quarta-feira, 17 de junho de 2026

American Horror Story

O Declínio: As Falhas Estruturais e o Vazio Narrativo


Carlos Vitor Soares Freire


American Horror Story: Double Feature (a décima temporada da antologia de Ryan Murphy e Brad Falchuk) surgiu com uma promessa audaciosa: entregar duas narrativas distintas pelo preço de uma. Dividida entre o terror costeiro de Red Tide (Maré Vermelha) e a ficção científica conspiratória de Death Valley (Vale da Morte), a temporada acabou se tornando um estudo de caso sobre como ótimas premissas podem naufragar por pura pressa narrativa.

O maior pecado de Double Feature reside em sua própria estrutura bipartida. Ao fraturar a temporada em duas micro-histórias, os criadores sabotaram a capacidade de desenvolvimento de ambas. O formato reduzido sufocou o ritmo. Red Tide, que vinha construindo uma atmosfera primorosa de suspense psicológico, foi obrigada a correr para um desfecho abrupto e anticlimático no sexto episódio. O roteiro simplesmente jogou as resoluções no colo do espectador, sacrificando a coerência em nome do relógio. Se a primeira metade pecou pelo final apressado, a segunda metade desandou por completo. A fusão entre o preto e branco histórico (os anos Eisenhower e os alienígenas) e o núcleo contemporâneo (os jovens clichês em viagem) não encontrou equilíbrio. O segmento moderno careceu de carisma, entregando atuações engessadas e diálogos que beiravam o constrangedor.

A promessa implícita de que as duas partes se amarrariam de forma inteligente evaporou. O que restou foi a sensação de estarmos assistindo a dois projetos inacabados que foram colados às pressas para preencher a grade de programação.Apesar dos tropeços estruturais, seria injusto não reconhecer o requinte técnico e o talento que reluzem em meio ao caos. Visualmente, os seis primeiros episódios entregam uma das melhores atmosferas de toda a antologia. A ambientação cinzenta e gélida de Provincetown, no inverno, evoca um isolamento quase lovecraftiano. A fotografia e a trilha sonora trabalham em perfeita simetria para construir um incômodo constante. A premissa da pílula preta — que desperta o talento genial dos criativos à custa de sua humanidade, enquanto transforma os medíocres em monstros pálidos — é uma sátira brilhante e ácida sobre a indústria do entretenimento, a ambição e o preço do sucesso. O elenco veterano salva a temporada do esquecimento. Evan Peters e Frances Conroy dão um show de excentricidade e humor ácido como a dupla de escritores macabros. Sarah Paulson, irreconhecível como "TB Karen", entregauma das performances mais cruas e viscerais de sua carreira, servindo como o compasso moral daquela comunidade corrompida.

American Horror Story: Double Feature é um espetáculo de potencial desperdiçado. A temporada prova que a criatividade de Murphy e Falchuk continua afiada, mas a ambição estética foi sufocada por um roteiro que não soube administrar o tempo. Vale a experiência pela atmosfera poética e pelas atuações brilhantes de seu início, mas exige do espectador uma boa dose de paciência (e indulgência) com o seu desfecho.

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