DANIELY GABRIELLA SANTOS MACIEL
Uma das maiores tragédias da vida adulta é descobrir que nem sempre o cansaço vem da falta de descanso, mas da falta de sentido. Existe um momento da vida em que as perguntas mudam. Já não queremos saber apenas para onde estamos indo, mas se ainda existe entusiasmo no caminho. É nesse espaço entre a estabilidade e a estagnação que Druk – Mais Uma Rodada constrói sua narrativa. Longe de ser apenas um filme sobre álcool, a obra de Thomas Vinterberg é uma reflexão sensível sobre envelhecimento, crise de identidade e a busca por significado.
A trama acompanha quatro professores que decidem testar uma teoria atribuída ao psiquiatra norueguês Finn Skarderud, a de que os seres humanos nascem com um déficit natural de álcool no sangue. A proposta é manter uma pequena taxa alcoólica constante para aumentar criatividade, autoconfiança e desempenho. Inicialmente, os resultados parecem funcionar. Martin, interpretado com sensibilidade por Mads Mikkelsen, recupera o entusiasmo em sala de aula e reencontra uma versão de si mesmo que parecia perdida na rotina.
No entanto, reduzir o filme aos efeitos da bebida seria ignorar sua camada mais interessante. O álcool funciona como um catalisador que revela desejos, frustrações e inquietações já presentes nos personagens. A questão central nunca é o quanto eles bebem, mas o porquê sentem tanta necessidade de beber. O experimento expõe uma insatisfação silenciosa que passa na vida adulta contemporânea que é a sensação de estar apenas cumprindo tarefas e sobrevivendo aos dias, em vez de realmente vivê-los.
É a partir desse ponto que surge a principal crítica social do filme. Druk questiona uma sociedade que valoriza produtividade, estabilidade e controle, mas pouco discute o vazio emocional que pode existir por trás dessas conquistas. Os personagens não estão em crise porque fracassaram, eles estão em crise porque fizeram tudo o que lhes disseram que deveriam fazer e, ainda assim, sentem que algo está faltando. O álcool surge como uma tentativa de preencher essa ausência, mas também como um lembrete de que não existem atalhos permanentes para o sentido da vida.
Sem recorrer ao moralismo, Vinterberg constrói uma narrativa humana e honesta. O filme não condena nem glorifica a bebida, na verdade utiliza a embriaguez como metáfora para explorar vulnerabilidades que fazem parte da experiência humana. Ao final, Druk não oferece respostas definitivas sobre felicidade ou realização pessoal. Em vez disso, expõe as contradições de uma geração que aprendeu a funcionar, mas nem sempre a sentir. E talvez seja por isso que a história de Martin e seus amigos seja tão fácil de reconhecer. Afinal, como sugere a frase que abre esta reflexão, nem todo cansaço vem da falta de descanso; às vezes, ele nasce da distância entre quem somos e quem gostaríamos de ser.

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