trabalho é apenas uma maquiagem.

Todas as sextas e sábados tem uma roda de samba comandada pelo músico Debinha e também o Serestas ao Luar. A boa comida também atrai o público nos finais de semana. O local ainda passa por obras. A revitalização preservou mas ao mesmo tempo jogou o passado e a sua pintura antiga para a nova linguagem e estética do grafite.


Também vale a pena passar pela Casa do Cordel, localizada na rua Vigário Bartolomeu. O coração de Natal pulsa, de maneira escondida e desvalorizada, em seu berço ao som do coco de roda.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O jornal do Beco


O BECO:  LOUVORES AO BECO DA LAMA EM PÁGINAS AMARELADAS

Jefferson Bernardino da Silva

Era o ano de 2005 quando a Sociedade dos Amigos do Beco da Lama e Adjacências (SAMBA), através de uma iniciativa de Alexandre Eduardo Garcia, o Dunga, fundou o jornal O Beco, que não passaria de duas edições, para divulgar eventos culturais e o amor ao beco em verso e prosa. O periódico mensal em formato berlinense, impresso em parceria com a gráfica do Departamento Estadual da Imprensa, ou a tradicional sede do jornal A República, é uma ode ao beco da lama muito antes da sua revitalização e glamourização turística, mais de uma década antes de o poder público e o interesse privado chegarem por lá. A primeira edição saiu em 1º de março daquele ano.

O custo era baixo e simbólico: apenas um real. Uma forte expressão jornalística de resistência e valorização cultural. Logo na sua primeira página, já deixa claro aos desavisados de que não se trata de um jornal convencional, comercial, nos moldes do mercado da imprensa em massa, com espaços bem delimitados e planejados para abrigar a publicidade que os faz lucrar. É através da frase “cultura, poesia e humor” no cabeçalho que anunciam que o jornal não tem finalidade informativa tradicional mas cultural. Os anúncios são poucos e estão no rodapé. Desde bares e restaurantes a anúncios de políticos que nos insinua terem custeado ele de alguma maneira.

A primeira página não traz manchetes e suas chamadas espremidas, não segue um padrão gráfico e lógico de diagramação. Tem uma identidade visual simples. Cada edição é marcada por uma cor: a primeira verde e a segunda azul. É um jornal no melhor estilo artesanal, independente e alternativo. A primeira edição era uma tímida tiragem de quatro páginas preenchidas por poemas, crônicas e artigos, uma compilação deles que também estão presentes na segunda edição. Lembra muito mais um manifesto do que um jornal com suas pirâmides invertidas. O nariz de cera francês encontra o provincianismo e a simplicidade potiguares, que predomina, sem se apegar ao lide quase inexistente até nos textos com um tom mais informativo.

O seu objetivo é resgatar memórias, personagens que por lá passaram e locais (como o bar de Nazi) em sua curta extensão. De cara, o primeiro texto tem similaridades com um editorial em forma de crônica e escrito por Berilo Wanderley. Lhe ressuscitam, resgatam a sua pena para que descreva na crônica “Beco da Lama” a sua melhor definição. O nostálgico jornal começa a trazer na segunda edição, em textos literários e saudosistas, novidades. O jornal experimental vai tomando novas formas e se aventurando por novos gêneros textuais jornalísticos.  Há uma entrevista com o gerente cultural da SEBRAE na época Eduardo Viana. Uma ilustração de Franklin Serrão em uma coluna satírica chamada “Close Resenha”. Um perfil de Fernando Kallon, uma coluna sobre a Rua da Conceição escrita por Jeane Nesi. Nota-se que o jornal vai abarcando textos mais objetivos também, apesar da linguagem descritiva, relatorial, um típico texto historiográfico. Um artigo de Clotilde Tavares que naquela época já reivindicava políticas culturais para o Beco. Sobre o dia da poesia e um evento promovido em sua comemoração, há um texto de colunismo social sobre os que compareceram. Mais uma entrevista em formato pingue-pongue. As perguntas se misturam com as respostas assim como as notícias se misturam com as poesias, sem muita divisão. Na Beco Express, o informativo é em forma de pequenas notas que muito lembram a coluna Roda Viva de Cassiano Arruda Câmara. O aspecto é um pouco confuso, não segue regras. A edição é encerrada com uma foto na sessão lambe-lambe, em que um fotógrafo não profissional, Hugo Machado, retrata o homem sertanejo em seu ambiente árido.

Dunga tem projetos para trazer o jornal de volta, surfando na onda que evidencia o Beco no momento, mais do que apropriado. Descontinuou o antigo porque não aceitou que apenas o seu jornal fosse impresso gratuitamente. O Beco morreu por falta de democracia. Se recusou a ser estrela solitária em meio a tantos locais e manifestações culturais de seus companheiros.

Hoje, as páginas estão encardidas. Mas a arte popular, expressão mais visceral de uma sociedade; a magia dos recantos, sujos de lama ou não; e encantos dos boêmios bêbados a soluçar poesias não envelhecem.


LEIA + RM: http://almadobeco2.blogspot.com/2007/11/
https://papocultura.com.br/tag/beco-da-lama/ e
http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/uma-futura-samba-para-o-velho-centro/315083

The Bang-Bang Club

Repórteres de Guerra

Retratos da miséria e violência que marcaram o fim do Apartheid


Gilvanise Oliveira

O filme Repórteres de Guerra, baseado no livro biográfico de autoria de João Silva e Greg Marinovich, “The Bang-Bang Club: Snapshots from a Hidden War”, conta a história real de um grupo composto por quatro jovens fotógrafos, juntando-se aos autores do livro Ken Oosterbroek e Kevin Carter, que tinham como tarefa cobrir os conflitos armados entre o Congresso Nacional Africano (CNA) e o partido separatista zulu Inkatha, que marcaram os últimos anos do Apartheid.

Dirigida por Steven Silver, a obra apresenta o lado sombrio da rotina do fotojornalismo. A busca pela “foto perfeita” alimenta a competição entre os quatro amigos, que não medem esforços para cumprir o que lhes é pedido, e seguem adentrando conflitos, fotografando tudo que veem pela frente. É preciso fotografar de perto a morte, a dor e o sofrimento. Trabalhando para jornais e agências internacionais, Greg, João, Ken e Kevin arriscaram suas vidas para mostrar ao mundo o que estava ocorrendo na África do Sul, em um dos períodos mais violentos de sua história.

Supostamente isentos de medos, os fotógrafos seguiam suas vidas normalmente, mas as memórias de suas coberturas os perseguiam silenciosamente, afinal é inimaginável um ser humano presenciar tantas situações trágicas, pessoas sendo mortas com golpes de facões, queimadas vivas, ou atingidas por disparos de armas de fogo e não absorver nada do que viu e registrou através das lentes de seus equipamentos.

Uma sequência de fotos de um homem identificado com Inkatha, queimado vivo por integrantes do CNA rendeu a Greg o prêmio Pulitzer no ano  de 1990. Kevin Carter recebe o mesmo prêmio, em 1993, com a imagem feita no Sudão, que mostra uma criança subnutrida sondada por um abutre que, aparentemente, aguardava sua morte. Esta imagem ganhou o mundo, mas repercutiu negativamente a imagem do fotógrafo, que ficou sem respostas ao ser questionado publicamente o que havia feito para salvar a criança da foto.

O longa-metragem traz à luz a problemática racial e, sobretudo, a questão da ética no jornalismo e suas nuances. Não se trata de pesar se é mais importante fazer um registro que lhe renda prêmios, ascensão na carreira e status ou salvar uma vida. Em um cenário de guerra é praticamente impossível optar por ajudar as pessoas envolvidas nos confrontos. Mas há situações conflitantes, como o caso que rendeu o prêmio Pulitzer a Kevin Carter. O ponto central é o posicionamento da imprensa diante de situações de extremo caos e a forma como retrata os confrontos. Além da determinação e ousadia  dos profissionais, destaca os impasses e os questionamentos éticos da atuação fotojornalística.

Ken Oosterbroek morreu após ser alvejado pelos soldados da recém-criada Força Nacional de Manutenção da Paz. Na ocasião Greg Marinovich também ficou ferido,  mas sobreviveu. Kevin Carter suicidou-se pouco tempo depois. João Silva estava a trabalho no Afeganistão quando pisou em uma mina e perdeu as duas pernas. Com a morte de Ken e Kevin o Clube Bang-Bang se desfez, mas continua sendo referência em fotografia de guerra e, sobretudo, para a história da fotografia na África do Sul.

“Às vezes nos sentíamos como abutres. Pisamos em cadáveres, metafórica e literalmente, e fizemos disso nosso ganha-pão. Mas nunca matamos ninguém. Acredito que salvamos algumas vidas. E talvez nossas fotos tenham feito alguma diferença”, conclui Greg Marinovich.