
Mariana Gonçalves Pereira
Quando morremos, quem conta a nossa história?
Essa é a pergunta que nos guia pela narrativa de Hamilton, o musical mais notável que a Broadway recebeu na última década. A fama é tanta que ele foi até gravado profissionalmente e disponibilizado nas plataformas digitais para que os fãs pudessem experimentar um pouco do teatro dentro da própria casa, e a produção conta até com simulação de intervalo entre os atos.
Mas afinal, o que há de tão especial em uma obra sobre a vida de um dos pais fundadores dos Estado Unidos? E adendo, não estamos falando de George Washington ou Thomas Jefferson, mas sim de um certo Alexander Hamilton, já ouviu falar?
Lin Manuel-Miranda, compositor do musical, encontrou uma forma de fazer arte com algo que geralmente leva as pessoas a dormir durante a aula de história. A narrativa acompanha a ascensão e queda de Alexander Hamilton, um imigrante que chegou a ser secretário do tesouro dos Estados Unidos e um dos autores da constituição deste país. A chave para o acerto do musical está grandemente na vida do próprio Alexander - de um sem ninguém em um país de terceiro mundo para um dos homens mais poderosos do país que ajudou a construir. No entanto, a principal chave para garantir que essa obra fosse interessante e fizesse sentido era o talento de Lin, e ele tem de sobra.
A história é contada apenas através de músicas - se existem falas, elas estão recheadas de rimas para se encaixar na canção. E não apenas quaisquer músicas, em sua maioria elas são rap ou hip hop. Essa escolha também não foi por acaso, a vida frenética de Hamilton, como ele não parava por nada nem ninguém, e como ele sempre escrevia como se seu tempo estivesse acabando, combina perfeitamente com o estilo rápido e ríspido do hip-hop. Além disso, o musical traz outro toque interessante: apenas atores não brancos foram escolhidos para representar todos esses personagens históricos que eram, de fato, todos brancos. A combinação de aspectos não convencionais para um musical, ou para uma produção audiovisual em geral, formam uma peça não só muito interessante, como genial.
A gravação profissional feita da peça consegue realçar muito bem outro aspecto que pode passar despercebido quando a vê ao vivo: toda a dinâmica de luzes e de micro expressões dos atores, que realçam cada palavra que eles estão cantando. A gravação profissional também coloca luz em um grande debate do mundo dos musicais: existe diferença entre simplesmente gravar a apresentação da Broadway e fazer uma produção cinematográfica completa da história retratada no musical? Aqui, a direção de Thomas Kail opta pela primeira opção. E não poderia ser diferente - a história já é contada inteiramente apenas através das músicas, o que tornaria desnecessário qualquer diálogo adicional que seria preciso para compor um filme.
O jeito como as músicas vão se encontrando ao longo da produção, uma fazendo referência a outra, e a narrativa frenética que faz você sentir que o tempo do protagonista está acabando, até que de fato acaba, torna tudo genial. Tudo isso é potencializado quando percebemos a real mensagem por trás da produção: quando morremos, quem conta a nossa história? Alexander estava tão preocupado em ser um dos grandes, que não pensouque o único jeito de isso acontecer era tendo sua história contada. E em grande parte, ele não teve. Quando você pensa nos pais fundadores dos Estados Unidos, você não pensa em Alexander Hamilton. Ou melhor, não pensava. O musical Hamilton, e ainda mais a gravação veiculada no Disney Plus, difundiu a história dele mais do que qualquer aula na escola poderia ter feito. E aí entra também o poder da arte: ela une países, línguas, e ensina mesmo que seja do mais não convencional possível. Como cantam - de fato, a história tem os olhos em você.
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