sábado, 20 de junho de 2026

Fallen Angels (1995)


 Jhonnatha Felipe

Escrito e dirigido pelo chinês Wong Kar-Wai, Fallen Angels foi pensado como um terceiro núcleo no filme Chungking Express. Porém, foi apenas nesse filme que o cineasta pode contar essa história. Passado inteiramente a noite, a obra trás uma estética cheia de personalidade, sempre com cenas escuras, em ambientes estranhos e um ritmo digno de videoclipe dos anos 2000. 

A história tem uma estrutura parecida com a de seu “irmão” Chungking Express, trazendo duas histórias distintas, mas nos últimos minutos conectando-as. 

O Maior trunfo do cineasta está em como ele cria cenas tão impactantes de forma tão simples. Em vários momentos estamos vendo apenas um ou dois personagens conversando ou fazendo algo extremamente simples, mas tudo é filmado e montado de forma que parece a coisa mais interessante e estilosa do mundo. Chega a parecer um videoclipe de uma hora e meia. 

Outro ponto super positivo aqui é como ele dosa bem a comédia do drama. No primeiro núcleo apresentado, vemos a história de um criminoso e sua parceira, onde ele faz o trabalho sujo de matar pessoas e ela faz o trabalho de limpar a sujeira da casa dele. Eles quase nunca se veem, mas ela desenvolve uma grande paixão por ele. 

Já no outro núcleo, acompanhamos um homem que não consegue falar e é super peculiar. Uma das ideias dele é de que precisa trabalhar, mas faz isso invadindo estabelecimentos na madrugada e forçando quem encontra a pagar por seu serviço. E tudo isso é feito com um timing de comédia absurdo, onde eu gargalhava sempre que ele estava em cena. 

No fim, Fallen Angels é uma obra que consegue entregar tudo que propõe, e assim se torna um clássico para o cinema de Hong Kong e para o cinema melancólico mundial, até hoje servindo como referência e conquistando as novas gerações.  

Dias Perfeitos (2023)

Gilvictor Silva do Nascimento

Dias Perfeitos (Perfect days, 2023), dirigido por Wim Wenders, é uma obra que transforma a simplicidade cotidiana em uma profunda reflexão sobre existência, tempo, felicidade e solidão. Longe das narrativas tradicionais baseadas em grandes conflitos ou reviravoltas dramáticas, o filme aposta na contemplação e na observação dos pequenos gestos que compõem a vida de seu protagonista, Hirayama. E entrega que mesmo os grandes silêncios, perduram grandes significados.

O aspecto mais marcante do filme é a maneira como ele encontra beleza na rotina. Hirayama trabalha limpando banheiros públicos em Tóquio, uma profissão frequentemente invisibilizada e socialmente desvalorizada. Mesmo tendo a rotina que muitos não acham ideal para se alcançar a ideia de felicidade, Hirayama desconstrói toda essa visão ao mostrar que é possível apreciar as mais pequenas das belezas cotidianas tendo uma vida extremamente dinâmica. A câmera de Wenders acompanha seu dia a dia com respeito e sensibilidade, humanidade, revelando dignidade, significado em tarefas consideradas banais.

A repetição dos mesmos hábitos, acordar cedo, cuidar das plantas, ouvir músicas em fitas cassete, ler livros antes de dormir, não é apresentada como uma prisão, mas como uma escolha consciente. Como um lugar de se apreciar sua paz, calmaria e o desfrutar o real significado de se manter vivo e não sobrevivendo. O filme questiona a ideia contemporânea de que a felicidade depende de constantes mudanças, produtividade extrema ou sucesso financeiro. Mas Hirayama rompe essa narrativa ao mostrar que até os dias mais cansativos, mais tenebrosos, mas significativos, carregam a beleza e o poder de estar conscientemente em paz ao viver sua vida sem as amarras banais dos pensamentos negativos.

Outro elemento fundamental é a economia de diálogos. Hirayama fala pouco, mas sua interioridade é revelada por meio de expressões, olhares e gestos. O silêncio representa em grande parte do filme como um resposta, curta, simples e direta.  Ele não representa vazio; pelo contrário, funciona como espaço de reflexão.

Nesse sentido, a atuação de Koji Yakusho é extraordinária. O personagem dele se conecta com o mais frágil até o mais forte dos seres humanos, ao abdicar de um futuro considerado próspero para enfim alcançar sua liberdade espiritual. Sem grandes discursos, ele constrói um personagem complexo, capaz de transmitir serenidade, melancolia, satisfação e sofrimento apenas através da expressão facial. O espectador é convidado a observar e interpretar, em vez de receber explicações prontas.

O filme também simboliza o conceito japonês de Komorebi: a luz do sol que é filtrada pelas copas das árvores, criando um jogo contínuo de luz e sombra. Esse fenômeno representa a beleza e a poesia encontradas na impermanência do momento presente. Mais do que um fenômeno da natureza, o komorebi revela uma forma de enxergar o mundo. A palavra japonesa descreve a luz do sol atravessando as folhas das árvores, mas seu significado vai além da imagem: ela traduz a sensibilidade de perceber a beleza nos instantes mais simples e passageiros da vida. É um convite à contemplação, à presença e ao reconhecimento de que os pequenos momentos também carregam significado.

Essa ideia dialoga diretamente com o filme Dias Perfeitos, de Wim Wenders. Assim como o komorebi, a obra encontra poesia em gestos cotidianos que costumam passar despercebidos: a luz entrando pela janela, o balanço das árvores ao vento, o café tomado em silêncio ou o trajeto diário para o trabalho. O protagonista não busca grandes acontecimentos para dar sentido à vida; ele encontra plenitude justamente na atenção dedicada aos detalhes. Nesse sentido, o komorebi não é apenas uma imagem presente no filme, mas uma filosofia que atravessa toda a narrativa: a de que a felicidade pode estar escondida nos breves feixes de luz que iluminam a rotina.

Embora pareça um filme simples, Dias Perfeitos apresenta uma crítica sutil à sociedade atual. Em uma época marcada pela aceleração, pelo excesso de estímulos e pela busca incessante por resultados, Hirayama vive em outro ritmo. Ele valoriza o presente, aprecia a natureza e encontra prazer em experiências simples.

O contraste entre Hirayama e outros personagens evidencia diferentes formas de encarar a vida. Enquanto alguns vivem preocupados com dinheiro, relacionamentos ou expectativas sociais, ele parece buscar uma existência baseada na contemplação e no equilíbrio interior.

Entretanto, o filme não idealiza completamente esse estilo de vida. Aos poucos, surgem pistas sobre um passado doloroso e sobre escolhas que envolveram renúncias. A tranquilidade do protagonista também carrega traços de isolamento e solidão.

Um dos grandes méritos da obra é evitar respostas fáceis. Hirayama é feliz? O filme nunca responde claramente.

Por um lado, ele demonstra satisfação com sua rotina e parece ter encontrado paz em sua simplicidade. Por outro, há momentos em que a tristeza emerge discretamente, sugerindo perdas, arrependimentos ou vínculos rompidos.

Essa ambiguidade alcança seu ponto máximo na cena final. O longo enquadramento do rosto de Hirayama revela emoções contraditórias: ele sorri, chora, reflete e continua seguindo em frente. A sequência sintetiza a principal mensagem do filme: a vida não é composta apenas de felicidade ou tristeza, mas da coexistência de ambas.

A fotografia utiliza enquadramentos limpos e uma iluminação naturalista que reforçam a sensação de intimidade. A trilha sonora, composta por clássicos do rock e do pop ocidental das décadas de 1960 e 1970, funciona como extensão da personalidade do protagonista e contribui para a construção de uma atmosfera nostálgica.

O ritmo lento pode afastar espectadores acostumados a narrativas mais dinâmicas. Porém, essa lentidão é uma escolha estética coerente com a proposta do filme: desacelerar o olhar e permitir que o público experimente o tempo da mesma forma que Hirayama.

Dias Perfeitos é um filme profundamente humanista que propõe uma reflexão sobre o significado da felicidade em um mundo acelerado. Ao transformar ações comuns em momentos de contemplação, Wim Wenders demonstra que a beleza pode estar escondida nos detalhes mais simples da vida.

Mais do que contar uma história, o filme convida o espectador a repensar sua relação com o tempo, o trabalho, os afetos e a própria existência. Sua maior força está justamente em mostrar que os “dias perfeitos” não são aqueles livres de sofrimento, mas aqueles em que somos capazes de encontrar sentido mesmo em meio às imperfeições da vida.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Juno (2007)

 
NATHALIA KATHLEEN LIMA RODRIGUES


Juno é um coming of age extremamente interessante que usa a gravidez na adolescência como ponto de partida, mas não faz dela o centro absoluto da narrativa. Na verdade, os personagens são tão interessantes e bem construídos que, em vários momentos, esquecemos completamente que nossa protagonista, Juno (Elliot Page), está grávida.

Desde o início, Juno foge de praticamente todos os estereótipos associados a esse tipo de história. Assim que descobre a gravidez, ela decide o que quer fazer e não passa o restante do filme questionando sua escolha. Pelo contrário: ela segue sua vida normalmente, mantendo sua personalidade e sua rotina quase intactas durante toda a gestação.

É nesse contexto que conhecemos Paulie Bleeker (Michael Cera), pai biológico da criança e interesse amoroso de Juno. Bleeker está longe do arquétipo do galã adolescente que costuma aparecer em filmes românticos. Ele é tímido, confuso e, muitas vezes, difícil de interpretar. O filme nunca tenta nos dizer exatamente o que pensar sobre ele, o que torna o personagem ainda mais interessante.

Também conhecemos Vanessa e Mark Loring, o casal escolhido por Juno para adotar o bebê. Vanessa (Jennifer Garner) sonha em ser mãe e se entrega completamente à ideia de construir uma família. Já Mark (Jason Bateman) é uma figura muito mais ambígua. Conforme a história avança, suas atitudes fazem com que o espectador questione constantemente suas intenções e sua maturidade.

Mesmo abordando temas complexos, Juno é um filme leve, divertido e surpreendentemente acolhedor. Grande parte disso vem da própria protagonista, que encara a gravidez de uma forma muito diferente do que estamos acostumados a ver no cinema. Ela não trata aqueles nove meses como o evento que define sua existência, mas como uma etapa passageira dentro de uma vida que continua acontecendo.

O que mais me encantou foi a forma como o filme trabalha as expectativas do público. Em nenhum momento a narrativa sugere claramente que Juno vai mudar de ideia, mas existe uma construção quase silenciosa que nos faz acreditar nessa possibilidade. Por isso, quando ela segue exatamente o plano que havia traçado desde o começo, o desfecho acaba sendo mais impactante do que parece. Gosto muito dessa escolha porque ela apresenta uma perspectiva sobre maternidade e adoção que raramente recebe espaço em produções do gênero.

No fim, Juno me surpreendeu bastante. Eu esperava uma história focada na gravidez adolescente, mas encontrei um filme sobre crescimento, escolhas e pessoas imperfeitas tentando descobrir quem são. É divertido, sensível e cheio de personagens que permanecem na cabeça mesmo depois que os créditos terminam.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Obsessão


 Laila Maria Venâncio Batista


À primeira vista, Obsessão parece partir de uma premissa simples. Bear (Michael Johnston), um funcionário tímido de uma loja de discos, é apaixonado por Nikki (a futura ganhadora do oscar Inde Navarrette), sua amiga de infância e colega de trabalho. Incapaz de revelar seus sentimentos, ele recorre a uma solução aparentemente inofensiva: um misterioso brinquedo dos anos 1960 “One Wish Willow” capaz de realizar desejos. O pedido é simples, fazer com que Nikki o ame mais do que tudo no mundo. O problema é que o desejo funciona.

A partir daí, o filme abandona rapidamente qualquer possibilidade de romance e mergulha em um terror psicológico desconfortável. Nikki passa a demonstrar uma obsessão extrema por Bear, alternando momentos de carinho exagerado com surtos perturbadores que indicam que algo está profundamente errado. Enquanto os amigos percebem que ela já não é a mesma pessoa, Bear se agarra à fantasia de finalmente viver a relação que sempre desejou.

O aspecto mais interessante do roteiro está justamente na escolha de acompanhar a história pela perspectiva de Bear. Em vez de focar na vítima, Curry Barker coloca o espectador ao lado do responsável pela tragédia. O protagonista não é retratado como um vilão clássico, mas como alguém que, por egoísmo e frustração, ultrapassa um limite moral sem medir as consequências. Isso torna o filme ainda mais inquietante, porque o horror não surge apenas do elemento sobrenatural, mas das decisões humanas que colocam toda a situação em movimento.

Nesse sentido, Obsessão funciona como uma reflexão sobre obsessão afetiva, consentimento e idealização romântica. O que começa como um desejo aparentemente inocente se transforma em uma relação construída à força, onde Nikki perde completamente sua autonomia. O filme evita transformar essa discussão em um discurso explícito, preferindo deixar que o desconforto das situações fale por si.

Grande parte do impacto emocional da obra vem da atuação de Inde Navarrette. Mesmo tendo relativamente pouco espaço para interpretar a verdadeira Nikki, a atriz entrega uma performance impressionante ao alternar entre vulnerabilidade, terror e comportamento obsessivo. É uma atuação intensa, perturbadora e facilmente uma das melhores do gênero nos últimos anos. Em muitos momentos, ela consegue transmitir o sofrimento da personagem apenas através de expressões e pequenas mudanças de comportamento.

Curry Barker também merece destaque pela direção segura e criativa. Com um orçamento estimado em apenas 750 mil dólares, o diretor constrói cenas visualmente marcantes e utiliza os recursos disponíveis de forma inteligente. O filme nunca parece limitado financeiramente, muito pelo contrário: a produção transforma suas restrições em uma vantagem, apostando mais na atmosfera e nos personagens do que em grandes efeitos.

No final, Obsessão se destaca por oferecer algo cada vez mais raro dentro do terror contemporâneo: uma ideia original executada com personalidade. Entre momentos de humor ácido, violência gráfica e discussões desconfortáveis sobre desejo e posse, o filme constrói uma experiência inquietante que permanece na cabeça do espectador muito depois dos créditos finais. Impulsionado pela direção inventiva de Curry Barker e pela atuação impressionante de Inde Navarrette, o longa se consolida como uma das maiores surpresas e um dos melhores filmes do ano.

A Sociedade do Anel

O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel


Adalberto Cristh Ferreira Filho


Reassistir O Senhor dos Anéis é sempre como voltar pra casa depois de um bom tempo fora. Lançado em 2001 (em 2002 no Brasil) e dirigido por Peter Jackson, O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel consegue se manter extremamente atual, mesmo mais de 20 anos após seu lançamento. É impressionante que um filme do início dos anos 2000, recheado de computação gráfica, não tenha ficado visualmente datado mesmo após tanto tempo, e isso mostra o carinho e dedicação com os quais a equipe do filme trabalhou para produzir uma obra tão ímpar.

Apesar de ter um formato que pode assustar espectadores novos, com quase 3h de duração (e a versão estendida chegando às 3h28), o filme trabalha seu roteiro de forma magistral, com sequências empolgantes, personagens extremamente bem trabalhados e uma história que honra o material original. A sequência de abertura de fato é um pouco longa e talvez se torne maçante para um público mais jovem, acostumado com um cinema mais acelerado, além de que a versão estendida deixa bem claro o porquê de aquelas cenas terem sido cortadas, porém no momento em que você se permite ser levado nessa jornada, é um caminho sem volta.

Mais do que atingir um objetivo, A Sociedade do Anel é sobre aproveitar a jornada. Se entregar à esse mundo mágico e deixar ser conduzido por ele. Sentar por 3 horas e simplesmente caminhar pela Terra Média. E com a forma como esse mundo é construído, essa tarefa não é difícil.

O carisma dos Hobbits é contagiante desde o início, as figuras de Aragorn e Gandalf são inspiradoras e os elfos são encantadores. O design de produção do filme definitivamente também é um dos seus pontos altos. Com cenários de tirar o fôlego, figurinos e props extremamente bem trabalhados em cada detalhe e elementos de CGI utilizados com uma finesse absurda, a equipe cria um mundo fantástico e misterioso impressionantemente crível.

Trazendo como protagonista a singela figura de um hobbit, A Sociedade do Anel é um filme inspirador e instigante, que, assim como sua obra de inspiração, mostra como alguém simples, sem grande importância para o mundo e sem grandes poderes ou habilidades pode ter grandes feitos, e nos instiga a ir em frente, partindo em nossa própria jornada e aceitando os desafios que nos são propostos, de preferência com nossa própria Sociedade.

Vidas Passadas

Samuel Ferreira da Silva

Vidas Passadas (Past Lives, 2023), estreia de Celine Song na direção de longas-metragens, é um filme que transforma uma história aparentemente simples em uma profunda reflexão sobre tempo, identidade e escolhas. A narrativa acompanha Nora (Greta Lee) e Hae Sung (Teo Yoo), amigos de infância separados quando a família dela deixa a Coreia do Sul. Ao longo de mais de duas décadas, os dois se reencontram em diferentes momentos da vida, carregando consigo não apenas a memória um do outro, mas também o peso dos caminhos que escolheram seguir.

A obra parte do conceito coreano de In-Yun, segundo o qual os encontros entre pessoas são resultado de conexões construídas ao longo de vidas passadas. No entanto, Celine Song evita transformar essa ideia em uma defesa do amor predestinado. Em vez disso, utiliza o conceito para refletir sobre os encontros e desencontros que moldam a existência humana. O filme está repleto de perguntas sobre as vidas que poderíamos ter vivido e sobre as pessoas que deixamos para trás ao longo do caminho.

Um dos maiores méritos de Vidas Passadas é sua recusa aos clichês do romance tradicional. Embora o reencontro entre Nora e Hae Sung pudesse facilmente conduzir a uma narrativa melodramática sobre um amor interrompido, o roteiro opta por um caminho mais maduro. Os personagens já construíram suas vidas, suas carreiras e suas identidades. O que está em jogo não é a possibilidade de recomeçar uma história de amor, mas a necessidade de compreender o significado que ela ainda possui.

Essa sensibilidade também se manifesta na linguagem cinematográfica. A fotografia de Shabier Kirchner utiliza tons suaves e uma atmosfera melancólica para aproximar passado e presente, enquanto a montagem estabelece paralelos visuais que reforçam a ideia de que determinadas lembranças permanecem vivas independentemente da passagem do tempo. O resultado é um filme contemplativo, que encontra força justamente nos silêncios, nos olhares e nos gestos contidos de seus personagens.

Além da dimensão romântica, o filme aborda questões ligadas à imigração e ao pertencimento. Nora não abandonou apenas um país, mas também uma versão de si mesma. O reencontro com Hae Sung funciona como um confronto entre a mulher que ela se tornou e a garota que ficou para trás na Coreia. Nesse sentido, Vidas Passadas discute como a construção de uma nova identidade implica inevitavelmente perdas, ainda que essas perdas sejam necessárias para o crescimento pessoal.

As atuações contribuem decisivamente para a força emocional da narrativa. Greta Lee constrói uma personagem marcada pela contenção e pela ambiguidade, enquanto Teo Yoo transmite com delicadezaa melancolia de alguém que nunca deixou completamente o passado para trás. Juntos, os dois criam uma dinâmica que torna palpável a sensação de proximidade e distância que define a relação de seus personagens.

No fim, podemos dizer que Vidas Passadas é uma obra sobre as possibilidades que a vida deixa pelo caminho. Sua grande força está em nos fazer refletir sobre quem seríamos se tivéssemos tomado outras decisões e sobre as versões de nós mesmos que permanecem guardadas na memória. Ao evitar respostas fáceis e abraçar a complexidade das escolhas humanas, Celine Song entrega um filme sensível, elegante e profundamente comovente, capaz de transformar uma experiência particular em algo universal.

As patricinhas de Beverly Hills

Marília Gabrielle Costa Trindade

Quando pensamos em adaptações de livros de época, é comum lembrar de filmes como Orgulho e Preconceito ou O Morro dos Ventos Uivantes. Porém, um dos exemplos mais criativos e bem-sucedidos desse processo costuma ser deixado de lado: As Patricinhas de Beverly Hills, de 1995. Inspirado em Emma, de Jane Austen, o longa tem roteiro e direção de Amy Heckerling, que transpõe a essência da obra para o universo dos adolescentes dos anos 1990. O resultado é uma adaptação inteligente, divertida e acessível para uma nova geração. Mais do que um sucesso, o filme tornou-se um marco da cultura pop, influenciando a moda, a linguagem e a música de sua época.

Por trás dos clichês típicos das comédias adolescentes, como o ambiente escolar, as disputas de popularidade e os famosos makeovers, o filme constrói uma sátira aos hábitos e valores da alta sociedade. A protagonista, Cher Horowitz, é apresentada como a clássica patricinha rica, mimada e aparentemente fútil. No entanto, diferente do estereótipo comum, ela não ocupa o papel de antagonista. Assim como Emma, personagem criada por Jane Austen, Cher utiliza sua influência para ajudar as pessoas ao seu redor, ainda que suas intenções nem sempre produzam os melhores resultados.

Ao lado de personagens memoráveis, como Dionne, sua melhor amiga, e Tai Frasier, a nova aluna que tenta se adaptar ao universo elitizado da escola, o filme explora as pressões sociais ligadas à aparência, ao consumo e ao pertencimento. Nesse sentido, a obra vive uma contradição, onde ao mesmo tempo em que satiriza esse estilo de vida, também o glamouriza, transformando-o em objeto de desejo para o público.

A narrativa acompanha principalmente o processo de amadurecimento de Cher, que passa a enxergar o mundo para além de seus privilégios. Nesse percurso, se destaca sua relação com Josh, interpretado por Paul Rudd. Mais velho e universitário, ele é frequentemente retratado como a “voz da razão”, ocupando uma posição de superioridade intelectual em relação à protagonista. Ao longo da história, Josh passa a reconhecer em Cher qualidades que vão além da aparência, valorizando seu crescimento emocional e intelectual. Como em muitas comédias românticas, o relacionamento entre os dois surge como recompensa ao final da jornada da personagem.

Analisando de uma ótica contemporânea, essa relação desperta certo desconforto. Embora não tenham laços sanguíneos, Cher e Josh compartilharam uma dinâmica familiar próxima durante parte de suas vidas, o que torna o romance estranho para muitos espectadores atuais. Além disso, a diferença de maturidade entre os dois e a forma como Josh frequentemente assume uma posição de mentor fazem com que essa relação tenha envelhecido mal diante das mudanças culturais e de gerações.

Ainda assim, As Patricinhas de Beverly Hills permanece relevante 30 anos após seu lançamento. Mais do que uma comédia adolescente divertida, o filme funciona como um retrato das contradições de sua época, abordando temas como classe social, padrões de beleza, popularidade e identidade. Ao mesmo tempo em que critica esses valores, também os reproduz, o que torna sua análise ainda mais interessante. Talvez seja justamente essa ambiguidade que explique sua popularidade.

American Horror Story

O Declínio: As Falhas Estruturais e o Vazio Narrativo


Carlos Vitor Soares Freire


American Horror Story: Double Feature (a décima temporada da antologia de Ryan Murphy e Brad Falchuk) surgiu com uma promessa audaciosa: entregar duas narrativas distintas pelo preço de uma. Dividida entre o terror costeiro de Red Tide (Maré Vermelha) e a ficção científica conspiratória de Death Valley (Vale da Morte), a temporada acabou se tornando um estudo de caso sobre como ótimas premissas podem naufragar por pura pressa narrativa.

O maior pecado de Double Feature reside em sua própria estrutura bipartida. Ao fraturar a temporada em duas micro-histórias, os criadores sabotaram a capacidade de desenvolvimento de ambas. O formato reduzido sufocou o ritmo. Red Tide, que vinha construindo uma atmosfera primorosa de suspense psicológico, foi obrigada a correr para um desfecho abrupto e anticlimático no sexto episódio. O roteiro simplesmente jogou as resoluções no colo do espectador, sacrificando a coerência em nome do relógio. Se a primeira metade pecou pelo final apressado, a segunda metade desandou por completo. A fusão entre o preto e branco histórico (os anos Eisenhower e os alienígenas) e o núcleo contemporâneo (os jovens clichês em viagem) não encontrou equilíbrio. O segmento moderno careceu de carisma, entregando atuações engessadas e diálogos que beiravam o constrangedor.

A promessa implícita de que as duas partes se amarrariam de forma inteligente evaporou. O que restou foi a sensação de estarmos assistindo a dois projetos inacabados que foram colados às pressas para preencher a grade de programação.Apesar dos tropeços estruturais, seria injusto não reconhecer o requinte técnico e o talento que reluzem em meio ao caos. Visualmente, os seis primeiros episódios entregam uma das melhores atmosferas de toda a antologia. A ambientação cinzenta e gélida de Provincetown, no inverno, evoca um isolamento quase lovecraftiano. A fotografia e a trilha sonora trabalham em perfeita simetria para construir um incômodo constante. A premissa da pílula preta — que desperta o talento genial dos criativos à custa de sua humanidade, enquanto transforma os medíocres em monstros pálidos — é uma sátira brilhante e ácida sobre a indústria do entretenimento, a ambição e o preço do sucesso. O elenco veterano salva a temporada do esquecimento. Evan Peters e Frances Conroy dão um show de excentricidade e humor ácido como a dupla de escritores macabros. Sarah Paulson, irreconhecível como "TB Karen", entregauma das performances mais cruas e viscerais de sua carreira, servindo como o compasso moral daquela comunidade corrompida.

American Horror Story: Double Feature é um espetáculo de potencial desperdiçado. A temporada prova que a criatividade de Murphy e Falchuk continua afiada, mas a ambição estética foi sufocada por um roteiro que não soube administrar o tempo. Vale a experiência pela atmosfera poética e pelas atuações brilhantes de seu início, mas exige do espectador uma boa dose de paciência (e indulgência) com o seu desfecho.

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Diabo Veste Prada 2

 Ana Cecília da Silva Souza


Anunciado quase vinte anos após o sucesso do original, O Diabo Veste Prada 2 retomou ao universo criado por Lauren Weisberger. A trama acompanha Miranda Priestly, ainda à frente da revista Runway, agora enfrentando a decadência do império das revistas impressas e a ascensão de uma nova lógica de consumo de moda. Em paralelo, Andy Sachs retorna à narrativa em uma nova fase da carreira, consolidada profissionalmente, mas novamente atraída para a órbita da antiga chefe. O filme tenta equilibrar nostalgia e atuação temática, apostando menos na comédia de transformação pessoal e mais em um drama sobre poder, legado e adaptação.

O roteiro entende que o sucesso do primeiro filme não estava apenas no universo da moda ou nas falas marcantes de Miranda, mas também no conflito vivido por Andy entre crescer profissionalmente e manter sua própria identidade. Nesta sequência, as personagens aparecem em momentos diferentes da vida. Andy já não é mais a jovem insegura do primeiro filme, enquanto Miranda precisa lidar com um mercado que mudou e que já não funciona da mesma forma de antes.

Apesar de trazer conflitos interessantes, o filme se perde em alguns momentos da própria narrativa. Grande parte da trama gira em torno de Andy precisando reconquistar a confiança de Miranda, o que acaba dando a sensação de que a personagem retrocedeu depois de toda a evolução apresentada no primeiro filme. Enquanto isso, a disputa nos bastidores para derrubar Miranda cria uma tensão que demora muito para avançar e rende diversas cenas que poderiam ser mais objetivas.

O roteiro abre várias linhas narrativas ao longo da história, mas nem todas recebem uma conclusão. Com isso, o filme acaba ficando mais longo do que precisava e, em alguns momentos até arrastado. Embora os reencontros entre as personagens principais sustentem o interesse do público, a narrativa demora para chegar ao ponto e deixa algumas questões sem resposta quando os créditos sobem.O ponto mais forte do filme continua sendo a relação entre Miranda e Andy.

Meryl Streep mostra mais uma vez porque a personagem se tornou tão marcante, entregando uma Miranda firme e intimidadora, mas também mais vulnerável do que no primeiro filme. Desta vez, a personagem precisa lidar com mudanças que fogem do seu controle e com a possibilidade de perder o espaço que construiu ao longo da carreira. Anne Hathaway também convence ao interpretar uma Andy mais madura, embora o roteiro a coloque novamente em uma posição de dependência em relação à antiga chefe. Ainda assim, os encontros entre as duas são os momentos mais interessantes da trama e sustentam boa parte do filme.

No final, O Diabo Veste Prada 2 funciona mais por causa dos seus personagens do que pela história que constrói. O filme traz reflexões interessantes sobre carreira, poder e envelhecimento, principalmente através de Miranda, mas tem dificuldade em desenvolver todos os conflitos que apresenta. Algumas tramas ficam sem uma conclusão satisfatória e o ritmo arrastado prejudica o impacto de determinados acontecimentos. Mesmo assim, a sequência consegue despertar a nostalgia dos fãs e entregar momentos emocionantes, ainda que não alcance o mesmo brilho e a mesma força do filme original.

LITTLE WOMEN


Maria Eduarda Oliveira Sena

O filme Little Women, traduzido como Adoráveis Mulheres, foi lançado em 2019 pela diretora Greta Gerwig e é mais uma das várias adaptações do livro “Mulherzinhas” da escritora Louisa May Alcott. A história apresenta a vida das 4 irmãs March, Jo (Saoirse Ronan), Amy (Florence Pugh), Meg (Emma Watson) e Beth (Eliza Scanlen) contada com sensibilidade e intimidade como se fosse um diário das vivências da família.

A história, apesar de ocorrer em meados de 1860, é abordada de forma bastante atual com o olhar que Greta aderiu para a obra, tirando o que poderia ser mais um filme de época com probabilidade de se tornar “arrastado” e adicionando atemporalidade e dinamicidade para a trama.

A diretora também traz uma fotografia e temporalidade da ordem dos fatos muito interessante e bastante conectada com a história ao utilizar colorações mais quentes para cenas do passado e tons mais frios para os momentos do presente, mostrando o sentimento de nostalgia e felicidade para as situações da juventude. Isso mostra a liberdade que Greta teve ao construir a história diferente do que foi escrita. Ainda ligada a fotografia, também é possível perceber a conexão da sonoplastia com o que as situações, juntamente com a colorimetria, transmitem para o telespectador, trazendo suavidade e animação para as cenas do passado, ou seja, mais quentes e melancolia para as do presente, então tons mais frios como citado anteriormente.

Pelo filme utilizar de uma temporalidade despadronizada, também é possível perceber o  Paralelismo, abordado na obra “A arte do cinema: uma introdução” de David Bordwell e Kristin Thompson. Essa forma de narrativa tem como objetivo utilizar comparativos em ações, escolhas e cenas entre personagens e sem dúvidas, a diretora faz bastante uso desse formato ao “brincar” com essas trilhas sonoras, cores e cenas do passado que tem referência ou similaridades no presente, o que já contribui para um diferencial não só entre as próprias adaptações já feitas do livro, mas também sai do tradicional que é produzido na indústria cinematográfica.

O elenco, que não deve ter sido barato, faz compensar com a entrega espetacular dos atores que não só faz o telespectador se sentir parte daquela vivência, mas também faz sofrer e torcer pelo sucesso dos personagens. Apesar do claro protagonismo da Jo, é notório que ainda sim cada um dos participantes conseguiu ter seu destaque com o desenvolvimento e atuação.

O final do filme traz uma quebra de expectativa ao ser um final aberto saindo do que o livro aborda e sendo totalmente realizado por escolha da Greta. Quando a obra é finalizada o telespectador não sabe se aquilo que foi apresentado realmente aconteceu ou se foi uma realidade alternativa acrescentada pela diretora que, para alguns, não foi bem aceita.

Mas mesmo com em média 7 adaptações da história para as telas, por que a Greta teve tanto destaque? Todas essas mudanças e liberdade que construiu em seu filme alteraram a essência do livro ou potencializam o que era bom? Será que o final em aberto escolhido pela diretora foi a melhor escolha? Apesar desses questionamentos não se pode negar que é sim um filme cativante, mesmo sendo de época traz apontamentos e inovações que persistem até hoje.

Hamilton

 Mariana Gonçalves Pereira


Quando morremos, quem conta a nossa história?

Essa é a pergunta que nos guia pela narrativa de Hamilton, o musical mais notável que a Broadway recebeu na última década. A fama é tanta que ele foi até gravado profissionalmente e disponibilizado nas plataformas digitais para que os fãs pudessem experimentar um pouco do teatro dentro da própria casa, e a produção conta até com simulação de intervalo entre os atos.

Mas afinal, o que há de tão especial em uma obra sobre a vida de um dos pais fundadores dos Estado Unidos? E adendo, não estamos falando de George Washington ou Thomas Jefferson, mas sim de um certo Alexander Hamilton, já ouviu falar?

Lin Manuel-Miranda, compositor do musical, encontrou uma forma de fazer arte com algo que geralmente leva as pessoas a dormir durante a aula de história. A narrativa acompanha a ascensão e queda de Alexander Hamilton, um imigrante que chegou a ser secretário do tesouro dos Estados Unidos e um dos autores da constituição deste país. A chave para o acerto do musical está grandemente na vida do próprio Alexander - de um sem ninguém em um país de terceiro mundo para um dos homens mais poderosos do país que ajudou a construir. No entanto, a principal chave para garantir que essa obra fosse interessante e fizesse sentido era o talento de Lin, e ele tem de sobra.


A história é contada apenas através de músicas - se existem falas, elas estão recheadas de rimas para se encaixar na canção. E não apenas quaisquer músicas, em sua maioria elas são rap ou hip hop. Essa escolha também não foi por acaso, a vida frenética de Hamilton, como ele não parava por nada nem ninguém, e como ele sempre escrevia como se seu tempo estivesse acabando, combina perfeitamente com o estilo rápido e ríspido do hip-hop. Além disso, o musical traz outro toque interessante: apenas atores não brancos foram escolhidos para representar todos esses personagens históricos que eram, de fato, todos brancos. A combinação de aspectos não convencionais para um musical, ou para uma produção audiovisual em geral, formam uma peça não só muito interessante, como genial.

A gravação profissional feita da peça consegue realçar muito bem outro aspecto que pode passar despercebido quando a vê ao vivo: toda a dinâmica de luzes e de micro expressões dos atores, que realçam cada palavra que eles estão cantando. A gravação profissional também coloca luz em um grande debate do mundo dos musicais: existe diferença entre simplesmente gravar a apresentação da Broadway e fazer uma produção cinematográfica completa da história retratada no musical? Aqui, a direção de Thomas Kail opta pela primeira opção. E não poderia ser diferente - a história já é contada inteiramente apenas através das músicas, o que tornaria desnecessário qualquer diálogo adicional que seria preciso para compor um filme.

O jeito como as músicas vão se encontrando ao longo da produção, uma fazendo referência a outra, e a narrativa frenética que faz você sentir que o tempo do protagonista está acabando, até que de fato acaba, torna tudo genial. Tudo isso é potencializado quando percebemos a real mensagem por trás da produção: quando morremos, quem conta a nossa história? Alexander estava tão preocupado em ser um dos grandes, que não pensouque o único jeito de isso acontecer era tendo sua história contada. E em grande parte, ele não teve. Quando você pensa nos pais fundadores dos Estados Unidos, você não pensa em Alexander Hamilton. Ou melhor, não pensava. O musical Hamilton, e ainda mais a gravação veiculada no Disney Plus, difundiu a história dele mais do que qualquer aula na escola poderia ter feito. E aí entra também o poder da arte: ela une países, línguas, e ensina mesmo que seja do mais não convencional possível. Como cantam - de fato, a história tem os olhos em você.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

The Testaments (2026)


 Ana Beatriz Medeiros Santos 

Lançada como spin-off de "The Handmaid's Tale", a primeira temporada de "The Testaments" adapta a obra de Margaret Atwood para expandir a mitologia de Gilead, uma ditadura extremista e patriarcal que usurpou o governo americano e institucionalizou a servidão reprodutiva e social das mulheres. Em sua narrativa, o terror psicológico sufocante da antecessora transita para um formato mais ágil, próximo ao thriller de espionagem. A série foca na corrupção institucional, no trauma geracional e na cumplicidade necessária para a manutenção e eventual queda de regimes totalitários. 

O enredo avança quinze anos e abandona o foco singular para entrelaçar três jornadas. No centro do poder, acompanhamos Tia Lydia, que secretamente orquestra a ruína do sistema que ajudou a criar. Em paralelo, a série segue Agnes, uma jovem da elite de Gilead que começa a questionar sua realidade, e Daisy, uma adolescente canadense que vê sua vida virar de ponta-cabeça ao descobrir ser um símbolo da resistência. Os caminhos das três convergem em suas próprias missões de sobrevivência e revolta. 

O grande mérito da temporada, além da desconstrução de Tia Lydia, é a força demonstrada pela nova geração. Agnes e Daisy não são vítimas passivas e revelam resiliências complementares: a subversão intelectual e cuidadosa de quem cresceu dentro do sistema, e o ímpeto explosivo de quem cresceu livre. Por outro lado, a narrativa sofre com uma mudança brusca de tom. Ao adotar um ritmo acelerado, a obra flerta com aventuras adolescentes e depende de atalhos e coincidências no roteiro. Essa pressa enfraquece a tensão dramática, fazendo com que o perigo antes implacável de Gilead pareça fácil de ser burlado. 

No fim, a história deixa claro que regimes baseados em opressão carregam a semente de sua própria destruição. A série acerta ao contrastar as concessões morais de Lydia com a recusa das garotas em aceitar um mundo quebrado, provando que a doutrinação nunca é absoluta. Embora a facilidade na superação dos obstáculos afaste o espectador do pavor original e prejudique a verossimilhança, "The Testaments" entrega uma catarse necessária. A obra comprova que a tirania tem prazo de validade e que as estruturas usadas para oprimir podem se tornar a chave para a libertação. 

We Are Who We Are

Geildson Rhamon Nascimento de Souza

Estreada em 2020, _We Are Who We Are_ é uma minissérie dirigida por Luca Guadagnino. Conta a história de um grupo de jovens que vivem suas vidas dentro de uma base militar americana fictícia localizada na região do Vêneto, na Itália. À medida que a trama avança, vemos as lutas sociais e questões políticas que perpassam a vida desses jovens, principalmente dois deles: Fraser Wilson e Caitlin.

Ambos são os pilares que movimentam a vida das outras pessoas.

A direção de Luca muitas vezes é descrita como limpa, bonita, real e, algumas vezes, tediosa. Tudo isso está impregnado nessa minissérie. Para retratar o cotidiano com uma realidade astuciosa, Guadagnino não se importa se, para quem assiste, ficar chato, tedioso ou sem graça. Ele quer retratar a vida dos jovens dentro de sua prontidão. Isso poderia ser apenas negativo, não é possível negar que não seja. Ninguém gosta de assistir sobre o cotidiano normal de jovens, mas, quando olhamos para a minissérie como um todo, é possível enxergar algo onírico e único: a época em que a minissérie se passa é 2016, o conceito político dos Estados Unidos estava fragilizado e os jovens rebeldes dentro da moda, música e arte no geral. E quando isso adentra numa base militar, é claro que vai resultar em loucuras, afinal… são jovens.

A trilha sonora pertence quase toda ao Blood Orange, grande artista negro americano no qual é retratado como cantor/banda favorita do protagonista. O roteiro de Luca, Paolo Giordano e Francesca Manieri é, algumas vezes, muito enrolado. Não é que a direção de câmera queira; é que o roteiro, logicamente, deveria facilitar a trama, e não é isso que acontece. Felizmente, é um roteiro que entende muito bem os jovens de 2016. A ousadia deles é notável, porém deslizante em alguns momentos, e isso não torna _We Are Who We Are_ menos especial. Muito pelocontrário: até os erros do roteiro ajudam quem assiste, de certa forma, e isso é claramente observável quando se assiste. Existe uma sensação única, a de que a trama é imersiva.

E o que falar da direção de arte e da fotografia? Os grandes pontos fortes dessa minissérie, claro, além das atuações naturais do elenco de jovens composto por: Jack Dylan Grazer fazendo Fraser Wilson, Jordan Kristine Seamon fazendo Caitlin, Tom Mercier como Jonathan, Francesca Scorsese como Britney, Benjamin L. Taylor II como Sam e Spence Moore II como Danny. Eles, juntamente das posições de câmera, styling de seus personagens e paisagens, compõem bem a anemoia causada no espectador, que se deslumbra até dos momentos mais difíceis dentro da história. É de uma delicadeza única, uma unidade que entende o que é ser jovem: às vezes rebelde, às vezes dentro de um padrão e, às vezes, obrigado a viver uma vida que não quer. Respeitar o que é ser jovem é muito importante para a composição de tramas que o representem, e _We Are Who We Are_ faz isso com maestria.

The Mighty Nein

 
Ray Eduardo Cunha Soares

“The Mighty Nein” acompanha um grupo improvável de aventureiros em um mundo de fantasia marcado por conflitos políticos, mistérios antigos e traumas pessoais. A trama se inicia acompanhando diferentes personagens em núcleos separados, cada um carregando seus próprios objetivos, segredos e problemas. Diferente de muitas histórias de fantasia em que os protagonistas rapidamente se tornam amigos, aqui existe um clima constante de desconfiança. Paralelamente, a série apresenta o mistério envolvendo o “Luxon Beacon”, um artefato com um estranho poder sobre às almas, está ligado às tensões entre nações e que já é introduzido como uma peça importante da narrativa. Aos poucos, os destinos desses indivíduos se cruzam até que formam o grupo “Mighty Nein”.

A adaptação do que era um RPG de mesa para uma série animada não é uma tarefa simples, mas a animação é muito boa, não apresenta nada particularmente de novo dentro do gênero de fantasia, porém faz muito bem seu papel com uma boa direção de arte. Têm coreografias de combate incríveis e uma história extremamente cativante a dublagem merece destaque, pois os dubladores são os próprios jogadores, que são dubladores profissionais, e entregaram um trabalho incrível.

Cada membro do grupo possui uma história própria que vai sendo revelada no momento certo, tornando-os muito mais interessantes do que simples arquétipos de aventureiros. A amizade entre Caleb e o/a goblin Nott começa de forma frágil e silenciosa, mas evolui para uma confiança mútua muito bonita de acompanhar. Da mesma forma, a dinâmica entre Fjord e Jester aponta para um relacionamento romântico bastante cativante, embora Fjord ainda omita alguns fatos sobre sua istória. Já Kingsley surge como uma figura intrigante, aparentemente sofrendo de amnésia, mas com uma personalidade forte e peculiar. Curiosamente, ele não é o tipo de personagem que tenta unir o grupo; sua importância está justamente em fortalecer aos poucos os laços que já começam a surgir entre os demais. Também merece destaque Beau, uma monge da Alma de Cobalto, uma desbocada, teimosa e avessa a seguir ordens, ela busca fazer o que considera certo seguindo seus próprios princípios, com uma personalidade bem inquisitiva. Juntos, esses personagens formam um completo caos. Ao mesmo tempo, quando a narrativa decide adotar um tom mais sério, ela consegue transmitir tensão, angústia e emoção com eficiência. Um desses momentos é protagonizado pelo Caleb que talvez seja o caso mais impactante. Seu passado extremamente trágico e pesado adiciona uma carga emocional inesperada à narrativa, transformando-o em um dos personagens mais marcantes da temporada.

Porém, alguns momentos da narrativa apresentam reações que não parecem condizer totalmente com os acontecimentos. O exemplo mais evidente envolve Kingsley. Após os integrantes do grupo, ainda que sem intenção, contribuírem para libertar uma criatura que acaba matando várias pessoas importantes do circo onde ele vivia, sua reação emocional parece surpreendentemente contida. Mesmo após enfrentar e derrotar a criatura, o personagem demonstra tristeza, mas não da quantidade esperada diante da sequência de tragédias que sofreu em tão pouco tempo, o que enfraqueceu parte da carga dramática da situação na minha opinião.

Com apenas oito episódios, The Mighty Nein termina deixando um forte sentimento de “quero mais”. A série mesmo tendo um mundo fantástico interessante, inspirado no clássico D&D, sua maior força se apresenta nos seus personagens. Com momentos hilários, amizades improváveis, traumas profundos e relacionamentos em construção, a animação consegue transformar um grupo de desconhecidos desajustados em protagonistas pelos quais o público goste e possa torcer.