Ray Eduardo Cunha Soares
“The Mighty Nein” acompanha um grupo improvável de aventureiros em um mundo de fantasia marcado por conflitos políticos, mistérios antigos e traumas pessoais. A trama se inicia acompanhando diferentes personagens em núcleos separados, cada um carregando seus próprios objetivos, segredos e problemas. Diferente de muitas histórias de fantasia em que os protagonistas rapidamente se tornam amigos, aqui existe um clima constante de desconfiança. Paralelamente, a série apresenta o mistério envolvendo o “Luxon Beacon”, um artefato com um estranho poder sobre às almas, está ligado às tensões entre nações e que já é introduzido como uma peça importante da narrativa. Aos poucos, os destinos desses indivíduos se cruzam até que formam o grupo “Mighty Nein”.
A adaptação do que era um RPG de mesa para uma série animada não é uma tarefa simples, mas a animação é muito boa, não apresenta nada particularmente de novo dentro do gênero de fantasia, porém faz muito bem seu papel com uma boa direção de arte. Têm coreografias de combate incríveis e uma história extremamente cativante a dublagem merece destaque, pois os dubladores são os próprios jogadores, que são dubladores profissionais, e entregaram um trabalho incrível.
Cada membro do grupo possui uma história própria que vai sendo revelada no momento certo, tornando-os muito mais interessantes do que simples arquétipos de aventureiros. A amizade entre Caleb e o/a goblin Nott começa de forma frágil e silenciosa, mas evolui para uma confiança mútua muito bonita de acompanhar. Da mesma forma, a dinâmica entre Fjord e Jester aponta para um relacionamento romântico bastante cativante, embora Fjord ainda omita alguns fatos sobre sua istória. Já Kingsley surge como uma figura intrigante, aparentemente sofrendo de amnésia, mas com uma personalidade forte e peculiar. Curiosamente, ele não é o tipo de personagem que tenta unir o grupo; sua importância está justamente em fortalecer aos poucos os laços que já começam a surgir entre os demais. Também merece destaque Beau, uma monge da Alma de Cobalto, uma desbocada, teimosa e avessa a seguir ordens, ela busca fazer o que considera certo seguindo seus próprios princípios, com uma personalidade bem inquisitiva. Juntos, esses personagens formam um completo caos. Ao mesmo tempo, quando a narrativa decide adotar um tom mais sério, ela consegue transmitir tensão, angústia e emoção com eficiência. Um desses momentos é protagonizado pelo Caleb que talvez seja o caso mais impactante. Seu passado extremamente trágico e pesado adiciona uma carga emocional inesperada à narrativa, transformando-o em um dos personagens mais marcantes da temporada.
Porém, alguns momentos da narrativa apresentam reações que não parecem condizer totalmente com os acontecimentos. O exemplo mais evidente envolve Kingsley. Após os integrantes do grupo, ainda que sem intenção, contribuírem para libertar uma criatura que acaba matando várias pessoas importantes do circo onde ele vivia, sua reação emocional parece surpreendentemente contida. Mesmo após enfrentar e derrotar a criatura, o personagem demonstra tristeza, mas não da quantidade esperada diante da sequência de tragédias que sofreu em tão pouco tempo, o que enfraqueceu parte da carga dramática da situação na minha opinião.
Com apenas oito episódios, The Mighty Nein termina deixando um forte sentimento de “quero mais”. A série mesmo tendo um mundo fantástico interessante, inspirado no clássico D&D, sua maior força se apresenta nos seus personagens. Com momentos hilários, amizades improváveis, traumas profundos e relacionamentos em construção, a animação consegue transformar um grupo de desconhecidos desajustados em protagonistas pelos quais o público goste e possa torcer.

Nenhum comentário:
Postar um comentário