segunda-feira, 15 de junho de 2026

Monster (2023)

Quem é o verdadeiro monstro?

Saulo Tavares da Silva

Quem é o verdadeiro monstro? Essa é a pergunta que move o filme Monster do diretor japonês Hirokazu Koreeda. Monster conta a história de Saori (Sakura Andō), que até então tinha um relacionamento feliz e tranquilo com seu filho Minato, interpretado pelo jovem ator Sōya Kurokawa, até um dia ele aparecer com o cabelo cortado, depois com apenas um sapato e então, ao não retornar para casa, ela o encontra em um túnel abandonado. Ao ser questionado, Minato acusa o seu professor, Sr. Hori (Eita Nagayama), de abuso. A partir daí, Saori começa uma saga para entender o que realmente aconteceu e ocasionou a mudança repentina de comportamento de seu filho.

Monster, no entanto, não entrega essas informações de forma direta. O filme se estrutura em três pontos de vista distintos que compõem a narrativa: os de Saori, Hori e Minato. Cada ponto de vista apresenta informações novas, como se realmente estivéssemos vendo apenas o que cada um consegue ver. Aqui, o espectador não é onisciente, somos realmente parte do filme.

Monster apresenta a angústia de diversas formas. A cena em que Saori confronta a equipe da escola enquanto recebe o pedido de desculpas do professor Hori é constrangedora e irritante, não por ser mal feita, mas pela emoção transportada em cena. A direção tenta ignorar os pedidos da mãe, apenas lendo um relato simplificado do ocorrido, enquanto Hori pede desculpas forçadas, como se estivesse lendo um roteiro. É uma tentativa de apagar e relativizar o ocorrido e que causa angústia no espectador. É uma mãe desesperada para entender porque seu amado filho se tornou recluso do dia para a noite e uma escola que não quer resolver a situação, mas sim colocar panos quentes.

É somente após essa cena que somos apresentados a um personagem central e que, junto de Minato, torna-se um elo entre os três pontos de vista: Yori (Hinata Hiiragi), um colega de sala que, segundo o professor Hori, sofre bullying praticado por Minato. Após essa apresentação, Hori é demitido da escola até que em uma noite chuvosa reaparece na casa de Saori. Só, então, somos apresentados à sua versão dos acontecimentos.

Toda a situação em Monster escala de maneira lenta. Os acontecimentos são contados em ordem cronológica para cada ponto de vista, mas, mesmo que o público já saiba o que vai acontecer, cada cena é diferente. Se fosse possível decupar o filme e unificar tudo, as cenas iriam se complementar. Isso faz com que não se torne maçante, nem mesmo cause um sentimento de dejà vu.

À medida que o filme passa, acaba-se tornando mais claro que a relação entre Minato e Yori é o grande motor que move tudo. Yori, uma criança pequena para a idade, tida pelos outros colegas como frágil demais, que desenvolve uma proximidade e intimidade com Minato, que não consegue entender os seus próprios sentimentos.

É aqui que moram os verdadeiros monstros de Monster. Não são os dois meninos, que estão se descobrindo e entendendo quem são neste mundo, mas sim aqueles que os julgam anormais por serem diferentes, como o próprio pai de Yori faz com ele. São aqueles que preferem derrubar os outros para se salvar, como a escola e a diretora fazem.

Monster constrói tensão por meio da desconstrução narrativa ao apresentar três pontos de vista, alterando a percepção de quem assiste. Se no início, com a visão de Saori, nós temos raiva pela escola e pelo professor, quando enxergamos por Hori, há um entendimento de que ele é uma vítima, passando a ter uma raiva de Minato. Somente aí, Monster nos leva a ver o lado dele, nos permitindo ter um aprofundamento no medo, raiva e vergonha que gira na cabeça de Minato, assim como o descobrimento do amor e o medo que ele tem de não ser igual ao pai.

Um outro ponto alto de Monster é o seu elenco. Os atores jovens conseguem transmitir todas as emoções necessárias à narrativa, nos fazendo torcer por um final feliz para os dois, além de dominarem a tela. Apesar de muito novos, tanto Kurokawa (Minato), quanto Hiiragi (Yori), conseguem acompanhar os veteranos Andō (Saori) e Nagayama (Hori).

Se fosse pontuar algo negativo em Monster, seriam as cenas que trazem o romance de Hori e sua namorada. Apesar de funcionarem para mostrar sua situação de abandono, elas não são muito interessantes quando o próprio roteiro dá mais atenção a Yori e Minato.

Monster é, no final, uma história de amor, seja ela romântica ou de amizade. É a história de dois meninos que descobrem o amor e desejam ser vistos como humanos e como normais. De uma mãe que é capaz de tudo pelo bem do seu filho. De um professor que só deseja o melhor de seus alunos. É a história dos que são chamados de monstros pelos monstros.

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